21/04/2018

Matéria de capa

Do Brasil, mas sem o mesmo brilho

Mídia internacional reduz o número de correspondentes no país após jogos mundiais e desarranjos econômicos. A imagem, hoje, é a de uma nação que emergiu surpreendentemente para imergir, pouco tempo depois, nos estereótipos de sempre

 Era 20 de setembro de 1851, quando o Brasil foi citado pela primeira vez nas páginas do The New York Daily Times, fundado dois dias antes. Hoje, o jornal circula com outro nome, The New York Times, mas o alcance global da publicação só se fortaleceu nos 166 anos que se seguiram.

Naquela quarta-feira de 1851, o país foi mencionado em uma breve nota (From South America) por ser sondado para uma aliança com o Peru. Era um período de disputas na América do Sul e a nota, provavelmente, abordava as primeiras movimentações que resultariam na Guerra do Pacífico. O Brasil ficou de fora do conflito, mas a sua importância não foi ignorada nem pelos países vizinhos e nem pelo jornal.

De lá para cá, segundo o arquivo digital do NYT, o Brasil registrou mais de 122,7 mil menções no jornal, sendo 33,7 mil apenas nos últimos 30 anos. Se um dos principais veículos de comunicação do mundo pode ser usado como termômetro para indicar o interesse da mídia internacional sobre o país, é possível afirmar que as notícias sobre a realidade brasileira estão menos interessantes.

Em média, nas últimas três décadas, o Brasil foi citado em 1.123 notícias por ano. É verdade que os números não mentem, mas enganam bastante. Em 2017, foram apenas 714 ocorrências, o menor nível de menções desde 1996. O que aconteceu? Afinal, o Brasil perdeu a relevância no cenário internacional?

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Entre altos e baixos

Outro veículo da mídia estrangeira, a revista The Economist, retratou uma sucessão de fatos envolvendo o Brasil em suas capas. Colocadas na ordem de publicação, é possível dizer que elas, por si só, contam uma história recente perturbadora, que vai da decolada econômica ao fracasso político, econômico e institucional.

São oito edições em que o Brasil foi capa da revista entre 2009 e 2017. A primeira é icônica, mostra o Cristo Redentor decolando. Era a alusão à economia em ascensão e à forma ágil como o país contornou os efeitos da crise financeira de 2008. Foi a única capa positiva entre as oito elaboradas.

A partir de 2013, prevaleceu uma imagem negativa, gradativamente pior a cada nova edição. Em 2013, o Brasil apareceu atolado na lama junto com outros países do BRICS com a chamada “a grande desaceleração”. Ainda naquele ano, o mesmo Cristo reapareceu, em queda: “o Brasil explodiu?”.

Em referência à eleição de 2014 e usando a imagem de uma Carmem Miranda decepcionada, a publicação mostrou que se posicionava contra o partido da situação, o PT, indicando que o Brasil necessitava de uma mudança.

Um ano depois, retratou uma musa do Carnaval aparece afundando na lama, dispensando, novamente, maiores explicações. Na primeira edição de 2016, a chamada “queda do Brasil” conjugada com a foto de Dilma Rousseff cabisbaixa sinalizava um ano desastroso para a chefe do Executivo. Dois meses depois, a presidente reapareceu na capa sob a chamada “hora de partir” – era a The Economist manifestando, mais uma vez, a sua posição e pedindo renúncia.

A sucessão de fatos culmina com o Cristo. Desta vez, pedindo socorro, em abril de 2016, na sequência de um dos momentos mais emblemáticos do país, a votação do impeachment na Câmara dos Deputados, marcada pela visão de parlamentares, muitos deles envolvidos em casos de corrupção, votando “pela moralidade”.

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Política, corrupção e violência: mais do mesmo

Fato é que, passado esse período mais conturbado e que abarcou dois eventos esportivos mundiais, tem sido cada vez mais difícil para os correspondentes estrangeiros “venderem” notícias sobre o Brasil para veículos internacionais. “É mais difícil nos últimos anos. Começou mudar depois das Olimpíadas”, admite o holandês Joost de Jong, que está no país desde 2014.

