17/01/2018

Opinião

Mário Rocha: Xeque, cheque, choque…

Estive na bela festa do Prêmio Press 2017, já em décima-oitava edição. Então, escrevo para quem não foi até o Dante Barone da Casa do Povo. E, por não ter ido, não reviu amigos e amigas nem conheceu novas gentes. Não aproveitou a “boca livre” de qualidade, tanto nos comes como nos bebes. Não curtiu a menininha que roubou várias cenas no palco nem assistiu a descontraída confusão da troca de páginas do script.

Tendo lido o parágrafo acima, talvez uma nova ausência bata cartão em 2018. Mas, e se eu contasse que você perdeu emocionantes depoimentos sobre a importância do Jornalismo e dos jornalistas? Que deixou de se arrepiar ao constatar o orgulho de todos e todas, da Estagiária do Ano ao mais tarimbado(a) profissional?

Bah, saí de lá com o coraçãozinho batendo palminhas de tão satisfeito! Sim, é possível fazer um bom trabalho, mesmo enfrentando todas as adversidades que acompanham a profissão há décadas mais os novos desafios que vão surgindo por aí. Sim, é possível, é legítimo e é necessário ter orgulho do que fazemos, independentemente de onde o fazemos.

Concursos jornalísticos são importantes testemunhos de qualidade e resiliência. O Prêmio Press cumpre, a cada ano, a missão assumida. Não só ele. Julguei, em 2017, o prêmio instituído pela Associação dos Diários do Interior (ADI),  o Prêmio José Lutzenberger de Jornalismo Ambiental (ABES/RS e ARI, patrocínio Brasken), o Prêmio Folha Verde (Assembleia Legislativa, via Comissão de Agricultura, Pecuária e Cooperativismo). Assim que encerrar estas linhas, revisarei minhas notas no Prêmio ARI/Banrisul de Jornalismo.

O tal orgulho profissional registrado há pouco é constante em todas as solenidades de que participei em 2017 e anos anteriores. Afianço que a tarefa de valorar é difícil, muito difícil, pois revela-se alta a qualidade da produção da imprensa gaúcha. Até entendo a vociferação externa de quem vê no Jornalismo  apenas ameaças  configuradas pelas salutares práticas de levantar  tapetes,   remexer lixeiras, escarafunchar arquivos empoeirados e  até mesmo – veja só! – documentar e divulgar dedos ágeis apropriando-se do que é do conjunto da sociedade…

Só não entendo a inveja de alguns coleguinhas contra quem dá o melhor de si. Nem o derrotismo implícito em relação ao presente e ao futuro de nossa profissão.  São raros, é verdade, mas estão crescendo em número, também é verdade.

Preconceito tardio contra a profissão abraçada? Desista dela. Fale bem e escreva melhor sobre o que é bom. Elogie os esforços incríveis de quem busca tornar pautas importantes em conteúdos de acesso indispensável. Reconheça a importância do trabalho de quem não oferece furos de reportagem e faz do seu mister a produção de informações gerais, de serviço, de opinião e análise, tudo isto apresentado de forma agradável de ver e ouvir.

O negócio da comunicação está em xeque, em cheque, em choque? Não jogue a culpa nos jornalistas. É preciso valorizar a profissão. O curso de Jornalismo da UFRGS tem 450 candidatos  no próximo Vestibular para 35 vagas, com densidade de 12,86. Não figura entre os dez mais procurados. Em anos anteriores, a densidade foi 13,94 (2017), 16,83 (2016) e 20,09 (2015).

O desinteresse numérico pelo ingresso na profissão não significa, necessariamente, redução na qualidade média da formação cultural prévia os novos ingressantes. Ou de falta de vocação,. Por enquanto. O problema está no prosseguimento da tendência de queda. A reversão deste processo passa pela ampla divulgação dos prêmios jornalísticos, pela restruturação curricular e renovação das práticas docentes, pela recuperação de padrões salariais mais condizentes e pelo fortalecimento da percepção na e da sociedade sobre o valor do jornalismo que não é conduzido a cabresto.

Simples assim.

3.750  caracteres

Recomendados