20/11/2017

Opinião

Mario Rocha: Um jornal para o Brasil

Sabe o que faz falta ao Brasil? Um jornal impresso com expressão nacional e distribuição idem. Imagino periodicidade variável, ajustada às dificuldades de entrega. Diário (de segunda a quinta) nas capitais e principais cidades brasileiras, mais a edição especial de sexta a domingo alcançando-as e ao restante do país. É claro que teria versão digital produzida por redação 24h.

Seu título? Lembro de um anúncio antigo garantindo ao leitor que quando ele perguntava qual o maior banco do Brasil já estava dando a resposta. Pois o melhor título da imprensa escrita é, justamente, Jornal do Brasil. Foi um dos quatro grandes, junto com FSP, Estadão e Globo. Nele escreveram Barbosa Lima Sobrinho – era um tempo em que a ABI tinha importância visceral; na análise política estava o insuperável Castelo Branco; Zózimo fazia jornalismo de verdade no colunismo social. E por aí vai…

O JB enfrentou percalços de gestão. Em 1º de setembro de 2010, ele, que já havia abdicado do formato standard pelo controvertido berliner (formato entre o tablóide e o standard), abandonou o meio impresso. Hoje, o cabeçalho do periódico fundado em 1891 informa que é “O primeiro jornal 100% digital do Brasil”. Se você leu o JB de propriedade de Maurina Dunshee de Abranches Pereira Carneiro (15/08/1899 – 5/12/1983), a Condessa Pereira Carneiro, vá até www.jb.com.br e descubra o significado de depressão jornalística. Mas segue imbatível como título!

O novo jornal conteria cadernos segmentados por biomas – Pampa, Mata Atlântica, Pantanal, Cerrado, Caatinga e Amazônia – e seus conteúdos estariam direcionados para o desenvolvimento sustentável da economia nacional. O gerenciamento de um país com as tais “dimensões continentais” passa pela discussão das vocações regionais. Indústria, agricultura e agroindústria, pesca, extrativismo, comércio, serviços (inclusive pólos tecnológicos), turismo, tudo tem hora e lugar certos para vingar. Respeitando populações autóctones, a começar por aquelas que já estavam aqui quando iniciou a ocupação portuguesa, com certeza.

Parece evidente que o modelito pressupõe jornalismo impresso às ganhas, não o feito aqui e acolá que só serve para suporte do negócio da comunicação. Um negócio que já deu muito dinheiro e agora virou mico segundo o aprofundado World Press Trends 2016, da patronal Associação Mundial de Jornais. Falo de discurso jornalístico crítico, desenvolvimentista também no social. Sempre é bom ressaltar o óbvio.

Que tal um novo modelo de gestão que oportunize revisitar o gráfico tradicional do Ciclo de Vida do Produto (CVP), o qual lembra o contorno do fusca, para reverter a queda? Talvez o governo federal possa contribuir com anúncios, muitos anúncios, entendendo o papel indispensável da imprensa livre numa sociedade democrática. Talvez os empresários já estejam meio vacinados contra misturar marcas valorizadas com tanta porcaria digitalizada e promovam volta às origens.

Talvez os donos da mídia impressa aceitem partilhar a lucratividade obtida a partir daí para remunerar seu capital. Imagino algo como este sistema adotado pelas empresas de transporte coletivo de Porto Alegre. Ele permite tarifa única para a população independente da quilometragem do trajeto. Mas será que ainda há tempo da imprensa impressa – leia-se jornais, que a questão das revistas é diferente – agir em relação ao que está lá no capítulo Indústrias em Declínio do livro Estratégia Competitiva, de Michael Porter?

Não imagino que o novo Jornal do Brasil seria o fim dos jornais estaduais, regionais e municipais. Pelo contrário. Igual arranjo econômico poderia ser adotado em dimensões geográficas reduzidas. O problema é que, independente da cobertura da distribuição, não vejo como não legitimar a atividade sem Conselho de Redação, Ombudsman e Conselho de Leitores. É aqui que preteia o olho da gateada.

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