20/11/2017

Destaque, Grandes Nomes

João Jorge Saad, o mascate que comandou a Bandeirantes

Em maio, o Grupo Bandeirantes completou dois importantes aniversários: os 80 anos da Rádio Bandeirantes (6 de maio de 1937) e os 50 anos da TV Bandeirantes (13 de maio de 1967). Hoje, a companhia é um conglomerado com mais de 40 empresas integradas nas mais diversificadas plataformas de comunicação, entre televisões, rádios, mídia impressa e outros canais de comunicação. Em grande parte, essa trajetória de sucesso se deve à condução de negócios exercida pelo fundador do grupo: João Jorge Saad.

Descendente de libaneses, João Jorge Saad nasceu em 22 de julho de 1919 em Monte Azul Paulista (SP), hoje Olímpia. Era filho de Jorge João Saad, que havia começado a vida no Brasil como mascate, e de Raquel Amate Saad. Três anos depois do seu nascimento, a família mudou-se para São Paulo, e seu pai abriu uma loja de tecidos na rua 25 de Março, que já, naquela época, reunia lojas de comércio popular.

Depois que concluiu o antigo ginásio (hoje equivalente ao ensino fundamental), João Saad foi trabalhar com o pai. Aos 17 anos, começou a viajar para vender tecidos no interior de São Paulo e no sul de Minas Gerais e comprou seu primeiro carro, um Ford 29.

Com 25 anos, conheceu Maria Helena Mendes de Barros, filha do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Casaram-se dois anos depois e tiveram cinco filhos: Maria Leonor, João Carlos – conhecido como Johnny -, Ricardo, Marisa e Márcia.

Eleito governador de São Paulo em 1947, Adhemar de Barros ofereceu um cartório ao genro, que, para surpresa do sogro, recusou. Logo depois, Adhemar pediu que ele fosse resolver alguns problemas na rádio Bandeirantes, que ele havia comprado. A emissora, criada em 1937 por José Nicolini, havia sido adquirida em 1945 por Paulo Machado de Carvalho, dono da Record, que a revendeu em 1947 para Adhemar de Barros.

Saad não queria administrar a rádio, já que continuava com suas viagens de negócios e tinha começado também a adquirir fazendas, e estava se dedicando ao gado leiteiro. No entanto, devido à insistência do sogro, aceitou o convite.

Em 1950, a rádio apoiou as campanhas vitoriosas de Getúlio Vargas, para a Presidência da República, e de Lucas Nogueira Garcez, para o governo do Estado. Um ano depois, João Saad fez um trato com o sogro: ele assumiria definitivamente a rádio e ajudaria Adhemar de Barros nas suas futuras campanhas.

Quando Adhemar assumiu a Prefeitura de São Paulo, em 1957, João Saad foi nomeado presidente da CMTC. Foi a sua única passagem por cargo público. Sua gestão durou pouco porque trombava frequentemente com o sogro. Não aceitava indicação de apadrinhamentos.

Já a rádio Bandeirantes, sob seu comando, começou a se estruturar como rede. Foram compradas estações no interior de São Paulo e em outros estados. Em 1952, João Saad conseguiu com o presidente Getúlio Vargas a concessão de um canal de televisão em São Paulo.

Durante o governo Juscelino Kubitschek (1956-1961), a concessão chegou a ser cancelada e entregue a outro empresário. Mas Saad conseguiu, já na época do governo João Goulart (1961-1964), recuperar a TV.

Em 1967, a TV Bandeirantes começou a operar. O prédio da emissora, primeiro no país a ser concebido para receber uma TV, levou cerca de cinco anos para ser construído e ficou conhecido como o “Palácio Encantado”. Saad adiou várias vezes o início das operações: “Não era ainda o tempo… Inaugurei a estação só em 67, fincada numa base sólida”, disse. Quando a TV Bandeirantes foi fundada, já existiam na cidade de São Paulo as TVs Cultura, Record e as extintas Tupi, Excelsior e Paulista.

Dois anos depois, João Saad teria sido aconselhado por uma cartomante a vender a emissora por prever um incêndio. Em entrevista, ele teria dito que não acreditou porque achou que ela estivesse a serviço de algum concorrente.

