21/10/2017

Grandes Nomes

Leni Riefenstahl, a cinegrafista de Hitler

Para Alfred Riefenstahl, proprietário de uma empresa de aquecimento e ventilação bem sucedida, com sede em Berlim, e sua esposa, Bertha Scherlach, o dia 22 de agosto de 1902 foi a data do nascimento orgulhoso de sua primeira filha, que eles chamaram de Helene Bertha Amalie (também conhecida por Leni) Riefenstahl. Os jovens pais não poderiam imaginar que seu bebê acabaria por se transformar em uma das mulheres mais controversas e influentes no campo das artes das comunicações, especialmente pelos seus impressionantes filmes de propaganda em apoio ao Partido Nacional Socialista (Nazista).

Leni iniciou sua longa e extraordinária carreira como dançarina interpretativa. Depois de uma lesão no joelho temporariamente interromper sua vocação, ficou fascinada com as possibilidades do meio cinematográfico, especialmente os filmes da natureza. Ela tornou-se a estrela de um grande número de filmes mudos do diretor alemão Arnold Fanck, tipicamente ambientados nos Alpes (o estilo chamado Bergfilme), em que a jovem Leni apresentava sua liderança atlética e audaz.

Popular como atriz com o público alemão, Leni Riefenstahl dirigiu seu primeiro grande longa-metragem, Das blaue Licht (A Luz Azul), em 1932. O filme foi bem recebido e, mais importante, atraiu a atenção de um político em ascensão que se orgulhava ele mesmo em ter ambições artísticas: Adolf Hitler. No mesmo ano, Leni ouviu Hitler falar em uma manifestação pública e foi arrebatada pelo seu estilo oratório e sua capacidade de hipnotizar o público.

Hitler viu Leni Riefenstahl como uma diretora que poderia usar a estética para produzir uma imagem de uma Alemanha forte, imbuída de motivos wagnerianos de poder e beleza. Em 1933, ele pediu a Riefenstahl que dirigisse um curta-metragem, Der Sieg des Glaubens (A Vitória da Fé), filmado no Encontro do Partido Nazista em Nuremberg. O filme foi um modelo para seu trabalho mais famoso, Triumph des Willens (Triunfo da Vontade), filmado no Encontro de Nuremberg no ano seguinte, em 1934.

Leni inicialmente rejeitou a comissão de Hitler para o filme,pois queria dirigir uma obra baseada em uma das óperas favoritas do Führer, Tiefland (Terra Baixa), de Eugen d’Albert. Ela recebeu financiamento privado para Tiefland, mas as filmagens na Espanha foram atrasadas e o projeto cancelado. Com isso, resolveu ceder ao apelo de Hitler quando recebeu recursos ilimitados e licença artística completa para o registro do encontro nazista.

Triunfo da Vontade, com suas imagens evocativas e técnica de filme inovadora, classificada como uma obra épica de filmagem documental, e é amplamente considerada como um dos filmes de propaganda mais magistrais já produzidos. Ganhou vários prêmios, mas sempre ligou o tema do filme, o nacional-socialismo, com o nome de Leni Riefenstahl.

Igualmente impressionantes foram os esforços de direção da diretora em Olympia, que capturou com grande eficácia as imagens dos Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim. Foi o trabalho em Olympia que fez de Leni Riefenstahl uma pioneira em numerosas técnicas cinematográficas, como a realização de filmagens com câmeras montadas em trilhos (conhecida hoje como travelling), e o uso de imagens em câmera lenta. A mistura vigorosa de estética, esportes e propaganda de Olympia ganhou novamente elogios e prêmios para Leni, incluindo as honras de melhor  filme estrangeiro no Festival de Cinema de Veneza e um prêmio especial do Comitê Olímpico Internacional (COI) por retratar a alegria do esporte.

A chegada da Segunda Guerra Mundial e a rápida escalada de violência sob o regime nazista tiveram um efeito desfavorável tanto em Leni Riefenstahl quanto em sua carreira. No início da campanha alemã contra a Polônia, um incidente abalou a confiança dela no movimento nazista, que a diretora havia glorificado em imagens cinematográficas. Enquanto acompanhava os exércitos perto de Konskie, a cineasta testemunhou a execução de civis poloneses em retaliação por um ataque da resistência contra as tropas alemãs. Leni, aparentemente, abandonou suas filmagens naquele dia, a fim de fazer um apelo pessoal a Hitler contra essa violência arbitrária. O incidente pode ter plantado uma semente de dúvida na mente da diretora, mas não a impediu de filmar o desfile triunfal de Hitler em Varsóvia apenas algumas semanas depois.

