17/01/2018

Matéria de capa

Mulheres já representam 64% das redações do País

É observável: as jornalistas dominam, em quantidade, a profissão. O que permanece invisível é a desigualdade velada nas condições de trabalho, o assédio e o respeito, condições que seguem marginalizando as mulheres na imprensa (e pela imprensa).

 Quem exerce o jornalismo no Brasil? Majoritariamente são mulheres brancas, solteiras, com até 30 anos de idade. A constatação vem da pesquisa “Perfil do Jornalista Brasileiro”, publicada em 2013 e realizada pela Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc) em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

De acordo com o estudo, elas representam 64% dos jornalistas em atuação no País. Essa é a configuração recente do mercado de trabalho, que só começou a incorporar a presença feminina com mais ênfase a partir da segunda metade do século 20.

Para um país como o Brasil, em que a imprensa foi inaugurada tardiamente, em 1808, foi necessário mais de 150 anos para que a participação das mulheres fosse mais disseminada na profissão. Essa é uma história que foi construída aos poucos e que ainda tem muito a avançar.

Pioneiras de Norte a Sul

Essa é uma história que começou a ser registrada ainda nas primeiras décadas do século 19, período em que, no campo intelectual, as mulheres tinham pouca ou nenhuma visibilidade. Duas delas são citadas como as pioneiras do jornalismo feminino no Brasil: a gaúcha Maria Josefa Barreto Pereira Pinto e a potiguar Nísia Floresta.

Do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul havia uma longa extensão, mas de uma para outra as semelhanças se destacam. Segundo a historiadora Hilda Flores, é provável que as duas tenham interagido, já que conviveram por algum tempo na mesma cidade e no mesmo período, quando Nísia se mudou para Porto Alegre, em 1833, ano em que Maria Josefa fundou seu jornal “Bellona Irada contra os Sectários do Momo”.

Naquele mesmo ano, Nísia lançou “Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens”, sendo hoje reconhecida como uma das primeiras feministas do País. Tanto Nísia quanto Maria Josefa escreviam para jornais desde pouco antes de 1833. Além disso, compartilhavam outras similaridades: ambas se posicionavam contra a Revolução Farroupilha e se dedicaram, além do jornalismo e literatura, à educação.

De acordo com registros históricos, é atribuída à Maria Josefa a inauguração da primeira escola mista no País, permitindo que meninos e meninas compartilhassem a mesma sala de aula, entre 1811 e 1812. Essa é uma história registrada no livro “Antigulhas: Reminiscência de Porto Alegre”, escrito por Antônio Alves Pereira Coruja, que foi aluno daquela que chamava de poetisa Maria Josefa.

“Abaixo da venda do Chico Cambuta na esquina da Rua da Ponte seguia-se a meia-água em que a poetisa D. Maria Josefa tinha a sua escola de crianças de ambos os sexos, de que eu também fazia parte”, registrou Coruja em suas reminiscências.

Coruja também evidenciava em seu livro a distinção na remuneração entre homens e mulheres, ao citar outro professor com o qual teve contato, Antônio D’Ávila (conhecido como Amansa-burros). Ele “recebia como honorário duas patacas por mês, ao passo que a poetisa D. Maria Josefa se contentava com uma pataca só!”.

Nísia havia se mudado para o Rio Grande do Sul também para se dedicar ao ensino, onde dirigiu um colégio para meninas. Depois, após o início da Revolução Farroupilha, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde fundou e dirigiu os colégios Brasil e Augusto.

Opositora dos farrapos, Maria Josefa morreu pouco tempo depois do início da guerra, em 1837, conforme registra o livro de óbitos do período, preservado na Cúria de Porto Alegre. Seu falecimento foi atribuído à “morte interior”, termo comum à época, quando era impossível presumir ou identificar visualmente a causa do óbito.

Efeito da emancipação

Mais de um século depois de Maria Josefa e Nísia Floresta, as mulheres ainda eram poucas no jornalismo. Regina Helena de Paiva Ramos, quando ingressou na profissão em 1953, aos 20 anos, conta que, em São Paulo, cerca de 30 mulheres atuavam na profissão. Formada na quarta turma do curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, Regina que trabalhava com o que adorava, mas não havia se dado conta do pioneirismo na época. “Só vim a me dar conta disso muitos e muitos anos depois.”

Mas foi a partir dessa percepção que começou a pesquisar e coletar relatos para escrever o livro “Mulheres Jornalistas: a Grande Invasão”. A sua obra resgata a presença feminina a partir das décadas de 40 e 50, mas ela ressalta que foi a partir da década de 1960 que “as mulheres começaram a ter seus primeiros cargos de chefia, fora da chefia de cadernos e páginas femininas”. “Isso coincidiu com a entrada de mais mulheres nas faculdades – em todas as faculdades. A década de 60 foi importante para as mulheres profissionais em geral e para as jornalistas em particular. Começou, nessa década, mais explícito, um movimento pela emancipação feminina.”

O contexto social foi determinante para que o jornalismo abrisse espaço às mulheres. “A luta pela igualdade salarial, por licença-maternidade, o combate ao assédio sexual no ambiente de trabalho, a participação nos movimentos feminista, negro e pela redemocratização do país e na Assembleia Constituinte – toda essa movimentação influenciou positivamente na participação das mulheres nas redações”, salienta a jornalista Vanessa Fogaça Prateano, fundadora do Coletivo de Jornalistas Feministas Nísia Floresta, que defende a consolidação de um jornalismo mais inclusivo para mulheres.

