11/12/2017

Grandes Nomes

Joel Silveira, a “víbora” da reportagem

No dia 15 de agosto completaram-se 10 anos do falecimento de um dos nomes mais importantes do jornalismo brasileiro e premiadíssimo autor de mais de 30 livros: Joel Silveira. Um dos principais repórteres brasileiros, deixou uma ficha extensa em relatos jornalísticos com contornos literários. Segundo ele, o estilo foi moldado por uma necessidade. “Senti que precisava romancear o texto para me diferenciar do que era escrito na imprensa dos anos 30 e 40”, contava Silveira, que acreditava na eficácia de uma boa pesquisa para a produção de uma reportagem confiável.

Nascido em 22 de setembro de 1918, em Lagarto, estado de Sergipe, Silveira desde jovem se considerava militante de esquerda. Por divergências com seu pai, o qual considerava um burguês, mudou-se de Aracaju para o Rio de Janeiro em 1937, a pretexto de estudar Direito. De fato, cursou até o segundo ano da faculdade, mas confessa, em suas memórias, ter sido um estudante relapso. De fato, estava disposto a trabalhar como jornalista.

Seu primeiro emprego foi no semanário Dom Casmurro, de propriedade de Brício de Abreu e Álvaro Moreyra. Depois foi repórter e secretário da revista Diretrizes, semanário de propriedade de Samuel Wainer, onde permaneceu até a redação ser fechada pelo DIP, em 1944. Escreveu também para os Diários Associados, Última Hora, O Estado de S. Paulo, Diário de Notícias, Correio da Manhã e Manchete.

Foi na Diretrizes que Silveira tornou-se uma estrela do jornalismo nacional com a reportagem “Eram Assim os Grã-Finos em São Paulo”, publicada em 1943, na qual apresentava sua impressão do high-society paulistano em uma narrativa irônica e debochada. Sua “língua ferina” rendeu-lhe o apelido de víbora, dado por Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, que logo contratou o talentoso repórter.

A mudança de empresa não foi planejada, mas provocada justamente por um texto seu – ao destacar como título uma frase dita por Monteiro Lobato durante uma entrevista – “O governo deve sair do povo como a fumaça sai da fogueira” – , Silveira despertou, dessa vez, a ira de Getúlio Vargas, que mandou fechar Diretrizes. “Não me sobrou alternativa senão aceitar o chamado do Chatô”, comentou ele em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, na qual explicava o sarcasmo de seus textos daquela época como uma tentativa de escapar da censura imposta pelo Estado Novo.

Foi Assis Chateaubriand quem lhe deu o apelido de “a víbora” por seu estilo ferino e impactante. Joel Silveira recorda: “Nunca tinha visto o Chatô… Aliás, não gostava dele, não concordava com os processos, a maneira dele como jornalista. E fiquei lá estatelado. E o Chatô veio: ‘Seu Silveira, o senhor é um homem terrível! Seu Silveira, o senhor é uma víbora! O senhor vai trabalhar comigo! Desça lá e procure o seu Carlos’. Era o Carlos Lacerda (jornalista e político). Aí, fiquei.”

joel-silveira

Sua primeira grande missão para os Diários Associados foi cobrir a 2ª Guerra Mundial e, antes de embarcar para a Itália como pracinha da Força Expedicionária Brasileira, Silveira ouviu a célebre frase do patrão: “O senhor vai para a guerra, mas não me morra, seu Silveira! Repórter é para mandar notícia, não é para morrer. Se o senhor morrer, eu o demito.”

Na guerra, com a patente de capitão, Joel Silveira aproximou-se dos pracinhas para conseguir mais notícias. Mais de uma vez chegou ao campo de batalhas. “Certo dia, o mais terrível deles, vi a morte de um sargento brasileiro, metralhado pelos alemães. Só conseguimos resgatar seu corpo quatro dias depois.” Como tinha franquia telegráfica pela amizade com os soldados, Silveira enviou diversos relatos. “Enfrentei os momentos pesados e não fiquei em Roma, como os correspondentes mais velhos, como Ernest Hemingway.” Quando retornou ao Brasil, disse que havia ido à guerra com 27 anos e que, apesar de ter ficado onze meses, voltou com 40. “A guerra amadurece”. Os relatos estão em seu livro O Inverno na Guerra, editado pela Objetiva.

