28/07/2017

Opinião

Julio Ribeiro: a culpa da imprensa

Em julho do ano passado, fizemos uma capa da PRESS com a seguinte manchete: ” A imprensa que sabia de menos” e perguntávamos na matéria principal como é que podia a imprensa brasileira ser “surpreendida” pela roubalheira na Petrobrás e na maioria das estatais e órgãos públicos federais? Como não houve, entre as centenas de jornalistas que cobrem diariamente os assuntos de Brasília, um que levantasse o tapete e registrasse toda a sujeira que vinha sendo jogada para baixo, nos últimos 30 anos no país.

Que durante a ditadura militar não se fizessem, ou não se publicassem, reportagens investigativas, ok, porque, afinal, estávamos sob um regime de censura e arbítrio. Mas, por que, nessas três décadas de liberdade de imprensa, não fomos a fundo na investigação da corrupção, que foi se alastrando em todas as esferas do setor público brasileiro?

É claro que houve uma reportagem aqui outra acolá, a maioria detendo-se em mal gastos de verbas parlamentares, excessos de diárias em legislativos, desvios em obras municipais e outros quetais. Mas, nada sobre a grande roubalheira nas estatais, nenhuma investigação a sério e grande sobre, por exemplo, o que o Paulo Francis já denunciava há 20 anos a respeito da Petrobras.

E agora, no âmbito das delações premiadas, somos obrigados a ouvir o rei dos corruptores, Emilio Odebrecht dizer, textualmente: “O que me surpreende é quando eu vejo todos esses poderes, a imprensa, tudo realmente como se isso fosse uma surpresa”.

E ele diz mais: “O que me entristece, inclusive, eu digo aí a própria imprensa. A imprensa toda sabia que, efetivamente, o que acontecia era isso. Por que, agora, estão fazendo isso? Por que não fizeram isso há dez, 20 anos atrás?”, pergunta. “Essa imprensa sabia disso tudo e fica agora com essa demagogia”, e ainda fala que todos deveriam fazer uma “lavagem de roupa nas suas casas” para saber o que fazer a partir de agora.

O que o barão dos empreiteiros diz é um escárnio, mas é, também, uma constatação. Temos que ouvir isso e fazer uma mea culpa. Muitos veículos de imprensa não investigaram porque eram agraciados com polpudas verbas publicitárias dos governos ou beneficiados com dinheiro sujo das empreiteiras, outros se acomodaram para não incomodar os poderosos de plantão, e outros, ainda, por pura preguiça ou inapetência pelo jornalismo sério e comprometido com a sociedade.

Nós jornalistas, e nós dirigentes de veículos de imprensa, precisamos refletir sobre isso para não sermos, novamente, “surpreendidos” ante fatos que todos conhecem, mas que ninguém se atreve a investigar e denunciar. É isso, ou ainda vamos ter que ouvir um pulha como o Emílio Odebrecht nos chamando às nossas responsabilidades. Que vergonha!

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