11/12/2017

Opinião

Julio Ribeiro: “Nóis” foi preso!

Em três anos da Operação Lava-Jato nós já vimos e ouvimos de tudo. Nossa capacidade de espanto, perplexidade e indignação parecia ter se esgotado. Pelo menos até a primeira semana de setembro, quando dois fatos fizeram correr rápido o que ainda nos restava de sangue nas veias.

O primeiro foi a descoberta, pela Policia Federal, de várias malas e caixas repletas de dinheiro, num apartamento emprestado a Geddel Vieira Lima, a poucas quadras da sua casa, em Salvador (BA). Confesso que aquela imagem causou um impacto violento sobre mim. Inicialmente, a incredulidade. Como pode alguém guardar esse dinheiro todo, num simples apartamento?

Depois se seguiram, curiosidade, dúvidas e, por fim, abatimento. Quanto haveria de dinheiro ali, amontoado displicente e grotescamente? Apostei com um amigo que seriam uns R$ 10 milhões, ele dizia que passavam de R$ 100 milhões. Depois de 14 horas sendo contado em sete máquinas próprias para isso, o volume bateu nos R$ 51 milhões. Uma Mega Sena acumulada. Essa mufunfa toda seria devolvida aos cofres públicos? Quais cofres? Afinal, Geddel vinha ocupando cargos de primeiro escalão há quatro governos e acumulava cinco mandatos como deputado federal baiano. O que ele pretendia com essa grana toda? Precisava roubar? O que isso iria fazer diferença na sua vida?

Passado este impacto inicial, me sobreveio um enorme abatimento. Como pequeno empresário, eu sei as dores, as dificuldades, as agruras para conseguir faturar alguns milhares de reais e poder pagar as contas, os funcionários, os impostos, e, quem sabe, ter algum lucrinho. E aí, aquelas caixas e malas, estampadas naquela foto que correu o mundo, gritavam na minha direção: babaca, babaca!

O outro acontecimento impactante de setembro foi a divulgação de 4 horas de áudios de conversas entre Joesley Batista e Ricardo Saud. Havia de tudo ali. Confissões deslavadas de corrupção, compra de procuradores e ministros do STF, armações para “explodir” o Judiciário e o Executivo, sacanagens das mais diversas e até a oferta de sexo para destravar coisas de seus interesses, em diversas esferas. Mas, o que mais me amassou, vilipendiou e indignou foi a frase repetida por Joesley: “Nóis não vai ser preso!”. Ali estava a segurança de um pilantra, a certeza de um cafajeste, a tranquilidade de um ladrão de que não seria preso, que as mãos longas da Justiça não o alcançariam, que a rede de corrupções que ele comandava o protegia, lhe davam salvo-conduto para sua vida nababesca em Nova York.

Mas, setembro, mês de nossa independência como nação — e para nós gaúchos, de revolta — nos vingaria. Geddel seria preso, novamente (e desta vez, sem o beneplácito de nenhum juiz), sob os protestos de sua mãe: “meu filho não é bandido, ele é doente!”. Joesley e Saud (e dias depois, também,Wesley) foram, igualmente, presos. Diz-se que o todo poderoso da JBS chorou na cela com cama de concreto e banho frio, em Brasília.

Já me sinto um tanto vingado. O “suíno” está de volta ao chiqueiro e “Nóis” foi preso. Obrigado, setembro!

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