21/10/2017

Grandes Nomes

Adolpho Bloch, o refugiado judeu que se tornou magnata da comunicação brasileira

Um dos maiores grupos de mídia no Brasil do século XX foi fundado por um imigrante refugiado cuja família fugiu de sua terra natal para não passar fome. Essa é a origem de Adolpho Bloch, fundador das empresas Bloch e da rede Manchete de rádio e televisão.

Registrado originariamente como Avram Yossievitch Bloch, nasceu a 8 de outubro de 1908, em Jitomir, a 120 quilômetros de Kiev, capital da Ucrânia (então parte da Rússia), filho dos judeus Josef e Ginda Bloch. O pai tinha uma gráfica e orientou os três filhos homens (Adolpho, Arnaldo e Bóris) nas artes gráficas.

Aos nove anos, Adolpho assistiu aos primeiros pogrons contra os judeus e a Guerra Civil que se instalou em 1917 na Rússia, após a queda do czar. Durante o regime provisório de Alexander Kerensky, a família imprimiu o dinheiro que circularia nos primeiros tempos da Revolução Russa. Ainda em Kiev, Adolpho tomou gosto não só pelas artes gráficas como pelo teatro, ajudando na impressão de cartazes e vendendo libretos com o resumo das óperas encenadas no teatro local.

Em 1921, com a Ucrânia sofrendo os efeitos da Guerra Civil Russa, especialmente a fome, e devido ao forte preconceito contra os judeus, a família Bloch saiu do país, indo viver, inicialmente, em Nápoles, na Itália. Após nove meses, embarcaram na terceira classe do navio Reggio d’Italia, chegando ao Rio de Janeiro em 1922. Foram morar em Aldeia Campista (zona norte da cidade).

Com os poucos recursos trazidos da Rússia, Josef Bloch instalou uma pequena gráfica. Já em 1923 comprou uma pequena impressora manual com a qual rodava folhas numeradas para o jogo do bicho. Adolpho estudava à noite no Colégio Pedro II e, durante o dia, batia o comércio procurando encomendas. Frequentava as redações do Rio de Janeiro, conhecendo boêmios, jornalistas e escritores.

O primeiro grande negócio para a firma foi obtido por Adolpho quando, na redação de “A Vanguarda”, soube que um exportador precisava embalar laranjas num papel de seda especial. Nenhuma gráfica no Rio tinha condições de imprimir. Adolpho aceitou a encomenda, providenciou máquinas e tornou conhecida a gráfica dos Bloch.

Na década de 1940 Adolpho trabalhou na editora Rio Gráfica, pertencente a Roberto Marinho. Na mesma década, costumava frequentar as gafieiras  do Grêmio Recreativo Familiar Kananga do Japão, na área boêmia do Rio de Janeiro. O lugar inspiraria a novela Kananga do Japão, da Rede Manchete, em 1989.

Com a morte de Josef, seus três filhos, Adolpho, Arnaldo e Bóris, assumiram o comando da gráfica, e logo Adolpho revelou qualidades que o tornariam líder.Em 1952, vencendo a resistência dos irmãos, lançou a revista “Manchete” — o que foi considerado um rasgo de loucura, uma vez que o mercado era pequeno e havia um gigante na praça, a revista “O Cruzeiro”, que imprimia 700 mil exemplares por semana.

Os primeiros anos da “Manchete” foram difíceis, embora a revista reunisse uma equipe de jornalistas de primeiro time: Carlos Drummond de Andrade, Magalhães Júnior, Rubem Braga, Sérgio Porto, Lúcio Rangel, Vinícius de Moraes, Henrique Pongetti, Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos.

Com o governo de Juscelino Kubitscheck — de quem foi amigo pessoal — e o início da construção de Brasília, Adolpho decidiu apostar tudo na onda de otimismo e desenvolvimento. A maior parte da imprensa continuava pessimista. Enviou uma dupla de repórteres e abriu a primeira sucursal jornalística no Planalto Central. Simultaneamente, reequipou o parque gráfico e criou novas revistas, como “Fatos e Fotos”, “Jóia”, “Pais e Filhos”, “Ele Ela”, “Desfile”, “Amiga”, “Sétimo Céu” e outras.

A densidade de Manchete com o programa de metas de JK fez com que o já então ex-presidente se aproximasse do editor, justamente no momento em que a política dava uma reviravolta e JK era cassado e obrigado a se exilar, sendo seu nome proibido de receber menção na imprensa. Adolpho não tomou conhecimento da proibição e continuou a dar ampla cobertura e corajosa defesa a JK. Com o nascimento da primeira neta de Juscelino, em Portugal, Adolpho foi convidado a ser padrinho de batismo. Quando o ex-presidente faleceu, em 1976, Adolpho quase obrigou para que o corpo fosse velado no saguão do prédio-sede de sua editora.

Em 1968, inaugurou a nova sede da editora, na Praia do Russel (zona sul do Rio), com três prédios projetados por Oscar Niemeyer. Ali funcionam as redações do grupo, emissoras de AM e FM, um museu, um teatro, além de restaurantes, piscina, ambulatório e salões de recepção.

