17/01/2018

Grandes Nomes

Rubem Braga, o mestre da crônica

No começo de 2018, o jornalismo e a literatura brasileira celebram os 105 anos de nascimento de Rubem Braga. Considerado por diversos críticos o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis, um verdadeiro mestre da poesia em prosa, a obra do escritor contribuiu para dar à crônica nacional seu desenho moderno, de tom confessional e com foco no detalhe, e um lugar próprio no cânone literário brasileiro.

Rubem Braga nasceu na cidade de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, a 12 de janeiro de 1913. Seus pais foram Francisco de Carvalho Braga (primeiro prefeito de Cachoeiro) e  Rachel Coelho Braga. Iniciou seus estudos naquela cidade, porém, quando fazia o ginásio, revoltou-se com um professor de matemática que o chamou de burro e pediu ao pai para sair da escola. No entanto, sabe-se que, quando criança, gostava mais da praia e do futebol do que da escola, o que levou a algumas repetições de ano e várias confusões. Sua família o enviou para Niterói, no Rio de Janeiro, onde moravam alguns parentes, para estudar no Colégio Salesiano.

Iniciou-se no jornalismo profissional ainda estudante, aos 15 anos, no Correio do Sul, em Cachoeiro de Itapemirim, jornal fundado em 1928 por seus irmãos mais velhos Armando e Jerônimo. Além de contribuir com reportagens, ganhou uma coluna própria no veículo chamada Carta do Rio, em alusão ao local onde morava. Quando se mudou para Minas Gerais,o, o espaço mudou o nome para Carta de Minas, e o autor também passou a publicar uma crônica diária no Diário da Tarde, de Belo Horizonte. Para o mesmo jornal também contribuía seu outro irmão, o jornalista e poeta Newton Braga.

Iniciou a faculdade de Direito no Rio de Janeiro, mas se formou em Belo Horizonte, em 1932, depois de ter participado, como repórter dos Diários Associados, da cobertura da Revolução Constitucionalista, em Minas Gerais. No front da Serra da Mantiqueira, conheceu Juscelino Kubitschek de Oliveira (futuro presidente do Brasil) e Adhemar de Barros (governador de São Paulo). Nunca exerceria a profissão de advogado. Em fins de 1933, passa a trabalhar no Diário de São Paulo como cronista e repórter ao lado de nomes como Mario de Andrade (crítico de música), com quem não se deu muito bem.

Em 1935, Antônio de Alcântara Machado, que também trabalhava no Diário de São Paulo, é convidado para dirigir o Diário da Noite, no Rio de Janeiro e leva-o junto. No Rio de Janeiro passa algum tempo fazendo crônica diária, mas logo passa a viver no Recife, assumindo a direção da última página (crônica policial) do Diário de Pernambuco. Depois de um desentendimento com Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, funda, ainda em 1935, o jornal Folha do Povo, que fazia oposição a Getulio Vargas. Sua atitude política lhe rende uma série de prisões e mudanças constantes, vindo a trabalhar em diversos jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, exercendo as funções de repórter, redator, editorialista e cronista em jornais e revistas. A Folha do Povo foi fechada quatro meses após a inauguração durante o processo de repressão à Intentona Comunista e só voltou a circular dez anos mais tarde, integrando a cadeia de jornais do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

O ano de 1936 foi duplamente marcante. Na vida pessoal, pelo casamento com Zora Seljan Braga, de quem posteriormente se desquitou, mãe de seu único filho Roberto Braga. Para seus leitores, pelo lançamento de seu primeiro livro, “O Conde e o Passarinho”, pela Editora José Olympio. A crônica que dá título à obra começa com a frase “A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser conde”, que pode ser aplicada ao perfil do autor: tal qual sua obra, redigida em linguagem simples e textos curtos, Braga ficou conhecido pelo temperamento introspectivo e solitário.