Aliás, o jornalista revela que propor pautas daqui é a maior dificuldade profissional que enfrenta. “Posso dizer que reduziu o interesse do meu jornal, Algemeen Dagblad, sim, depois das Olimpíadas. A crise política e os escândalos são notícia, mas como ‘sempre é a mesma coisa’ (segundo meu chefe), perde o interesse.” A percepção de Jong é a de que o número de correspondentes no Brasil está reduzindo.

Essa observação é comprovada na realidade. De acordo com a Associação de Correspondentes Estrangeiros (ACE), sediada em São Paulo, o número de integrantes reduziu pela metade desde 2015, passando de 64 membros para 32. A francesa Marie Nadauscher é quem preside a ACE. Entre seus conterrâneos, dimensiona que eram cerca de 40 jornalistas na Copa do Mundo e, agora, são cerca de 10.

Atuando como freelancer no Brasil desde 2010, Marie já reportou para as rádios RTL, Vatican News, Deutsche Well, France e, atualmente, para Europe 1. Além disso, já escreveu dois livros-reportagem sobre o Brasil e já atuou como stringer na produção de reportagens e documentários para canais franceses. A dificuldade dos freelancers, relata, é emplacar pautas que fujam aos clichês que sempre interessam, como Carnaval e violência.

Marie cita, também, problemas estruturais que dificultam ainda mais a produção dos jornalistas. “Precisaria, por exemplo, de um centro de imprensa internacional em São Paulo, como existe em Roma, Paris ou Nova York, para que os correspondentes possam ter um lugar central para trabalhar. Essa é uma das pautas da Associação dos Correspondentes para 2018.”

O acesso às fontes é outra dificuldade. “As assessorias de imprensa ainda não entenderam como funciona o mercado para freelancers. Elas querem saber ‘para quem você trabalha’, mas na realidade trabalhamos para várias empresas e fazemos entrevistas antes de propor ou vender as pautas, às vezes”, critica Marie, que diz já ter tido credenciamento negado por não ter um “e-mail do veículo”, ainda que possua a carteira de imprensa do Itamaraty. “Parece que o que vai sair no clipping interessa mais do que propor um conteúdo de qualidade.”

Para o argentino Pablo Giuliano, que está há 12 anos no Brasil, o acesso às fontes é a principal dificuldade dos correspondentes. Ele reporta para a Agência Telam Argentina, mas discorda da percepção de que o país esteja perdendo o interesse. “A imprensa europeia ou estadunidense não é referência para isso. O Brasil é o país mais publicado nos 12 países da América do Sul.”

Giuliano, diferentemente dos demais jornalistas estrangeiros, não nota uma saída significativa de correspondentes próximos. Pelo contrário, diz que em São Paulo foram acrescentados profissionais. Os casos de retorno credita à crise da mídia em geral.

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Cobertura internacional também passa por adaptação

Todo esse cenário confirma que está havendo uma redução de correspondentes e até de reportagens em veículos estrangeiros, mas essa realidade não pode ser interpretada de forma simplista. As notícias são dinâmicas e muitos fatores interferem na cobertura da imprensa internacional, inclusive o próprio modelo de negócios no jornalismo.

Os aspectos técnicos pesam bastante na decisão de manter ou não um jornalista em outro país, avalia Denise de Rocchi, professora de relações internacionais e jornalismo da UniRitter. “Precisa ter uma demanda que justifique a manutenção daquele profissional.” Para contornar custos de enviar correspondentes, existe a opção de contratar os serviços das principais agências de notícias, hoje, responsáveis pelo grande tráfego de informações.

A partir dessa decisão vem uma certa padronização na forma como os fatos são relatados. Há um filtro ao qual os veículos se condicionam: vai virar notícia aquilo que a agência considerar relevante, e a tendência é a de que ela seja produzida de uma forma mais abrangente, para atender a todos os veículos que atende.

Dessa forma, contextualiza a professora, a vinda de um corresponde passa a fazer sentido para as empresas que priorizam um material diferente ou em situações específicas e pontuais. É o que ocorreu recentemente durante a cobertura da Copa do Mundo e das Olimpíadas. “Isso aumentou o interesse por vir ao Brasil.”