Coincidência ou não, a empresa pegou fogo três dias depois. O incêndio, que teria sido criminoso, destruiu o prédio e todo o equipamento. O prejuízo foi grande, já que não havia seguro. A emissora se manteve no ar com um caminhão de externas, e transmitiu seu próprio incêndio. Mas Saad soube tirar proveito da situação. Em vez de comprar novos equipamentos em preto-e-branco, a Bandeirantes foi a primeira a ter equipamento para TV em cores e saiu da crise em vantagem.

Em 1975, a TV Vila Rica, de Belo Horizonte, é adquirida pelo grupo. Como a aquisição da emissora mineira, inicia-se o processo de formação e de expansão da Rede Bandeirantes. A emissora passa a adotar o nome “Band” em 1989, junto com o lançamento de uma nova marca. No mesmo ano, é criada a Bandsat, primeira rede de rádio via satélite do Brasil

A Bandeirantes investiu desde o início em esporte, filmes e jornalismo. Para Saad, a programação tinha de ser “eclética”. Segundo ele, não se podia “elevar muito o nível dos programas, senão não haverá audiência”.

João Saad tinha não só senso de oportunidade comercial, mas também habilidade para transitar no meio político. Ele adequou seu discurso público à realidade histórica do momento. Em 1972, por exemplo, durante o regime militar (1964-85), disse que a censura oficial “deve e precisa existir, para a defesa da família, das instituições e do menor”.

Apesar de cultivar relações com políticos mais conservadores, como Paulo Maluf, Orestes Quércia e José Sarney, durante o regime militar abriu espaço em sua TV para longas entrevistas com líderes de oposição, como o então secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro, Luís Carlos Prestes, e Leonel Brizola.

Já em 1987, em plena redemocratização, pediu em um discurso: “Menos Estado e mais indivíduo, menos Estado e mais sociedade, menos Estado e mais liberdade”. Saad classificava sua emissora de “apolítica”. “A dívida que tinha com meu sogro paguei mil vezes. Depois, a Bandeirantes não fez mais campanha política”, dizia. Nas campanhas para eleições de presidente, governador ou prefeito, a Bandeirantes liderou os debates e abriu espaço para a oposição se manifestar.

João Saad era conhecido na Bandeirantes por ter sempre a porta aberta para funcionários de qualquer escalão. Também tinha a fama de cobrar de seus auxiliares erros cometidos no noticiário da rádio Bandeirantes nos horários mais improváveis, inclusive de madrugada.

Podia acompanhar toda a programação da emissora porque era caseiro, avesso às badalações. Seu passatempo preferido era visitar suas fazendas e, enquanto a saúde permitia, costumava fazer esses passeios pilotando o próprio avião.

Em 1985, teve uma de suas fazendas, a Vereda Grande, desapropriada pelo Incra. Foi a primeira fazenda em Minas Gerais a ser desapropriada para a reforma agrária.

Em maio de 1993, João Saad foi operado pelo cardiologista Adib Jatene para o implante de quatro pontes de safena. Três anos depois, sua mulher, Maria Helena, morreu de câncer.

 COM ESPOSA MARIA HELENA E RUBENS FURTADO

Com a esposa Maria Helena e o radialista Rubens Furtado

Para homenagear sua esposa, João Jorge Saad deu o nome dela para uma de suas última realizações: a Torre da Band. Inaugurada em 1996, a torre de transmissão de TV possui 219 metros, sendo a maior da cidade de São Paulo e uma das mais altas da América Latina. Foram consumidas 650 toneladas de metal para sua construção.

O presidente fundador da Rede Bandeirantes morreu aos 80 anos, de câncer generalizado em 10 de outubro de 1999, em sua residência no bairro de Higienópolis, São Paulo. Após sua morte, a presidência do grupo passou para seu filho Johnny Saad, que ocupa o cargo até hoje. Em 2007, João Jorge Saad foi homenageado pela escola de samba Nenê de Vila Matilde, durante o desfile do Carnaval de São Paulo, por conta de sua importância para a comunicação no Brasil

O último pedido de João Jorge Saad à redação da Bandeirantes foi feito cinco dias antes de sua morte. Diante de tantas notícias sobre o fim do mundo – devido à proximidade com o ano 2000 -, João Jorge Saad lembrou-se de uma música de Assis Valente intitulada “…E o Mundo Não se Acabou”. Com essa música, a rádio Bandeirantes AM encerrou no dia de seu falecimento a edição dos programas “Manhã Bandeirantes” e “Ciranda da Cidade”.

O “seu João” com o locutor esportivo Fiore Gigliotti

COM FIORE GIGLIOTTI

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