Dez meses depois, o repórter retornou e foi recrutado para outra guerra: Chateaubriand comprou briga com o conde Francisco Matarazzo Jr., que pediu de volta o prédio que os Associados ocupavam no Viaduto do Chá. O troco veio com a cobertura do casamento da filha do milionário, Filly, a cargo de Joel Silveira, que narrou tanto o faustoso matrimônio como o enlace de um casal de operários, trabalhadores justamente das indústrias Matarazzo. A matéria, com o título A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, seria uma das mais consagradas reportagens do jornalismo brasileiro.

Conheceu, conviveu ou privou da intimidade de praticamente todos os presidentes do período democrático anterior ao golpe militar de 1964. Para conseguir uma entrevista com Getúlio Vargas, quatro meses antes do suicídio, mentiu ao chefe da Casa Civil, Lourival Fontes, dizendo que queria um emprego. É que o presidente não queria, de maneira alguma, dar entrevistas. Como se tratava de um pedido de trabalho, o presidente recebeu o repórter, a quem disse: “Oi, doutor Silveira, que prazer.” Ele esclareceu que não era doutor, pois só estudara até o segundo ano de Direito, mas Getúlio retrucou dizendo: “Não, doutor é quem é douto em alguma coisa e o senhor é douto em jornalismo”. No entanto, o presidente, ao perceber que a intenção do encontro era uma entrevista, irritou-se e deu as costas ao repórter.

Com Jânio Quadros, a aversão inicial transformou-se em admiração e amizade. Silveira conviveu intimamente com o presidente, viajaram juntos e, sobretudo, beberam juntos. No livro Viagem com o Presidente Eleito, Silveira conta os dias que passaram num navio, logo depois da eleição. Conta que o presidente às vezes bebia duas garrafas de uísque numa noite.

Com Juscelino, a convivência foi quase fraterna. Dividiram uma namorada, a Osmarina, que fora secretária do então deputado e que um dia Silveira levou em casa, tarde da noite, a pedido de Juscelino. Anos depois, já presidente, ele perguntou: “Como vai a nossa Osmarina?” “Nossa não, senhor presidente. Minha.”, respondeu o jornalista.

Após o golpe de 1964, foi preso por duas vezes, durante o governo Castelo Branco, por ser considerado comunista. Já no governo Médici, foi preso mais cinco vezes.

Em 2001, indignado com a candidatura de Zélia Gattai à vaga do marido, Jorge Amado, na Academia Brasileira de Letras, não apenas se lançou candidato como a criticou pesadamente. Para ele, Zélia era “uma escritora medíocre”, feita à custa do marido, e este só vendeu milhões de livros por suas ligações com o Partido Comunista. Na disputa, porém, Zélia teve 32 votos contra 4 de Silveira, em uma das mais rápidas eleições da ABL: durou apenas 20 minutos.

Silveira é considerado hoje um dos expoentes no Brasil do “Novo Jornalismo”, movimento que surgiu nos Estados Unidos nos anos 60 – com nomes como Truman Capote, Gay Talese e Norman Mailer – propondo reportagens de fôlego escritas a partir de pesquisas extensas e com linguagem que mais se aproximava da literatura do que do jornalismo – por isso o movimento é conhecido também como “jornalismo literário”. Embora o gênero tenha se consolidado apenas na segunda metade do séc. XX, em muitas reportagens de Joel Silveira escritas na década de 40 já se nota a força da linguagem literária na sua produção.

Publicou cerca de 40 livros. Foi agraciado com o prêmio Machado de Assis, o mais importante da Academia Brasileira de Letras, em 1998, pelo conjunto de sua obra. Foi ganhador dos prêmios Líbero Badaró, Prêmio Esso Especial, Prêmio Jabuti e o Golfinho de Ouro.

Em 2005, em uma de suas últimas entrevistas antes de falecer, falou sobre o orgulho que tinha de sua carreira profissional. “Eu nunca fiz do Jornalismo escada para subir, para a política, para me vender. Sempre fui um jornalista, ou melhor ainda, um repórter. Nunca traí minha profissão.”

Joel Silveira faleceu em 15 de agosto de 2007, em seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, em decorrência de um câncer de próstata. Na época, o jornalista Geneton Moraes Neto, que fez várias entrevistas com ele para um documentário, escreveu: “Joel tinha inveja de um personagem de Vitor Hugo que, minutos antes de ser guilhotinado, dizia, resignado, que estava pronto para a execução,mas ‘gostaria de ver o resto’. Ou seja: o personagem gostaria de descrever a própria morte. Que palavras Joel usaria?”

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