28/07/2017

Opinião

Julio Ribeiro: Governo, para quê?

Eu estava recém no meu terceiro dia de férias na Espanha, quando vieram a público as gravações de Joesley Batista, da JBS, que envolviam o presidente Temer, o senador Aécio Neves, Lula, Dilma e mais um sem número de pessoas em propinas milionárias. Confesso que nem o sol ameno e o- céu azul da primavera espanhola foram suficientes para conter o desânimo que me abateu. Pombas, justo agora que a economia brasileira começava, timidamente, a dar sinais de recuperação, vem essa bomba! Quando é que vai parar essa sujeira toda e vamos poder ter esperança em um país que funcione, em que o dinheiro dos nossos impostos não seja drenado, vergonhosamente, para os bolsos de quem deveria zelar pela sua melhor aplicação?

Foi preciso muitas cervezas e sangrias para eu tentar esquecer o Brasil e desfrutar dos poucos dias de merecidas férias. Mesmo assim, não deixei de conversar com um ou outro espanhol, e acabar comentando sobre os acontecimentos em Brasília. A identificação com a nossa situação era imediata. O que eu mais ouvi foi que “Infelizmente, a corrupção não é privilégio do Brasil, aqui acontece o mesmo!”. Será?

Lá, como cá, agentes públicos cobram comissões para liberar obras, em várias partes do país. Os números mais tímidos sobre o custo anual da corrupção naquele país falam em 800 euros por habitante, algo em torno de 38 bilhões de euros, cerca de 4% do PIB nacional.

Aqui, segundo a FIESP, a corrupção drena perto de 1,4% do nosso Produto Interno Bruto, algo em torno de R$ 42 bilhões por ano, ou mais ou menos R$ 200,00 de cada brasileiro. Se considerarmos os números relativos de tamanho da população, economia, renda per capita e tal, estamos em pé de igualdade com os espanhóis.

E por que, mesmo sendo vítima de uma roubalheira semelhante, eu sinto uma certa inveja dos espanhóis? Há muitas razões, mas a principal é que o país de Picasso e Dali funciona independente do governo. Eles passaram quase todo 2016 sem governo, porque nas eleições de dezembro de 2015 nenhum partido conseguiu maioria nas urnas, e, depois delas, não se conseguiu uma coalizão de partidos que viabilizassem a escolha de um Primeiro Ministro. Assim, Mariano Rajoy — até então, premier, e representante do Partido Popular, que obteve o maior número de cadeiras no Parlamento — liderou, o ano todo, um governo temporário. E sabem o que aconteceu no país? Nada. Tudo continuou andando, acontecendo, a vida dos espanhóis, parece, até ter melhorado.

Alguns deles  se manifestaram sobre a falta de um governo, dizendo coisas como: “Sem governo, sem ladrões”; “A Espanha ficaria bem se nos livrássemos da maioria dos políticos e de três quartos dos funcionários públicos”; “As pessoas estão exaustas, elas não querem ouvir mais nada desses políticos”.

Pena que aqui, ainda que a gente pense o mesmo que os irmãos espanhóis, seja tão grande a nossa dependência de Brasília. Na Espanha, o que mais conta são os governos regionais. O mesmo deveria ser aqui, com um novo pacto federativo que desse maior autonomia aos estados e permitisse que o dinheiro dos impostos ficasse mais perto dos contribuintes. Só assim, as coisas poderão mudar, de verdade,  no Brasil. Até lá, haja cerveza!

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