A fidelidade a JK não impediu que “Manchete” se tornasse entusiasta do “Brasil Grande” que o regime militar promovia. No governo estadual do brigadeiro Faria Lima, Adolpho foi nomeado presidente da Fundação dos Teatros do Estado do Rio de Janeiro, quando realizou obras de restauração no Municipal e no João Caetano, construindo em tempo recorde o Teatro Villa Lobos.

Até os anos 1970, a comunicação eletrônica nunca havia despertado o interesse do empresário. Mas, em 1980, pelas mãos dele e de seu sobrinho Pedro Jack Kapeller, foram lançadas a Rede Manchete de Rádio FM, com cinco emissoras pelo Brasil e a Rádio Manchete AM, no Rio de Janeiro. Depois, em 1983, compraria a Rádio Clube do Pará, que manteve até 1992.

No mesmo ano que Bloch adquiriu suas primeiras rádios, o governo federal anunciou a abertura da concorrência para duas novas redes de televisão que surgiram das sete concessões da Rede Tupi e duas da Rede Excelsior, ambas já extintas. Em março de 1981, o presidente João Figueiredo anunciou as concessões aos grupos de Adolpho Bloch e Silvio Santos. Das nove emissoras cedidas, quatro ficaram com o Grupo Silvio Santos e as cinco restantes com o Grupo Bloch. Em 19 de agosto de 1981, Adolpho Bloch e Silvio Santos assinaram os contratos definitivos das concessões. O SBT foi lançado nesta data, enquanto o Grupo Bloch decidiu adiar o lançamento da futura emissora, Rede Manchete, para poder preparar o projeto da nova rede. Foram investidos US$ 50 milhões em instalações, equipamentos e enlatados e contratar 800 profissionais. Pedro Jack Kapeller seguiu para os Estados Unidos e Japão, trazendo os equipamentos mais modernos. Em 1983, inaugurou a Rede Manchete de Televisão, buscando uma programação de alta classe. A primeira emissora afiliada, ainda no mesmo ano, foi a TV Pampa, de Porto Alegre.

Os primeiros anos da nova televisão foram de sucesso, culminando com a apresentação das novelas “Kananga do Japão” e “O Pantanal”, em 1989 e 1990. No entanto, a empresa estava afundada em dívidas. Ainda em 1986, apenas três anos depois de sua fundação, a emissora acumulava um prejuízo de US$ 80 milhões de dólares e uma dívida que chegava a US$ 23 milhões de dólares. Apesar disso, entre 1986 e 1992, chega a ser a segunda maior rede de televisão do Brasil e a terceira maior na TV da América Latina (perdendo apenas a Rede Globo e a rede de televisão mexicana Televisa).

Problemas de gerenciamento passaram a influir na programação, e as dívidas só se acumulavam, obrigando Bloch a vender, em 1992, a rede de televisão ao grupo paulista IBF, que fez fortuna com a impressão de raspadinhas. O negócio envolveu a compra de 49% do capital acionário da Rede Manchete de Rádio e Televisão por US$ 25 milhões, e o IBF e assumiu uma dívida de US$ 110 milhões da empresa junto a diversos credores.

A nova administração não conseguiu resolver os problemas financeiros crescentes. Em 1993, a IBF teve cassada a sua gestão pela justiça. Adolpho Bloch recebeu de volta o encargo de uma rede nacional, com os salários dos funcionários atrasados em seis meses. Pedindo um tempo aos empregados, ele conseguiu, em quatro meses, normalizar o pagamento da folha. Mas o esforço de caixa continuou repercutindo na programação.

Adolpho continuou lutando para equilibrar receita e despesa. Ao conseguir esse equilíbrio, em meados de 1995, lançou uma nova novela, “Tocaia Grande”, construindo uma cidade cenográfica em Maricá (RJ) ao preço de R$ 2 milhões.

No início de novembro de 1995, Adolpho Bloch foi internado no hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, para tratar dois problemas: embolia pulmonar e disfunção da prótese da válvula mitral do coração. Na madrugada do dia 18 para o dia 19, seu quadro agravou-se, e ele precisou ser operado, mas não resistiu. “Seu Adolpho” faleceu no dia 19 de novembro de 1995 aos 87 anos. Com isso, as empresas de seu grupo passaram para o controle do sobrinho de Bloch, Pedro Jack Kapeller (conhecido como Jaquito), que ficou no comando destas até o ano 2000, quando o Conglomerado Bloch foi à falência. A emissora de televisão, que chegou a ter uma recuperação entre 1995 e 1997, sofreu nova crise e foi vendida em 1999 para o grupo TeleTV, de Amilcare Dallevo Jr, criando a RedeTV.

Foi casado duas vezes: com Lucy Mendes Bloch e Ana Bentes Bloch. Não teve filhos. Foi condecorado com a Legião da Honra, da França, e com títulos honoríficos de diversos países. Publicou dois livros de memórias e artigos, sob o título “O Pilão”.

 KMBT_C20020170612142233~1KMBT_C20020170612141746~1

Recomendados