Você comeria carne humana neste Natal?

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O título acima é uma desesperada tentativa de captar a tua atenção. Intuo que esta edição da Press será crivada por incontáveis retratos e sinto que o fim deste traumático ano nos leva a ansiar por amenidades. Ler textão? Nem que a vaca tussa! (Apelei, sim, mas realmente abordarei a antropofagia e, de quebra, também  a haruspicação.  Acompanhe-me…)

Ser jurado pressupõe respeitar a quem se inscreve ou recebe indicação, a quem promove o certame e a quem dedica atenção ao resultado. Não é um encargo para displicentes sedentos de visibilidade. Julgar não é, nem poderia ser, momento de brilhatura pessoal. Queres extrapolar este compromisso na área da Imprensa para a do Direito? À vontade.

Há décadas avalio produções e pessoas. Faço isso em sala de aula (graduação em Jornalismo) e em concursos. É grande o rol destes, nenhum igual ao outro.  Sou um dos 48 nomes listados como responsáveis pela escolha final do Prêmio Press 2018 e a avaliação foi calcada sobre 418 mil votos conferidos a 380 profissionais. Estar presente à cerimônia de entrega pareceu-me o final indispensável à missão que me foi confiada.

Enviei minhas preferências em relação aos finalistas das 17 categorias, embora lamentando, aqui e ali, ausências estabelecidas pelo critério quantitativo. Minhas escolhas bateram em adequado percentual com os resultados anunciados. O verdadeiramente importante, porém, foi sentir a vibração das torcidas, os risos, as vozes embargadas e as lágrimas de quem levou diploma e troféu. Vencedores? Todos os 380 concorrentes, acho eu, porque se trata de uma festa de confraternização e de reafirmação da importância do Jornalismo. Não é pouca coisa.

E não é pouca coisa porque a Imprensa precisa estar unida na defesa de sua essência: a produção de informação relevante, isenta e de qualidade. Detecto preocupante crescimento de episódios de antropofagia e casos, inclusive, de autofagia. Os comensais são empresas – por meio de pessoas tacitamente autorizadas – e jornalistas, por iniciativa própria. Então, para aquelas e estes, o desafio é deixar de comer carne humana atendendo ao preceito igualmente essencial de todas as boas religiões: a fraternidade.

Quem acha indispensável abrir animais ou pessoas para analisar suas entranhas e sondar o futuro?  Não estaríamos, alguns de nós, agindo como harúspices?  Harúspices, os praticantes da haruspicação… Aqueles sacerdotes da Roma Antiga versados nesta arte adivinhatória. Só que não é assim que os jornalistas e empresários devem prospectar o futuro. Nem com bolas de cristal ou com a jactante postura de quem já viu de tudo, sabe tudo e, portanto, tem opinião mais potente que os fatos.

Jornalistas – especialmente os “de opinião” – também não deveriam valer-se da dúbia estratégia de proferir comentários suficientemente ambíguos, marcados por entonações estudadas e olhares profundos,  e do uso da singular técnica de dar “uma no cravo, outra na ferradura” para oscilar entre amores e ódios a fim de garantir o quê, mesmo? Ah! A tal da audiência!

Quando foi que passamos a medir qualidade profissional pelo indicador da repercussão nos públicos? Quando foi que começamos a considerar que talvez seja salutar para a empregabilidade mendigar cliques como testemunhais comprobatórios de que o que falamos ou escrevemos é importante?  Quando, enfim, formato e repercussão (mesmo aquela carente de toda reflexão crítica inteligente e respeitosa) passaram a confrontar, com cada vez mais força, o conteúdo jornalístico produzido? Ou, revendo a última pergunta, até quando?

Atualizo o título, agora evidenciado como metáfora ao invés de eventual proposta gastronômica. Precisamos parar de comer carne humana ou de contribuir, por ações e inércias, para que sigam comendo. O Natal é data simbólica para deflagrar tal propósito, mas a melhor é hoje mesmo.