11/12/2017

Opinião

Julio Ribeiro: Ombudsman x redes sociais

A matéria de capa desta edição da PRESS trata do desaparecimento, aos poucos, da figura do ombudsman nalguma das principais redações do mundo. Um tema com vários desdobramentos e análises possíveis.

O primeiro ombudsman surgiu em 1967, no centenário Courier-Journal, de Louisville, Kentucky. Em 1970, o Washington Post deu um passo adiante, sendo o primeiro jornal do mundo a abrir uma coluna semanal para o ombudsman. É muito simbólico, portanto, que agora, em março passado, o mesmo Post tenha demitido o seu ombudsman. Vários veículos de comunicação mundo afora já haviam feito o mesmo. E outros deverão fazer em seguida.

Por que isso? Primeiro é interessante que se tenha claro quais papéis foram atribuídos, historicamente, aos ombudsman, para sabermos quais destes foram substituídos por tecnologia, quais se tornaram obsoletos e quais, afinal, permanecem essenciais.

Em 1809, o parlamento sueco criou o cargo de ombudsman, como um representante dos cidadãos dentro da casa legislativa, um “mediador” entre os interesses da população e o parlamento. Havia, portanto, essa função de mediação, de negociação, de representante. Ao ser incorporada pelos veículos de imprensa, especialmente os grandes jornais, uma outra dimensão, a de “ouvidor”.

Os ombudsman na imprensa passaram a ser os representantes dos leitores (público) e os mediadores de suas demandas no ambiente interno das redações e da empresa jornalística. Pois, uma das alegadas razões para se acabar com o cargo é de que, com o advento das mídias sociais — Facebook, Twitter, Instagram, entre outros — o público atalhou caminho, podendo se comunicar direto com a direção dos veículos e com os seus profissionais de imprensa. Um post na TL de tal colunista é muito mais rápido, eficiente e poderoso, que um email ou telefonema para o ombudsman.

Pode ser. Mas, pode que o tiro saia pela culatra, porque as redes sociais se prestam para tudo, para a crítica bem-intencionada, correta, como também para a difamação, para a propagação de ódios (os haters sempre existiram, mas agora eles têm mídia). E como filtrar isso tudo, dentro da perspectiva do público médio do veículo? Como saber o que é crítica pela crítica, e o que é sinal para necessárias mudanças no jornal, na revista, na rádio, tevê, enfim? Daí que um especialista em ouvir, entender, filtrar, classificar e demandar internamente a partir dessas críticas, positivas ou negativas, do público, pode ser alguém insubstituível.

Seja como for, se há 50 anos ter um representante do público dentro do veículo de comunicação era algo importante, hoje, com o “empoderamento” do consumidor em todas as categorias de consumo, com o aumento da noção de direitos (e os deveres?) dos cidadãos, e com a crise da mídia, talvez, seja ainda mais importante a figura do ombudsman. Não lhes parece?

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