Vitivinicultura: campeões da Serra Gaúcha

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Já tem um certo tempo que os vinhos e espumantes produzidos no Rio Grande do Sul têm ganhado destaque no cenário internacional em competições específicas. Mas, nos últimos anos, houve um salto no número de espumantes e vinhos da Serra gaúcha premiados.

Neste ano, uma boa notícia veio para a Cooperativa Vinícola Garibaldi: o espumante Garibaldi Moscatel recebeu medalha Gran Ouro no concurso Catad’Or Wine Awards, realizado em Santiago, no Chile. No ano passado, foi a vez da Casa Perini emplacar seu Perini Moscatel como quinto melhor vinho do mundo na lista dos melhores de 2017, divulgada todos os anos pela Associação Mundial de Escritores e Jornalistas de Vinhos e Destilados.

O potencial do Brasil como país produtor dessa variedade de bebida tem chamado a atenção do mercado global – reconhecimento que coroa um trabalho árduo em busca da excelência. No caso da Cooperativa Vinícola Garibaldi, esse desempenho, resultado de conhecimento, tecnologia e inovação reflete a expertise da cooperativa na elaboração de espumantes e, em especial, o moscatel.

“É um processo que exige planejamento e dedicação. Inclui desde o aproveitamento do terroir específico de nossa região, acertadamente conhecida como ‘terra do champagne’, passando pelo cuidado de orientação junto às famílias associadas, o recebimento e a seleção das uvas e o uso de tecnologia de ponta para as etapas de vinificação e envase”, afirma Oscar Ló, presidente da Garibaldi e também do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin).

Com foco na elaboração de espumantes, uma equipe de agrônomos e enólogos atua próxima aos associados, passando informações sobre necessidades particulares para o cultivo de cada variedade de uva. O trabalho inicia com o acompanhamento das famílias desde a poda nos vinhedos, entre os meses de julho e agosto, quando a equipe já pré-determina o quanto a videira vai produzir. Assim, pode-se estipular uma quantidade racional por hectare, evitando excessos.

Depois, quando a planta volta ao ciclo de atividade com brotagem e florescência, é feito um acompanhamento dos tratos culturais, como cuidados fitossanitários e poda verde. “Esses cuidados tornam o acompanhamento das videiras mais preciso, resultando em uvas mais sãs e aromáticas. Na safra 2018, por exemplo, tivemos uvas com qualidade diferenciada, mais maduras – ideais para produzirmos espumante Moscatel doce e estruturado”, destaca o enólogo Ricardo Morari.

O passo a passo nos vinhedos encerra entre o final de fevereiro e início de março, com a colheita das uvas moscatéis. Chegando à vinícola, a equipe trabalha com as uvas em um ambiente reduzido, isto é, sem contato com oxigênio. Essa condição se mantém nos processos de prensagem, clarificação, filtração e estabilização do mosto – evitando, portanto, oxidação e perda dos aromas e qualidade do produto.

A prensagem é realizada em equipamentos com tecnologia italiana que permitem uma preparação mais eficiente da primeira fração de mosto – que é a utilizada no moscatel. A conclusão se dá com clarificação e filtração, realizadas com tecnologia de ponta para conservar o padrão do mosto ao longo do ano.

“A tecnologia é primordial para garantir a qualidade dos espumantes desde o cultivo das uvas até a elaboração das bebidas. Além do conhecimento humano, que é muito importante, a Cooperativa Garibaldi não para de investir em novos equipamentos”, destaca Ló.

Tanto cuidado foi reconhecido com a premiação neste ano. Elaborado pelo processo Asti, o Garibaldi Moscatel possui coloração clara com reflexos esverdeados e aspecto brilhante, além de ótima formação de perlage. No olfato, aromas com notas de melão, maçã verde, flores brancas e um toque de mel são mais marcantes. Em boca, acidez e açúcar equilibrados garantem suavidade e refrescância. Preço médio de R$ 33,00.

Diego Bertolini /divulgação Ibravin

Profissionalização do vinho
Este trabalho de profissionalização do vinho e do espumante gaúcho começou ainda na década de 1970, com a chegada de multinacionais como Chandon e Bacardi ao Estado. Foram elas que começaram a desenvolver a tecnologia da vitivinicultura por aqui, segundo informações de Diego Bertolini, gerente de promoção do Ibravin.

Depois, entre a década de 1990 e o ano 2000, houve um trabalho intenso, entre os produtores locais, de investimento em tecnologia e reconversão de vinhedos. “Isso levou dez anos para se efetivar, por que é um processo demorado na vitivinicultura”, relata Bertolini.

Com isso, aliado à pesquisa, foi reconfigurada toda a produção gaúcha de vinhos e espumantes. É neste momento também que entra a Campanha Gaúcha como nova região produtora, também apostando em mão-de-obra qualificada e investimentos. “Hoje temos grandes vinícolas como Valduga, Miolo e Salton produzindo por lá. Muitas conseguem competir de igual para igual com Chile e Argentina”, explica Bertolini.

O gerente do Ibravin destaca que é feito um trabalho intenso de promoção do produto brasileiro no exterior. E, mesmo no mercado interno, as campanhas de incentivo ao consumo e a promoção do vinho nacional em eventos, têm obtido bons resultados.

“Se pegarmos o consumo per capita nos últimos 20 anos, se mantém o mesmo no Brasil. Contudo, o tipo de produto vendido mudou. Aquele vinho de garrafão, ou mesmo em garrafa plástica, perdeu espaço para os vinhos de boa qualidade que produzimos aqui”, pondera Bertolini.

Ele exemplifica que o faturamento do setor, em 2008, era de R$ 800 milhões – ano passado, chegou a R$ 2,5 bilhões. Cerca de 60% desta receita vem do mercado interno. O espumante brasileiro tem compradores no exterior, com o Chile como maior mercado.

Espumante Moscatel da Garibaldi/divulgação

No encalço dos millennials
Neste segundo semestre, o setor vitivinícola brasileiro desenvolveu um novo posicionamento coletivo para ampliar a cultura da bebida no Brasil. Resultado de quase dois anos de estudos, embasado em pesquisas de mercado e de imagem, o foco da ação são os millennials, ou Geração Y, como são conhecidos os nascidos nas décadas de 1980 e 1990.

O objetivo é criar uma aproximação com o perfil desse público, desmitificando o processo de escolha e consumo, além de levar uma mensagem mais leve, descontraída e menos burocrática da bebida.

O gerente de Promoção do Ibravin, Diego Bertolini, informa que, entre as estratégias para atrair este público-alvo, estarão eventos de promoção voltados para consumidores finais, ações com influenciadores e formadores de opinião. Também já foi lançada uma campanha publicitária, intitulada “Seu Vinho, Suas Regras”, que promove uma ruptura dos conceitos de degustação formal do vinho.

Bertolini usa a cerveja como exemplo. “Porque ela vende tanto? Ela é muito gelada, isso que atrai o consumidor. Então porque não beber vinho gelado também? O sabor não altera e ele fica mais leve, então temos que levar essas questões para o consumidor, que ainda pensa muito na questão do vinho como ritual à mesa”, relata o gerente do Ibravin.

Ainda segundo ele, a geração Millennial é responsável por 52% do poder de compra hoje. “É um público socialmente ativo, que tem um perfil descontraído, de personalidade forte, seguro de suas escolhas, que faz questão de dar a sua opinião e exige liberdade no estilo de vida”, complementa.