21/04/2018

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O Carnaval da Manchete

O Carnaval é a maior festa popular do mundo. Nos sambódromos, nos blocos de rua, nos bailes, nos concursos de fantasia, nas quadras e barracões, milhões de pessoas transformam esta data numa oportunidade de festejar  e celebrar a alegria com músicas e roupas (ou ausência delas).

A popularidade do Carnaval sempre fez com que fosse assunto de destaque na imprensa brasileira. Um veículo sempre se destacou pela ampla cobertura da folia de Momo: a revista “Manchete”. Com repórteres e fotógrafos espalhados por todo o Brasil, as edições especiais de Carnaval batiam recordes e mais recordes de tiragem e esgotavam-se em pouquíssimas horas, sempre trazendo belíssimas imagens dos desfiles, blocos e concursos, além de flagrantes ousados dos bailes mais concorridos do Rio de Janeiro.

Adolpho Bloch, dono da “Manchete”, sempre foi apaixonado por Carnaval. Desde quando chegou à Cidade Maravilhosa, em 1922 (aos 13 anos de idade), como refugiado judeu escapando da União Soviética, ele havia se encantado com a data e via nela a paz e a alegria que tanto faltava em sua terra natal, Jitomir: uma cidade ucraniana castigada pela guerra e pela perseguição religiosa. O seu amor pelo Carnaval era tanto que ele acabou tornando-se compositor de marchinhas. “Rainha de Sabá” foi escrita por ele em parceria com Carlos Heitor Cony para o Carnaval de 1986.

Bloch viu no Carnaval a possibilidade de aumentar de 250 mil para 500 mil exemplares a tiragem da revista, desde que conseguisse ser o primeiro a chegar às bancas. Ou seja, na Quarta-Feira de Cinzas. Armava-se uma operação de guerrilha envolvendo redação e gráfica. Durante dois dias e meio, sábado, domingo e segunda, a equipe da redação ficava trancada na sede da empresa escolhendo as fotos que seriam usadas.

As edições especiais de Carnaval da revista eram disputadas nas bancas, geralmente esgotando-se no final do dia com os preços de capa aumentados pelos próprios jornaleiros, que, para atrair fregueses, abriam as páginas duplas cheias de modelos seminuas na vertical. Quando foi inaugurada a TV em cores, temeu-se que os números do Carnaval perdessem o impacto visual e as edições diminuíssem a tiragem. No entanto, elas aumentaram. Durante o resto da semana a gráfica da editora Bloch imprimia mais exemplares.

Era arriscado dar a capa para uma escola de samba, mesmo a que houvesse se destacado e contasse com o favoritismo do público, porque o resultado do desfile só seria conhecido com a revista nas bancas. No mais das vezes, a capa trazia uma foto de estúdio.

Em entrevista, Carlos Heitor Cony, que escrevia nas edições momescas, comentou que, não raro, exemplares da revista entravam em processos de separação nas varas de família. “Estávamos fechando o número e aparecia um sujeito tresnoitado na Redação, pedindo, pelo amor de Deus, para que não publicássemos a foto dele com aquela mulher enganchada no pescoço”, lembra Cony.

Depois da falência da Bloch Editores, em 2000, um grupo de jornalistas conseguiu, com autorização judicial, continuar editando as revistas do grupo, sendo que a primeira a sair foi a “Manchete Carnaval 2001″.

No ano seguinte, o empresário Marcos Dvoskin arrematou em leilão alguns títulos da casa e, com a ajuda de ex-funcionários, lançou mais uma edição em março. Dali em diante, com exceção de 2003, tudo se passou como nos velhos tempos, com os jornalistas botando de novo o bloco na avenida. Até 2008, quando, trazendo na capa a miss Brasil Natália Guimarães, a história da “Manchete” no Carnaval – ou do Carnaval da “Manchete” – se interrompeu.

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