28/07/2017

Matéria de capa

Por uma imprensa não polarizada

A greve geral, realizada no final do mês passado, foi um fracasso ou um sucesso? Se a resposta para essa pergunta estiver amparada no bom senso, ela indicará que a greve não foi nem um sucesso absoluto, nem um fracasso. No entanto, as informações propagadas em tempo real sobre o que acontecia naquela sexta-feira poderiam levar a inúmeras e conflitantes conclusões, dependendo da fonte de informação. É aí que uma questão mais crítica se impõe: porque um mesmo fato gera abordagens tão distintas?

Nos meios de comunicação tradicionais, o dia 28 de abril foi noticiado sob o mesmo prisma, uma característica que não surpreende quem se dedica à crítica da mídia. É o caso de Sylvia Moretzshon, professora de jornalismo aposentada da Universidade Federal Fluminense (UFF), que discorda da ideia de que a imprensa convencional no Brasil apresente abordagens distintas para um mesmo fato.  “Os enfoques da mídia hegemônica têm sido muito similares, às vezes até com manchetes idênticas”, afirma.

“O que a imprensa fez foi classificar a greve como um protesto”, avalia. Essa visão apresentada ao vivo, no rádio e na TV, foi preponderante e, segundo a pesquisadora, cumpriu o efeito ideológico de desqualificar o movimento grevista. Ao optar por uma cobertura meramente declaratória, a imprensa, de maneira geral, foi incapaz de informar adequadamente a população sobre a pauta dos grevistas e manifestantes.

Nem mesmo a presença do jornalista no local dos acontecimentos foi cumprida, exemplifica Sylvia. “O que aconteceu no Rio de Janeiro foi absurdo: a polícia nem deixou a manifestação começar. A concentração começou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, mas assim que os manifestantes iniciaram a passeata a região já estava cercada. Eu sofri essa situação na ditadura.” Quem assistiu a essas cenas ao vivo pela televisão se deparou com imagens do alto, de onde uma repórter relatava que não sabia explicar o que estava acontecendo. “A imprensa deveria estar na rua cobrindo. Aí começaram aquelas cenas e, depois, nenhum jornalista questiona de onde surgiu a ordem para reprimir a manifestação e nem porque.”

“O acontecimento do dia 28 foi mais um episódio que demonstra o quanto o jornalismo convencional precisa aperfeiçoar a sua cobertura”, pondera o doutor em Ciências da Comunicação, Rogério Christofoletti, professor do Departamento de Jornalismo da UFSC e um dos criadores do ObjETHOS. “É esperado e desejado que haja pluralidade de cobertura, mas algumas coisas são objetivas, como, por exemplo, a paralisação em si. Ora, a paralisação afetou as pessoas? Afetou. Qual era a queixa em si? A imprensa não conseguiu abordar esse aspecto.”

Ao dar ênfase apenas aos transtornos causados pela greve, sem debater os diversos pontos questionados pela população acerca das reformas do governo federal, a mídia fez prevalecer a polarização que se observa nas redes sociais. “A imprensa tem que separar o joio do trigo, mas publicar o trigo e não o joio”, determina Christofoletti.

Bolhas sociais recheadas de fake news

Joio e trigo se confundem nas redes sociais. O que tem prevalecido nas novas mídias são vieses muito particulares da realidade que raramente se confrontam com seus contraditórios. Nessa seara, ainda impera o agendamento da mídia hegemônica, já que os assuntos debatidos na esfera digital tendem a repercutir a cobertura da imprensa convencional, observa Sylvia Moretzsohn.

Após a greve geral, em 1º de Maio, o site Brasil 247 já sacramentava o fim de Michel Temer, com direito a julgamento de ministros investigados pela Lava Jato. “Greve geral e Datafolha antecipam fim de Temer”, proclamava o título. “Michel Temer não serve mais para nada e não tem serventia nem para as forças econômicas que o colocaram no poder por meio do golpe parlamentar de 2016”, diz o texto sem assinatura e sem fontes. “Se ele não for afastado antes de 2018, seu governo se resumirá a afastar os oito ministros investigados na Lava Jato que, mais cedo ou mais tarde, serão denunciados pelo Ministério Público”, prossegue, finalizando com a impactante conclusão: “Ou seja: a única saída honrosa é a renúncia”. Segundo os critérios jornalísticos, o texto se aproxima mais de um editorial, porém, não há nada, além da interpretação de um leitor mais atento, que sinalize para isso. Para o senso comum, sobretudo entre os que estão predispostos a confirmar com as ideias defendidas, cada frase é uma verdade em potencial.

