24/09/2017

Opinião

Mario Rocha: Colunas em ruínas

Arredai, orientais de mãos miraculosas, quiropráticos, ortopedistas, educadores físicos, reumatologistas, personal trainers e quejandos, pois o que vem por aí não é pro vosso bico!

 O tema deste mês – leia a palavra tema como sinônimo de assunto, nunca de aula que dá tarefa para casa – é o colunismo de opinião. Generalizo para os setores da política, do esporte, da cultura, do lazer, da vida urbana e rural, da economia, de todo espaço onde se acoita a opinião.

Pois o tema, ou assunto, vá lá, questiona aquelas plataformas de conteúdos que mais se parecem com o Coliseu Romano: em ruínas, mas cheias de colunas apresentadas como se de opinião fossem (Creio que já escrevi esta imagem em algum lugar, tão boa ela é.). Pois é, estou farto de achismos que surgem como verdades categóricas. Estão travestidas de opinião.

“O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.”

Elas, as colunas repletas de achismos e produzidas para serem ouvidas, vistas e lidas, por vezes tudo junto, apresentam identidade completa com o ar que nos envolve. Estão por toda parte. Dia e noite. Com uma diferença significativa, abissal:  são tão desnecessárias à vida inteligente quanto é imprescindível sua composição de nitrogênio (78%), oxigênio (21%) e outros gases para nossa existência.

A primeira constatação crítica termina logo após ouvir, ver ou ler um exemplar acometido pela síndrome da falta de conteúdo. Você espreme, espreme, espreme e descobre que não extraiu nada de útil. Por vezes, acontece algo muito pior. O que sai é semelhante ao resultado da inflamação de folículos pilosos.

A segunda começa quando a gente passa a comparar o que ali está com os demais espaços assemelhados, no mesmo ou em outros suportes da mídia. Você descobre que não há nada de novo no front da notícia. Ouviu, leu ou viu um, viu, ouviu e leu todos.

“De onde menos se espera, daí é que não sai nada.”

Recostado na cama e olhando para a tela, absorto junto à janela do ônibus com fones de ouvido, singrando no éter ou manipulando páginas impressas, tudo o que procuro é informação nova e contextualizada, uma interpretação diferente para o que sempre pintou e bordou como conceito definitivo, o tal de furo, aquilo, enfim, que vem somar ao que já sei e sobre o que posso até ser radicalmente contra, mas não consigo permanecer indiferente. É pedir muito?

Tá difícil. Tá difícil. Os problemas do jornalismo que parou no tempo começam pelo reumatismo na apuração e produção de conteúdos acerca do que rola por aí. Cresce nas veias da distribuição destes conteúdos o comprometimento pela aterosclerose. A falta do exercício profissional bem orientado, ético, intimorato, enche as artérias com as gordurinhas da acomodação.

Escrevo como leitor, ouvinte e vedor. Humildemente – e olha que exercícios de humildade são muito difíceis para mim! – informo que há um número cada vez maior de carinhas e nominhos de colegas recebendo apenas alguns instantes de atenção. Outras e outros, já passo batido. Sei que, em relação à frase anterior, posso estar perdendo um momento ímpar, qualificado, profundo. É pena. Fazer o quê?

“Tudo é relativo: o tempo que dura um minuto depende de que lado da porta do banheiro você está.”

A depressão pela constatação dos declínios é de sobejo confrontada pela euforia das descobertas. Estou encontrando espaços que começam a se incorporar na minha garimpagem diária por informação de qualidade e opinião idem.  Crise? Que crise? O jornalismo renova-se. Para renovar-se, prescinde de quem não acompanha seus desafios viscerais.

Quanto às três frases de Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (1895-1971) que recheiam esta coluna (de opiniões ou de achismos?), elas servem para lembrar que o humor é indispensável nestes tempos tacanhos em que a indignação assoma e pode comprometer a produção jornalística.

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