 Leni Riefenstahl bei Dreharbeiten

Após as obras sobre Nuremberg e Olympia, Riefenstahl começou a trabalhar no filme que tentou e não dirigiu uma vez antes, ou seja, Tiefland. Por ordem direta de Hitler, o governo alemão pagou sete milhões de Reichsmarks como financiamento. De 23 de setembro a 13 de novembro de 1940, ela filmou em Krün perto de Mittenwald. Os extras que interpretavam mulheres e agricultores espanhóis foram arregimentados de ciganos detidos em um campo em Salzburg-Maxglan, que foram forçados a trabalhar com ela. As filmagens nos estúdios Babelsberg, perto de Berlim, começaram 18 meses depois, em abril de 1942. Desta vez, ciganos do campo de detenção de Marzahn foram obrigados a trabalhar como extras.

Quase no final de sua vida, apesar da evidência esmagadora de que os ocupantes do campo de concentração foram forçados a trabalhar no filme de forma não remunerada, Leni continuou a afirmar que todos os extras do filme sobreviveram e que conheceu vários deles após a guerra. Ela processou a cineasta Nina Gladitz, que disse que Leni escolheu pessoalmente os extras em seu campo. A Justiça alemã decidiu em grande parte a favor de Gladitz, declarando que Riefenstahl sabia que os extras eram de um campo de concentração, mas também concordaram que Leni não tinha sido informada de que os ciganos seriam enviados para Auschwitz depois que a filmagem foi concluída.

Em outubro de 1944, a produção de Tiefland mudou-se para os estúdios Barrandov em Praga para a filmagem interior. O filme não foi editado e lançado até quase 10 anos depois.

A última vez que Riefenstahl viu Hitler foi quando ela se casou com Peter Jacob em 21 de março de 1944. Leni e Jacob divorciaram-se em 1946. À medida que a situação militar da Alemanha se tornou impossível no início de 1945, Leni saiu de Berlim e estava pedindo carona com um grupo de homens, quando foi detida pelas tropas americanas. Ela saiu de um campo de prisioneiros, começando uma série de fugas e prisões.  Finalmente, voltando para casa em uma bicicleta, ela descobriu que as tropas americanas haviam tomado sua casa. Ela seria novamente presa em janeiro de 1946 por tropas francesas ocupando a região do Tirol,na Áustria, quando teve todo o seu material cinematográfico confiscado.

Nos anos do pós-guerra, Leni Riefenstahl foi sujeita a quatro processos de desnazificação, até ser  finalmente declarada uma simpatizante nazista (Mitläufer). Ela tentou separar-se da natureza criminal do regime nazista, sugerindo que seu dever era para seu ofício e não necessariamente para as autoridades nazistas que encomendaram seus filmes.

Embora nunca tenha sido membro do Partido Nazista, Riefenstahl achou difícil superar sua associação com os filmes de propaganda que ela havia feito para o regime. Ela procurou muitas vezes fazer mais filmes durante os anos 1950 e 1960, mas encontrou resistência, protestos públicos e críticas agudas. Sua experiência foi bem diferente da de seu colega Veit Harlan, que havia dirigido tais obras seminais de propaganda nazista como Jüd Süss e Kolberg, mas que retornou a uma carreira de diretor florescente na década de 1950.

Com a carreira no cinema acabada, Riefenstahl voltou-se para a fotografia, publicando na década de 1970 um volume ilustrado sobre a tribo Nuba, do Sudão. No final dos anos 1970, ela empreendeu um novo interesse na cinematografia subaquática, prática que seguiu executando mesmo quando já tinha completado 90 anos.

Leni 1

Em 2000, Leni sobreviveu a um acidente de helicóptero no Sudão em 2000 enquanto tentava aprender o destino de seus amigos Nuba durante a Segunda Guerra Civil Sudanesa. Ela morreu de câncer em Pocking, na Alemanha, em 8 de setembro de 2003, algumas semanas depois do seu 101º aniversário.

Ao longo de sua longa carreira, Leni Riefenstahl alcançou uma nova estética no cinema e introduziu técnicas cinematográficas inovadoras, mas nunca poderia escapar de sua associação passada como propagandista nazista e permaneceu uma figura controversa até o fim de sua vida. Ela chegou a dizer que seu maior arrependimento na vida era ter conhecido Hitler.

Pouco antes de morrer, Riefenstahl expressou suas últimas palavras sobre o assunto de sua conexão com Adolf Hitler em uma entrevista para a BBC. “Eu era um dos milhões que achavam que Hitler tinha todas as respostas. Vimos apenas as coisas boas, não sabíamos que coisas ruins estavam por vir”.

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