21/10/2017

Opinião

Mário Rocha: O Jornalismo Fênix

Puxa vida, está difícil, mas muito difícil meeeesmoooo, enfrentar semblantes irônicos de alguns coleguinhas quando afianço que a prática da nossa atividade vai bem, obrigado, e manda lembranças. É que não parecem dispostos a terçar armas usando argumentos e preferem estocadas fisionômicas. Esgrima bem jogada, é sempre bom lembrar, surge quando alguém com habilidade prévia a desenvolve mediante técnica apurada no treinamento diário. Fim da metáfora.

Prefiro mil vezes a companhia de jovens estudantes em cujas carinhas a afirmação otimista gera olhares que unem um pouco de perplexidade com muito de esperança. Quero que acreditem quando garanto que estamos vivendo um momento fantasticamente desafiador, um momento de esboroamento das certezas, de experimentação que produz descobertas – inclusive a de que estamos bem sujeitos a errar, aqui e ali, embora na melhor das intenções.

Desesperançados encolhidos e arautos do apocalipse apontam para as quedas das tiragens dos jornais impressos. Chamam a atenção para a dramática redução no volume de anúncios classificados e destacados. Mostram que as tabelas de preços do cm/col são, cada vez mais, apenas referências na negociação da inserção publicitária. Identificam cortes na entrega domiciliar em “pontas de rede” onde é caro chegar. Alertam contra a migração de cadernos segmentados para as edições dos fins de semana. Documentam a redução dos postos de trabalho nas redações e o achatamento salarial.

Sim, os incêndios estão se proliferando e há labaredas nos atuais, brasas nos mais recentes, cinzas nos mais antigos. O que talvez não estejam enxergando é que nem todos os empreendimentos jornalísticos “tradicionais” sucumbirão às chamas.

Muitos estão reinventando o próprio modelo de negócio.  Diversificam o conteúdo na cesta que agora contém ovos de galinha, de pata, de avestruz, de marreca piadeira… Basta ter pena… O problema é achar quem possua competência para chocar. Outros empreendedores estão obcecados em encher novas cestas até mesmo com algum dodô extinto e mais aquilo que só com muito boa vontade ou miopia poderíamos classificar de ovos  jornalísticos.  O problema é achar quem tenha estômago para chocar.

O Jornalismo Fênix já está renascendo das próprias cinzas. Coleciono incontáveis exemplos de novas formas de contar histórias relevantes para as pessoas; de valorização extrema da reportagem investigativa precisa a ponto de desafiar retaliações; de parcerias com a população para identificação e produção das pautas legítimas e necessárias; de desapego ao lucro fácil proveniente de conteúdos que dizem ou omitem o que foi acertado em acordos espúrios.

São textos para onde há confluência da ética, competência, criatividade, domínio das ferramentas que novas e “velhas” plataformas possibilitam, estilo atrativo e correção gramatical que preserve a última flor do Lácio. A audiência seleta os está descobrindo. O que o leitor espera de um texto para ser feliz? Que  apresente um pouco de saber, bastante sabedoria e muito sabor.

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