Valiosa cevada

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Grão cobiçado pelo mercado da cerveja, a cevada tem destino líquido e certo. Antes mesmo do plantio, toda a produção já está destinada para gigantes cervejeiros, como a Ambev e a cooperativa paranaense Agrária. O Rio Grande do Sul e o Paraná são os maiores produtores da chamada cevada cervejeira. A média anual é de 300 mil toneladas do cereal. Parece muito, mas é apenas um terço do que necessitam as maltarias do Brasil.

O malte é o produto obtido pelo processo de malteação. Ele consiste na germinação do grão de cevada, em condições controladas, por até seis dias, e depois interrompida por secagem com altas temperaturas. No Brasil e no mundo, malte de cevada é destinado principalmente à produção de cervejas.

“O restante é comprado do Mercosul, principalmente da Argentina. Não há imposto de importação, então a cevada vem de lá muito facilmente e supre essa carência da indústria”, explica Euclydes Minella, pesquisador da Embrapa Trigo. Assim como o trigo, outra cultura importante de inverno, a cevada encontra dificuldades para chegar em uma hipotética autossufiência: precisaria ocupar espaço de outros grãos e lidar com um problema incontrolável, o clima.

“Não temos como prever o tempo e o produtor não irá plantar cereal de inverno se o prognóstico for chuvoso. É a água em excesso que causa perdas na lavoura”, conta Minella. Umidade, por sinal, é o que menos se deseja na cevada. Uma das fases mais sensíveis é a secagem. Hoje, o modo mais indicado é fazer a secagem indireta, em que o calor passa por fora do cilindro com a cevada. “Se você colocar calor diretamente na massa de grãos, pode deixar gosto de lenha na cevada e, consequentemente, no malte, algo não desejado pela indústria da cerveja. Então é um processo delicado”, diz.

No Rio Grande do Sul, a produção está concentrada em duas áreas: a região Norte, especialmente na microrregião de Passo Fundo (20% da produção) e de Erechim (10%), além da região Central do Estado, em municípios como Santiago (10%) e Cruz Alta (9%). No Paraná, destaque para as microrregiões de Guarapuava (67% da produção paranaense) e de Ponta Grossa (12%). Há um pouco de cevada também em Santa Catarina, nas regiões de Canoinhas (57%), Curitibanos (26%) e Xanxerê (11%).

Segundo a Embrapa, o cuidado já começa na colheita. O mercado de cevada cervejeira segue os padrões de qualidade estabelecidos na Portaria 691/96, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Segundo essa legislação, a cevada para malte deve apresentar índice mínimo de 95% de poder germinativo e máximo de 13% para umidade, 12% para proteínas, 3% para matérias estranhas e 5% para grãos avariados.

Além disso, é desejável que os grãos apresentem cor e cheiro característicos de palha. Dessa maneira, cuidados devem ser tomados para evitar perdas nessa importante fase do processo de produção. A prática da dessecação por herbicidas não é recomendada pela possibilidade de causar prejuízo ao poder germinativo e o acúmulo de resíduos no grão. Além disso, não existem produtos registrados para o uso em cevada.

Cevada – Euclydes Minella – Foto: Embrapa

Microcervejarias
Minella esclarece que há outras regiões do Brasil, hoje, produzindo cevada, como no Cerrado, com irrigação – se conseguem boas produtividades. “Claro que, em termos de produção, é uma alternativa para aumentar o volume interno, mas para o agricultor de lá há outras opções de grãos mais rentáveis. Então também é uma competição”, relata o pesquisador da Embrapa Trigo.

Na área da pesquisa, a Embrapa exerce um papel importante no desenvolvimento da cevada. Em média, 70% das variedades plantadas no Brasil vieram da instituição. Há, ainda, outros players atuando em pesquisa, como a própria Ambev e cooperativas do Paraná.

É naquele estado, por sinal, que se encontra a Maltaria Agrária, a maior da América Latina e que abastece 30% do mercado nacional de malte. Após recente ampliação, a indústria localizada em Guarapuava tem capacidade para processar 350 mil toneladas de malte por ano e passou a produzir alguns maltes especiais, como Pale Ale, Vienna e Munique, todos com cevada 100% nacional.

Mercado não falta e ele é disputadíssimo. Além das gigantes como Ambev, as cervejarias artesanais têm caído no gosto do consumidor. Existem, no Brasil, cerca de 200 microcervejarias e 30 cervejarias regionais de médio porte. Boa parte delas está concentrada em São Paulo e, em segundo lugar, vem o Rio Grande do Sul.

De acordo com o Sebrae, é um nicho crescente: o Brasil é o terceiro maior produtor da bebida no mundo, atrás de Estados Unidos e China, e deixa para trás a Rússia e a Alemanha. No perfil de consumidor, enquanto a classe C opta pelas grandes marcas, as classes A e B buscam produtos que apresentem diferenciação, atributo fortemente encontrado nas cervejas artesanais.

Na última década, a produção de cerveja no Brasil aumentou 64%, saltando de 8 bilhões para 13,4 bilhões de litros anuais, conforme dados do Sistema de Controle de Produção de Bebidas da Receita Federal (Sicobe).