17/01/2018

Opinião

Marcelo Beledeli: O impacto das redes sociais nas eleições

O jornal O Estado de S. Paulo publicou no dia 3 de dezembro uma matéria, assinada por Pedro Venceslau e Vítor Marques, sobre o impacto que as novas tecnologias terão na propaganda política durante as eleições de 2018. Com certeza, o próximo pleito eleitoral será uma disputa que irá muito além das formas tradicionais de campanhas na televisão e outros veículos. A briga pelo eleitor acontecerá, principalmente, nas redes sociais e nos aplicativos de conversa instantânea.

No Brasil, o tema ganhou ainda mais importância com a reforma política aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente Michel Temer em outubro. Entre as principais mudanças, foi liberado o impulsionamento de conteúdo nas redes sociais e aplicativos, como Facebook, Twitter, Instagram e WhatsApp.

No entanto, a divulgação de mensagens políticas através destes meios já é uma realidade. Estudo da Diretoria de Análises de Políticas Públicas (DAPP), da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostrou que robôs – programas usados para multiplicar mensagens na internet – foram responsáveis por até 20% do debate político no Twitter.

Além disso, segundo aponta o Estadão, alguns analistas destacam o fato de que contratar empresas especializadas em análise de dados e pagar pelo impulsionamento de propaganda nas redes sociais é uma estratégia que deverá favorecer candidatos com mais recursos. A principal preocupação é de que o poder financeiro de um candidato poderá influenciar no resultado da campanha, uma vez que os políticos ou partidos que tiverem mais recursos terão acesso a melhores ferramentas.

No entanto, apesar do medo dos analistas, existe a possibilidade de que o investimento nas novas mídias seja mais econômico para alguns candidatos, tendo em vista os altos valores cobrados por publicidade em meios tradicionais. Esse ponto é abordado pelo publicitário André Torretta, dono da Ponte Estratégia, a consultoria que abriu no Brasil a franquia da Cambridge Analytica, empresa de análise de dados que ficou famosa por usar, na eleições norte-americanas de 2016, métodos de microtargeting e conteúdo político “on demand” que ajudaram na vitória do candidato republicano Donald Trump.

Torreta, que já recebeu propostas de políticos para usar os serviços da Cambridge nas próximas eleições, afirmou à reportagem do jornal que um candidato a presidente em 2018 deverá desembolsar ao menos R$ 30 milhões com impulsionamento nas redes sociais. Se verdadeiro, esse valor é bem menor do que os gastos que os candidatos presidenciais costumam ter ao produzir programas para TV durante as campanhas nacionais.

Dessa forma, o investimento em redes sociais pode beneficiar candidatos de partidos ou coligações menores, que não desfrutam de grande tempo na televisão, mas possuem recursos para aplicar em impulsionamento de conteúdos. Essa estratégia também faz sentido tendo em conta as atuais relações dos brasileiros com os meios de informação.

Segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, em 2016, 92,3% das casas do país pelo menos um morador tinha um aparelho celular ou smartphone. O número quase alcança o de lares com televisões (97,4%). No entanto, o tempo médio dedicado para a internet, de acordo com a Pesquisa Brasileira de Mídia, do governo federal, era de cerca de 4h30min, enquanto para a TV era pouco mais de 03h20.

Diante desse quadro, o ano de 2018 deve ser marcado como “as eleições das redes sociais”. Os eleitores, mais do que nunca, deverão ter senso crítico sobre as informações que recebem e compartilham com seus contatos. Conseguirão distinguir fatos de “fake news”, ou promessas realizáveis de ilusões “sob encomenda” para agradar a plateia? Talvez seja pedir demais ao eleitor brasileiro, que já foi tão enganado em formas tradicionais de propaganda política, que consiga agora possuir tal discernimento.

Recomendados