11/12/2017

Opinião

José Cesar Martins: Smartphones podem ser o pulo do sapo

Quando tudo parece tão difícil, criar caminhos novos não é uma opção. É a única saída. Nossa economia anda pra trás, o desemprego pra cima e a política brasileira se tornou um bloco matizado na superfície para a mesma  baixaria na essência.

Alguém ainda acredita no Brasil? Seitas ideológico-religiosas não contam. Certo é que, acreditar em caminhos propostos pelas decisões dos grupos de interesse que nos puseram onde estamos é tão útil quanto discutirmos a existência de fadas e duendes.

Por isso, se quisermos avançar como país, vamos ter de tirar da cartola coelhos imprevistos ou subestimados. Um exemplo é a universalização de smartphones na população brasileira. De acordo com a 28ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação, realizada pela FGV-SP, até outubro deste ano a base instalada no Brasil será de 208 milhões de aparelhos. Ou seja, teremos um smartphone por habitante.

Além disso, somos have users, os mais intensos do planeta. Peguemos o número de horas por habitante para multiplicar pelas populações do Brasil e dos Estados Unidos. O resultado mostra que, mesmo com uma população significativamente menor, o volume total de horas de uso de smartphone no Brasil é maior. Vivemos  940 milhões de horas/dia com a cara na telinha. Lá, “somente” 758 milhões.

Na América, o dark side da hiper conectividade é uma preocupação disseminada: pais, professores, pesquisadores, notam que os efeitos não são neutros e que falta distanciamento histórico, além de referências científicas, para avaliar todos os impactos e prevenir riscos.

No Brasil, dado o volume de uso, deveríamos nos preocupar em dobro. Especialistas falam em dependência equiparável à uma substância química, em que a “recompensa” imediata de um like obtido nas redes sociais opera nos mesmos caminhos neuronais por onde opera a cocaína.  Entre tantos possíveis males, é razoável ter cautela frente a problemas causados pelo uso sem limites do badulaquinho digital.

Mas será que é só isso? Será  que o potencial positivo do smartphone não está sendo subestimado e negligenciado? Há vários anos o Brasil sinaliza características de uso de ferramentas digitais e redes sociais particulares. O Orkut tinha no país a maior penetração de usuários no mundo. No Whatsapp somos campeões.

É possível que a razão para a indiferença diante do capital social hiper conectado que dispomos tenha a ver com a natureza antiga das “locomotivas” de nossa economia, tradicionais e virtualmente alheias aos avanços que vão pelo mundo.

Mas temos lá nossas particularidades. Os dados indicam que gostamos de conectar, conversar. Éramos assim quando em 1936 Sergio Buarque de Holanda conceituou o homem-cordial brasileiro, e nos entendemos melhor nos anos 60 quando Gilberto Freyre anuncia “um novo mundo nos trópicos”. Em linha com isso, sem qualquer intencionalidade e quase nenhuma consciência, o Brasil se viu envolvido em um ambiente tecnológico que parece pensado para seu caráter. Por isso, ao deparar-se com tecnologias sociais que tão bem se assentam com a cordialidade brasileira, eis que nos vemos no pódio digital como a sociedade mais conectada do planeta.

Essas características não afastam riscos, mas são uma fortaleza esperando para ser utilizada. A indiferença ao fato de que somos um oceano de pessoas militando 5 horas por dia nos nossos dispositivos não se justifica. Fossemos 5 milhões, seria um fato curioso a ser melhor entendido. Em uma população de 210 milhões é critico que se pense na utilização dessa rede poderosa para a solução de problemas em que estamos empacados.

E se cada smartphone tiver um botão de pânico conectado a polícia? Se as crianças puderem acessar literatura infantil de primeiro nível? E se todo pai de criança em idade de vacina fosse lembrado e tivesse que clicar “ciente”? Em tempos de fenótipo digital, deixamos “pegadas” ao interagirmos com o Google, o Waze ou o Kindle. Dezenas de “bots” surgem para extrair daí conhecimento, ajudando a descobrir alguém deprimido do nosso lado, avisando que um vizinho precisa de um remédio que está nos sobrando. Existem centenas de aplicações que podem melhorar a vida, sobretudo dos mais vulneráveis, a custo marginal.

Vejo todos os dias startups batendo cabeça em mercados pequenos, nichos pouco promissores e, sobretudo, divorciadas do ecossistema onde operam e que podem obter tração. Por curioso que soe, esse divórcio notável não é a exceção.

Se centros de inovação e jovens empreendedores mirarem nos grandes problemas da população ao invés de nichos menos relevantes e tirarem partidos dos recursos abundantes que já dispomos, sou capaz de apostar meus caraminguás que isso irá impactar significativamente a taxa de sucesso de nossos empreendimentos nascentes.

Em tempos de empresários “campeões’ na ponta doméstica, e negócios inovadores bilionariamente capitalizados na ponta internacional, olhar para aplicações aderentes às necessidades do país é uma premissa que se impõe. Criar tração com aplicações para melhorar a saúde, a educação e a segurança de dezenas de milhões de usuários pode ser o leapfrog (o pulo do sapo) ao nosso alcance. E o Brasil, bem debaixo do nosso nariz, tem um diferencial competitivo único, pronto para ser usado.

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