21/10/2017

Matéria de capa

A nova (e incerta) cara do jornalismo

Esqueça a imagem que a ficção e até mesmos momentos históricos construíram sobre o jornalista. Esqueça o furo de reportagem. Esqueça as fontes misteriosas e cheias de segredos a revelar. A figura do investigador, que vai atrás da notícia quase que de forma heroica, escancara segredos de estado e muda os rumos da sociedade é tão icônica quanto antiquada. A realidade da profissão, para a maioria dos jornalistas, está longe de contemplar tanta ação, se aproxima mais do drama. E ele reside nas incertezas quanto ao próprio futuro.

De acordo com dados do Inep, mais de 326 mil pessoas se matricularam no curso de jornalismo, entre 2009 e 2015. No mesmo período, 53,5 mil concluíram a graduação. Esses números contrastam com os dados do mercado de trabalho. Na última década, o maior nível de vínculos trabalhistas formais no jornalismo foi alcançado em 2013, com 67.305 postos, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS).

Em 2015, as vagas formais regrediram para 62.577. Em apenas dois anos, mais de 4,7 mil contratos foram encerrados, número equivalente ao total de jornalistas empregados em Minas Gerais, o terceiro maior mercado empregador na área, no ano de 2015.

A constatação evidencia uma contradição. Se, hoje, há mais meios de distribuição da informação, propiciados, sobretudo, pela revolução digital, como justificar a redução de postos de trabalho? Não existe uma única e definitiva resposta para esse questionamento. Mas ela, sem dúvida, passa pela adaptação da grande mídia aos novos modelos de negócios.

São formatos que ainda não estão claramente definidos, fato que dificulta a tomada de decisões sobre investimentos, no caso das empresas, e que leva profissionais, dos mais jovens aos mais experientes, a se depararem com escolhas difíceis. Por exemplo, investir no talento para a reportagem ou optar por uma vaga no serviço público? Mídia tradicional ou o universo digital? Comunicação corporativa ou de massa? Carreira acadêmica? Jornalismo alternativo? Independente? De dados? Blogue?

Entre fazer o que se gosta, correndo o risco de obter uma baixa remuneração ou de ser dispensado em um dos tantos “passaralhos”, e buscar estabilidade profissional e financeira, o jornalista, inevitavelmente, fica em cima do muro. O mundo ideal, em qualquer profissão, seria aliar as duas demandas.

No caso do jornalista o desafio é ainda mais acentuado. Muitos profissionais valorizam e se guiam pela função social do jornalismo. E quando um destes vocacionados jornalistas abandona a profissão, a ética e a informação de qualidade definham um pouco mais. Ao final, não é só ele quem sai perdendo. A profissão tende a sofrer ainda mais com a desvalorização, a informação repassada à sociedade fica um pouco mais comprometida e aquele jornalista icônico vai se dissipando cada vez mais do imaginário e da vida das pessoas.

Imaginário versus realidade

O diretor do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul (Sindjors), Milton Simas Júnior, avalia que os grandes veículos de comunicação exercem uma forte influência sobre os vestibulandos. “O que a gente vê na televisão traz essa falsa ilusão de sucesso e boa remuneração, mas esses profissionais nos quais os estudantes se espelham são minoria na nossa categoria”, salienta ele.

No entanto, durante a formação, emergem novos olhares sobre o papel que o jornalista desempenha na sociedade. Para Sean Aquere Hagen, coordenador da comissão de graduação em jornalismo da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Fabico/Ufrgs), os “alunos esperam poder trabalhar plenamente aplicando os conhecimentos que construíram em sala de aula”, uma perspectiva que é a mais constante entre os graduandos. “Isso não muda, é objetivo de todo formando. Mas entender a realidade em que estão inseridos, vivenciar as contingências de mercado, traz certa apreensão e angústia.”

Nem sempre o recém-formado encontra oportunidade para exercer a atividade, sinaliza Fábio Henrique Pereira, doutor em Comunicação. “A inserção profissional varia muito de acordo com o local: há cidades em que o mercado, apesar de difícil, ainda é dinâmico, como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e as grandes capitais, mas nas cidades médias e pequenas, com um ou dois veículos de mídia, tem turmas inteiras que saem da faculdade sem conseguir entrar no mercado de trabalho.”