Em 1938, Rubem Braga fundou com os colegas de profissão Samuel Wainer e Azevedo Amaral a revista Diretrizes ‒ outra empreitada que foi tirada de circulação na década de 1940 por ordem do governo. Após a publicação de seu segundo livro, O Morro do Isolamento, o escritor tomou parte como correspondente de guerra do Diário Carioca na campanha da Força Expedicionária Brasileira (FEB) em Monte Castelo, na Itália, em 1945 – ocasião em que ficou amigo do jornalista Joel Silveira. A experiência ‒ relatada no livro Com a FEB na Itália e que rendeu textos cujo foco estava no cotidiano dos soldados em vez de grandiosas coberturas de guerra ‒ contribuiu para que Braga se tornasse um especialista no “jornalismo de autor”, estilo que alimentou sua produção de crônicas.

De volta da guerra, o escritor se estabeleceu definitivamente no Rio de Janeiro, primeiro numa pensão do Catete, onde foi companheiro de Graciliano Ramos; depois, numa casa no Posto Seis, em Copacabana; por fim, numa cobertura no 22º andar na Rua Barão da Torre, em Ipanema. Lá, mantinha uma horta, colhia pequenas frutas e criava passarinhos soltos, em um verdadeiro pomar suspenso.Rubem Braga passou a escrever crônicas e críticas literárias para o Jornal Hoje , da Rede Globo, e para os jornais Folha da Tarde, Folha da Manhã e Folha de São Paulo.

Foi enviado novamente ao exterior em 1947, como correspondente do Globo em Paris, e do Correio da Manhã, em 1950. Três anos depois, foi nomeado Chefe do Escritório Comercial do Brasil em Santiago, no Chile. Em 1961, com Jânio Quadros na Presidência e Affonso Arinos no Itamaraty, tornou-se Embaixador do Brasil no Marrocos, cargo que ocupou até 1963.

Em 1960, junto com Fernando Sabino e Walter Acosta, fundou uma cooperativa de autores, a Editora do Autor, que chegou a publicar obras de J. D. Salinger, Jean-Paul Sartre, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos e Vinícius de Moraes. Já em 1966, após uma divisão da sociedade, juntamente com Fernando Sabino e Otto Lara Resende formou a editora Sabiá, responsável pelo lançamento no Brasil de escritores como Gabriel Garcia Márquez, Pablo Neruda e Jorge Luis Borges.

Como escritor, Rubem Braga teve a característica singular de ser o primeiro autor nacional de primeira linha a se tornar célebre exclusivamente através da crônica, um gênero que não costumava ser recomendado a quem almeja a posteridade. Certa vez, solicitado pelo amigo Fernando Sabino a fazer uma descrição de si mesmo, declarou: “Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte. Como o marido que tem que dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma obrigação. Sou uma máquina de escrever com algum uso, mas em bom estado de funcionamento”.

Segundo o crítico Afrânio Coutinho, a marca registrada dos textos de Rubem Braga é a “crônica poética, na qual alia um estilo próprio a um intenso lirismo, provocado pelos acontecimentos cotidianos, pelas paisagens, pelos estados de alma, pelas pessoas, pela natureza.”

A chave para entender a popularidade de sua obra, toda ela composta de volumes de crônicas sucessivamente esgotados, foi dada pelo próprio escritor: ele gostava de declarar que um dos versos mais bonitos de Camões (“A grande dor das coisas que passaram”) fora escrito apenas com palavras corriqueiras do idioma. Publicou “Ai de Ti Copacabana”(1960).”A Traição das Elegantes” (1967), “Recado de Primavera” (1984) e “As Boas Coisas da Vida”(1988), entre outros. No total, deixou mais de 15 mil crônicas produzidas em 62 anos de jornalismo.

Em decorrência de um tumor na laringe que preferiu não tratar, Rubem Braga faleceu em 19 de dezembro de 1990, aos 77 anos, sedado em seu quarto no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. Dias antes, reuniu os amigos em sua cobertura em Ipanema e pediu que fosse deixado sozinho no hospital e que não houvesse velório nem qualquer cerimônia fúnebre.

Desde 1987, a casa da família Braga está aberta à visitação em Cachoeiro do Itapemirim como destino turístico-cultural para guardar a memória de seus integrantes. Em 2010, o terceiro acesso à estação de metrô General Osório, na zona sul do Rio, foi batizado como Complexo Rubem Braga em homenagem ao escritor, que morava no prédio vizinho.

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