O interesse durante os jogos é natural, em qualquer país do mundo. Com a África do Sul foi assim, destaca Denise. “Antes da Copa, o Guardian fez 262 sobre a África, depois do torneio passou a fazer 20 e poucas. Depois dos jogos, o encanto com o país diminui um pouco”, sustenta. “No Brasil ainda perdurou porque teve desdobramentos políticos, que eram coisas de magnitude acontecendo em um país que estava ganhando interesse.”

Depois de 2016, quando a turbulência arrefeceu, boa parte das questões nacionais passaram a ter mais relevância para a comunidade brasileira em outros países. No entanto, é um grupo de pessoas que tem acesso aos veículos de informação daqui.

Ainda assim, há momentos em que é importante ter um jornalista in loco acompanhando alguns acontecimentos, como ocorreu recentemente com o julgamento de recurso no processo que envolve o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e como deve acontecer durante a cobertura eleitoral de 2018.

Denise lembra que há estereótipos vinculados ao Brasil que tendem a gerar mais interesse, como casos de violência, escândalos de corrupção, questões ambientais, mulatas, futebol e Carnaval. Era o que prevalecia antes dos jogos internacionais. E é o que voltou a ser abordado posteriormente aos eventos esportivos. “O que eu vejo no trabalho dos correspondentes é que, já que eles estão aqui, tentam fazer uma matéria mais apurada, contar uma história diferente.”

O problema, lembra, é que as notícias de um determinado país competem com outros 200 países possíveis de serem publicados nas editorias internacionais. E há grandes preocupações mundiais que não envolvem o Brasil, como a política dos Estados Unidos, conflitos com a Coreia do Norte, guerra na Síria, refugiados etc.

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O Brasil perdeu a relevância?

Relevância, no jornalismo, é um conceito abstrato. Afinal, o Brasil deixou de ser importante? Para quem? Tudo vai depender do ponto de referência, sempre.

Correspondente da Folha de S.Paulo em Portugal desde 2014, a jornalista Giuliana Miranda ressalta que lá notícias sobre o Brasil são abundantes e muito detalhadas, a ponto de identificarem políticos brasileiros sem cerimônias, como Aécio e Dilma, por exemplo. “Dificilmente um brasileiro saberá dizer quem é o primeiro-ministro de Portugal”, compara. “O julgamento do Lula, em janeiro, foi capa de todos os jornais.”

No entanto, Giuliana diz que, quando viaja para outros países, percebe que houve uma redução no interesse pelo Brasil depois das Olimpíadas. Além disso, lembra que a crise da imprensa, de uma maneira geral, também interfere na cobertura, e tem levado muitos veículos a contratarem serviços de freelancers ou de agências, evitando bancar correspondentes.

Integrante da Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Portugal, Giuliana conta que há poucos anos, Portugal também deixou de ser interessante para os veículos internacionais quando estava enfrentando um período de crise econômica. Nessa época, o número de jornalistas de fora reduziu. Com a recuperação econômica, “toda semana chegam novos correspondentes”. É um cenário não tão diferente do Brasil, que quando se projetava economicamente estava mais presente na cobertura internacional.

A questão econômica é sempre determinante, assegura Denise de Rocchi. Basta observar o potencial projetado sobre países emergentes que ficaram conhecidos como BRICS. “O economista Jim O’Neill, que criou o termo do bloco, apostou que o crescimento desses países ultrapassaria, até 2050, o G7. Hoje, diz que se tivesse que falar novamente sobre BRICS, mudaria a sigla e se voltaria mais para Índia e China.” Assim como a aposta foi grande, a decepção veio na mesma escala.

Mais uma vez, as referências da mídia internacional aos países pode servir como parâmetro para o nível de interesse sobre os países do bloco. Nos últimos 20 anos, o The New York Times registrou mais citações à China, em primeiro lugar, Rússia e Índia, na sequência. O Brasil, até agora, vem em penúltimo lugar, à frente apenas da África do Sul.

Enquanto isso, O’Neill aposta em um novo bloco, o Mints, composto por México, Indonésia, Nigéria e Turquia. Com uma correção econômica lenta e disputas políticas que remetem aos anos 1980, o Brasil, talvez, demore muito para voltar a ter a mesma presença que teve há pouco e por tão pouco tempo.

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