21/10/2017

Opinião

Roberto Jardim: É preciso repensar o Jornalismo

O Jornalismo é uma ferramenta fundamental para a sociedade. O problema, na atualidade, é que a busca por audiênciae,muitas vezes, a falta de concorrência têm feito os veículos deixarem de lado o que de mais essencial elestêm a dar: Jornalismo de qualidade.

Voltemos alguns anos no calendário. 8 de setembro de 2001, um sábado. O Diário Gaúcho teve como manchete um assunto nada usual para um jornal popular.“Vida em Marte?”, gritavam as letras em corpo garrafal na primeira página.

Corta para hoje. 17 de agosto de 2017, uma quinta-feira. Programas de grande audiência nas rádios e tevês deram um espaço para um vídeo do YouTube, produzido no Interior gaúcho. As imagens mostram um filho assustando a mãe com um drone.

Curioso. E só. Interesse social? Nenhum. Interesse comunitário? Nada. Zero.

O que mais surpreende é que a repercussão aconteceu em programas noticiosos, aqueles de análise política e econômica como as rádios fazem tão bem.Na tevê, a situação foipior ainda, já que os telejornais são tão curtos que é um desperdício perder tempo com uma não-notícia.

Se você chegou até aqui, deve estar se perguntando: o que os dois fatos têm em comum? Vejamos.

Em 2001,nos dias seguintes àquela estranha manchete a redação do DG se inquietou. Por que um jornal que já tinha uma forte ligação com seus leitores e contava histórias fantásticasteria de manchete um assunto que não era sequer chamada de capa de nenhum jornal do País?

Esse incômodo gerou um hábito saudável: seminários anuais para discutir as ferramentas e meios de melhor fazer Jornalismo. Uma vez por ano, a redação inteira, do boy ao editor-chefe, parava para discutir. Desses encontros saíram manuais e guias que mostravam a inquietação natural que todo jornalista tem. Ou, melhor, deveria ter.

Uma das conclusões a que chegamos naquele primeiro encontro foi de que os números do sucesso de venda haviam acomodado a equipe. A tal zona de conforto. O piloto automático. Saiu dali com um compromisso pelamanutenção da inquietude. Como bons jornalistas, aquele grupo tinha que ter sangue nos olhos para o bem do leitor.

Dezesseis anos depois, parece que outras redações precisam fazer o mesmo que o DG fez. Ou seja, é hora dos jornalistaspararem para pensar na profissão. Principalmenteo futuro dela. É preciso redescobrir onde estão a atenção aos fatos, a inquietude, o questionamento e, acima de tudo, o sangue nos olhos.

Torço para que a transformação desse vídeo do YouTube em notícia incomode os colegas que estão à frente dos veículos. Tomara que o espaço dado a esse factoide inquiete os profissionais de hoje da mesma forma que aquela manchete inquietou a equipe do DG lá atrás.

Afinal, é preciso saber o que vale mais: a audiência que um vídeo sem valor comum geram ou a credibilidade que o Jornalismo bem feito pode dar?

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