Enquanto leitores do Brasil 247 assumiam a ideia de que a greve foi um sucesso, capaz de gerar efeitos no cenário político brasileiro, o site O Antagonista publicava o oposto. Ainda com a greve em curso, em 28 de abril, afirmava, em um texto curto, que o “fracasso da greve ajuda reforma previdenciária”, sustentando essa ideia com uma imagem gerada pelo jornal O Estado de S. Paulo que mostrava um pequeno e disperso grupo de manifestantes diante do Congresso Nacional. “Michel Temer já pode votar a reforma previdenciária, pois sabe que ninguém vai para as ruas”, dizia o texto. Igualmente, os leitores deste, inclinados a minimizar o movimento grevista, tendem a crer que estão diante de um fato verdadeiro.

Fato é que a greve não pode ser ao mesmo tempo as duas coisas. Ambas as concepções não cabem ao mesmo evento. “As redes atraem interesses difusos e conflitantes, o que pode contribuir mais para a desinformação do que para a informação”, analisa Rogério Christofoletti. Diferentemente da mídia tradicional, que, historicamente, assumiu compromissos éticos (ainda que nem sempre alcançados), a maioria dos grupos das redes sociais negligenciam, completamente, qualquer regra nesse sentido. “As pessoas recorrem ao 247 e ao antagonista, a esses extremos, não para se informar, mas porque eles vocalizam suas crenças”, define.

Essa é a representação máxima da pós-verdade, fenômeno em que, simplesmente, se ignora o que é verificável e provável. “Esse ambiente é inflacionado pelo conjunto grande da viralização das informações falsas”, evidencia Christofoletti. Por trás desse mecanismo, há um componente comportamental importante a ser considerado. Diante da dificuldade em distinguir entre verdade e mentira ou entre opinião e fato, as pessoas ficam confusas. “A tendência é procurarmos informações que reforcem o que acreditamos porque há um desconforto quando estamos desorientados.”

O “quinto poder” aparece como alternativa à mídia tradicional

Se à mídia, como consagrado, compete fiscalizar as forças que sustentam um Estado democrático, quem fica imbuído de fiscalizar a imprensa, que também não deixa de ser um mecanismo de força nessa engrenagem? A imprensa convencional, ou o quarto poder, tem se afastado de seus propósitos, dependendo, neste início do século 21, de fiscalização, adverte o jornalista e sociólogo Ignácio Ramonet. Foi ele quem cunhou o termo “quinto poder”, ao anunciar, em 2003, a criação do Observatório Internacional da Mídia.

Autor de diversos livros, entre eles “A tirania da comunicação”, Ramonet analisa que a globalização afetou o contexto da mídia. No artigo publicado em 2003, no jornal Le Monde Diplomatique, do qual era diretor-presidente, justificou que “à medida que se acelerava a globalização liberal, este ‘quarto poder’ se viu esvaziado de sentido, perdendo, pouco a pouco, sua função fundamental de contrapoder”. Isso porque, na avaliação de Ramonet, a tendência que se observou na mídia não fugiu à regra da criação de conglomerados empresariais, o que culminou com a concentração dos meios de comunicação em “hiperempresas”. “Portanto, a globalização econômica é também a globalização da mídia de massa, da comunicação e da informação”, defende.

O quinto poder, hoje, é exercido pelos observatórios e grupos que debatem a ética jornalística, mas cada vez mais se propaga como uma força plural que se dissemina na internet. Se, no aspecto negativo, as redes têm propagado canais de pouca credibilidade amparados em fake news, por outro, crescem as propostas de um jornalismo sério e alternativo aos conglomerados midiáticos. E esses canais se fortalecem, justamente, fazendo o que preconiza o bom jornalismo: dando voz a públicos distintos; checando informações ao invés de meramente publicar declarações; analisando criticamente os três poderes do Estado e mais a imprensa; gerando e buscando dados ainda não divulgados; ampliando abordagens sobre um mesmo tema.

Esse caminho tem sido percorrido por grupos criados recentemente, como a Agência Pública de reportagem e jornalismo investigativo, lançada em 2011; a Lupa, autodenominada primeira agência de fact-checking do país, a partir de 2015; Justificando, portal que produz e publica informações e artigos sobre justiça e poder (2014); Congresso em Foco, especializado na cobertura do Congresso Nacional, criado em 2004. Todas essas iniciativas, entre outras (sempre excetuando blogs), fazem parte do mapa do jornalismo independente, cujas iniciativas estão sendo compiladas pela Agência Pública.