Regina, que iniciou sua atuação como repórter no jornal O Tempo, avalia que hoje as mulheres ocupam cargos de chefia, mas “não na proporção que gostaríamos”. “Não esquecer que o mundo ainda é machista, e isso se reflete também nos jornais.” A jornalista atuou em vários veículos impressos, entre eles as revistas Manchete, Fatos e Fotos e Casa e Jardim, e nas tevês Band e Excelsior.

O fato de mais homens permanecerem em cargos de chefia – que os permite pautar, editar textos e selecionar fontes e abordagens – faz com que a percepção masculina ainda seja a regra na cobertura da imprensa, inclusive sobre assuntos que dizem respeito ao universo feminino, pontua Vanessa.

“Ainda são os homens que ditam o que toda a sociedade irá ler, ouvir, assistir e acessar”, critica. “Logo, sermos a maioria ou em números semelhantes aos dos homens é importante, mas não basta sermos maioria ou 50%, é também necessário fazer com que nosso ponto de vista, nossas experiências e demandas sejam levados em conta no ambiente de trabalho e também na nossa produção jornalística.”

Maior presença, destaque, qualificação superior e menores salários

Entre os profissionais mais reconhecidos em número de prêmios conquistados, duas mulheres se destacam: Eliane Brum e Míriam Leitão. Ambas lideram o ranking de 2017 dos “Mais Premiados Jornalistas da História”, elaborado pela Jornalistas Editora.

Ainda que essa relação contemple, nas posições sequenciais, mais homens no top 10 (a próxima mulher a aparecer na lista é a jornalista Mônica Bergamo, na 18ª colocação) é observável que as jornalistas vêm alcançando cada vez mais destaque. Um exemplo é o Prêmio Press de 2017, que, além de eleger a Patrícia Comunello (Jornal do Comércio) como Jornalista do Ano, concedeu troféus a outras sete mulheres. No total, das 15 categorias premiadas, oito foram conquistadas por representantes do sexo feminino.

Apesar da presença majoritária na profissão e do reconhecimento crescente em relação à qualidade do trabalho que realizam, no geral, as mulheres têm remuneração inferior à dos homens. O estudo conduzido pela Ufsc em parceria com a Fenaj considerou duas faixas de salário: inferior a cinco salários-mínimos e superior a cinco salários-mínimos. As mulheres são maioria no grupo de menor remuneração, enquanto os homens alcançam o maior desempenho entre os maiores ganhos.

A distorção persiste quando considerada a qualificação acadêmica dos profissionais. Um levantamento realizado pelo jornalista Flávio Moreira, no primeiro trimestre de 2017, demonstra que há uma diferença de cerca de R$ 1 mil entre a média salarial dos homens e das mulheres. Enquanto eles recebem R$ 4,8 mil, elas ficam R$ 3,8.

No entanto, a mesma apuração apresenta um nível de escolaridade mais elevado para as mulheres, com quase 40% delas pós-graduadas (considerando MBA, mestrado e doutorado). Somente 31% dos homens estão no mesmo padrão acadêmico – eles são maioria entre os profissionais com ensino superior incompleto (9% contra 7%).

A voz negada às mulheres

Os direitos conquistados pelas mulheres nas últimas décadas ainda são insuficientes para garantir tanto a isonomia pretendida e defendida constitucionalmente. Na prática, a realidade é outra e fica mais acentuada quanto maiores forem os parâmetros adotados para avaliar o nível de desigualdade de condições. “Quando fazemos um recorte de raça, vemos que o pouco que mulheres brancas conquistaram ainda é inacessível à maioria das mulheres negras”, sinaliza Vanessa Prateano.

“Creio que são vários os fatores que explicam essa disparidade e essa desigualdade. Primeiramente, as redações, por não estarem apartadas do resto da sociedade, são extremamente machistas. É um machismo muitas vezes sutil, mas muito perverso.” A distinção, exemplifica, começa na distribuição de pautas: “as mais interessantes e as que possuem maior valor social e político agregado geralmente são destinadas aos homens”.

Outra interferência na prática do jornalismo pelas mulheres é o assédio, tanto moral quanto sexual. “Pensemos na cobertura política: é um espaço de prestígio do ponto de vista jornalístico, muitos e muitas querem ser repórteres e colunistas políticos, porém, o assédio vivido pelas mulheres nesse ambiente é terrível.” Vanessa fala com conhecimento de causa. “Eu vivi inúmeras situações deste tipo e, quando me coloquei contra, fiquei conhecida por ser uma repórter de difícil trato ou ‘muito militante’.”

Essas são situações que demonstram que a presença feminina ainda é marginalizada na imprensa e pela imprensa. Entre fontes que participam de reportagens e debates, ainda predominam homens. “Historicamente, às mulheres foi negado o direito à voz, ao conhecimento, à participação política. O discurso e o olhar masculinos sobre nós é muito forte e presente, e essa situação permitiu aos homens não apenas falarem sobre si, mas também sobre nós, sem que fôssemos ouvidas e consultadas.”

Mesmo quando a mulher exerce papel de liderança, o problema persiste. Uma crítica pública e recente feita nesse sentido veio da Ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia, atual presidente da Corte. Ao comentar um estudo norte-americano sobre a recorrência de interrupções às ministras da Suprema Corte dos Estados Unidos, ela ironizou criticamente: “A ministra Sotomayor (dos EUA) me perguntou como é isso no Brasil. Eu disse: lá, em geral, eu e a Rosa, não nos deixam falar. Então, não somos interrompidas”.

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