A maior parte desses canais vive da colaboração de seus leitores ou da realização de cursos, como é o caso do coletivo Nonada, de Porto Alegre, que também faz parte do mapa do jornalismo independente brasileiro. Thaís Seganfredo, uma das editoras do Nonada, conta que a iniciativa surgiu há sete anos, com a proposta de cobrir a área cultural de forma distinta da grande mídia, dando espaço para artistas que nem sempre estão contemplados pelos principais veículos de comunicação.

No início de maio uma reportagem da Thaís para o Nonada denunciou a falta de remuneração dos artistas cujos projetos foram contemplados pelo Fundo Municipal de Apoio à Cultura (Fumproarte), mas que estão sem receber desde 2016. Segundo apuração do grupo, o Fumproarte acumula uma dívida de cerca de R$ 2 milhões. Mais do que assegurar espaço à cultura que não circula nos meios de comunicação tradicionais, o grupo também se volta para políticas públicas culturais, cumprindo, assim, o papel fiscalizatório do poder público.

Longe de ter abrangência da mídia convencional, iniciativas como essas provam que nas redes, ainda que impere a falta de ética, é possível fazer jornalismo sério e comprometido com funções sociais, ampliando o pluralismo da mídia. O desafio é a manutenção desses canais, fragilizados pela falta de verbas. O caminho da colaboração, por exemplo, é complexo, avalia Sylvia Moretzsohn. “São muitas iniciativas importantes, mas é inviável colaborar com todas elas”, explica. É um dilema para os atuantes a favor das informações verificáveis nas redes.

Para Thaís, esse é um ponto de entrave a essas iniciativas, mas que exige soluções novas, que não contrariem a ética desses grupos. No ano passado, o Nonada lançou o curso de jornalismo alternativo, com duração de três meses, abordando conteúdos que ainda não são contemplados na graduação. “Isso tem mantido a sustentabilidade do Nonada só que ainda não conseguimos remuneração para a equipe.” Em 2016, o curso contou com 40 participantes, e, no segundo semestre deste ano, uma nova turma se forma.

Checagem de fatos e uso de dados fortalece imprensa

De acordo com Rogério Christofoletti, este é um momento precioso para empresas e profissionais da área. “Quando se tem checagem de fatos amparada em dados, isso clareia a nossa mente e nos dá a sensação de alento. Esse tipo de prática está crescendo.” Não só está crescendo como está levando  os meios de comunicação de massa a reverem seu papel em meio a onda de fake news. Prova disso vem dos Estados Unidos, com a eleição de Donald Trump, desacreditada pela mídia até sair o resultado das eleições. A esfera que assegurou a vitória de um candidato controverso para o posto de presidente do país mais poderoso do mundo foi, justamente, a mídia social.

O potencial das informações, nem sempre verídicas, que circulam nas redes, alheias a ética jornalística e à defesa da democracia, não pode mais ser ignorado. Por outro lado, vem dos próprios cidadãos a preocupação em buscar notícias melhor apuradas, o que pode ser notado com o aumento na assinatura de jornais nos Estados Unidos – o The New York Times, por exemplo, divulgou no início deste ano aumento de 46% nas assinaturas digitais em 2016. Outro fato decorrente do fenômeno Trump, analisa Christofoletti, é o fortalecimento da imprensa como contrapoder. “Os veículos tradicionais passaram anos em uma tremenda lua de mel com Obama, e sempre é preocupante quando o jornalismo entra na valsa do poder”, destaca. Quando Trump rompe com a imprensa, desqualificando-a, abre um espaço para que ela retome seu papel.

Grandes empresas do meio digital, como Facebook, hoje investem em um fundo para coibir as notícias mentirosas. Já são US$ 14 milhões aportados em iniciativas que ajudem o público a diferenciar entre informações falsas e conteúdo jornalístico. A rede social lançou, em abril, um relatório admitindo o uso das redes para propagação de notícias falsas com fins políticos e assumindo compromissos para combater a prática. Esse esforço vem sendo apoiado e perseguido por outras gigantes, como Google. A checagem de fatos tem se projetado como um dos principais aliados nessa batalha.

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