Tanto os formandos que não conseguem colocação quanto os profissionais que atuam na área se deparam, em algum momento da carreira, com obstáculos difíceis de serem superados. Pereira revela que boa parte dos jornalistas desiste da profissão no momento da inserção profissional, ainda nos primeiros anos de formados. “Outro momento que percebi de abandono da carreira é na faixa entre 30 e 32 anos, quando o profissional que se colocou no mercado vê uma dificuldade de progresso na carreira, sobretudo em relação aos planos que esses jornalistas têm para a vida familiar.”

O mercado mais restrito é fruto de um ajuste do setor em busca de adequação a uma nova realidade imposta por meios de transmissão da informação mais ágeis e com menores custos de produção. As empresas têm reduzido suas estruturas (grandiosas no caso dos jornais impressos e dos meios eletrônicos, como rádio e TV) para se manterem competitivas frente aos negócios que proliferam no mundo virtual. O grande desafio é que os cortes ocorrem sem que, até o momento, essa operação mais enxuta resulte em ganhos financeiros. “A verdade é que ainda não se aprendeu a ganhar dinheiro com a internet”, avalia Simas.

Há mais de cinco anos, os maiores grupos de comunicação do país vêm promovendo demissões em série, conforme demonstra o levantamento “A conta do passaralho”, realizado pela agência Volt Data Lab, especializada em apuração de dados. De 2012 a julho de 2017, só entre jornalistas que atuam nos principais veículos de comunicação do país a conta já se aproxima de 2 mil profissionais. Em 2017, com pouco mais de um semestre, grandes grupos (como Folha, Estado, Infoglobo, entre outros de grande visibilidade) já demitiram mais do que em todo o ano passado.

Esse é um quadro que eleva a pressão sobre os que estão empregados, para que preservem seus postos – sujeitando-se a baixas remunerações ou a contratos com menos garantias –, e também sobre os que estão desempregados, que se vêm sem opção e acabam aceitando as condições impostas. “O que nós propomos é desenvolver o senso crítico dos alunos para que estejam capacitados a negociar, a entender quais os limites de uma relação abusiva com o empregador e como se posicionar frente a essas questões”, descreve Hagen.

Compete também à academia reforçar valores que devem ser imutáveis na carreira em meio a onda de transformação pela qual ela passa. “O curso entende a importância das novas mídias, e está investido no debate sobre elas, mas acredita que justamente pelo excesso de informação, interesse público, verdade, objetividade e ética são fundamentais para garantir a cidadania”, pondera Hagen.

Renovação desconsidera bagagem dos mais experientes

De acordo com a professora aposentada da Universidade de Brasília, Zélia Leal Adghirni, o jornalismo de qualidade no atual cenário é ainda mais importante do que nunca. Pós-doutora pela Université de Rennes I (França), a professora tem a atividade jornalística como foco de suas pesquisas.

Em um dos estudos mais recentes, Zélia realizou entrevistas em profundidade com jornalistas acima dos 50 anos de idade e que atuam em grandes veículos de comunicação. O olhar experiente dos que acompanharam nas últimas décadas um processo cada vez mais célere de adoção de novas ferramentas e tecnologias digitais demonstra que, apesar do amplo campo que se abriu para a atuação do jornalista, as práticas que asseguraram ao profissional da imprensa credibilidade vêm se perdendo. Informações são, cada vez mais, buscadas na internet.

O problema não é ter a internet como ferramenta de trabalho, mas quando ela se configura como a única ligação do repórter com o “fato”. Essa é a percepção que está presente tanto nas redações quanto na sala de aula. “Os alunos chegam à universidade achando que tudo o que acontece está na internet”, avalia Zélia. Entre os jornalistas seniores que participaram do levantamento, a visão é similar. A opinião de Rosamaria Urbanetto, editora de núcleos especiais da Globonews, dada à professora é um exemplo: “Jovens buscam tudo na internet, não saem às ruas”.

Na análise da pesquisadora, “uma fronteira invisível e intransponível separa jovens e veteranos”. Os  mais jovens são bem preparados, dominam idiomas e ferramentas tecnológicas. Os mais velhos, por sua vez, carregam os valores nobres que consagraram o imaginário icônico do jornalista. “Os valores ideológicos e românticos desapareceram para dar lugar ao profissionalismo pragmático”, reflete Zélia.

Embora cada geração congregue qualidades que somadas podem aprimorar a produção jornalística, as empresas têm frequentemente optado, na redução de seus quadros, pela demissão dos trabalhadores com mais tempo de atuação. Essa movimentação tem o objetivo de reduzir salários, critica o presidente do Sindjors, Milton Simas Júnior.

A constatação se confirma de acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS). Em 2005, a faixa de maior salário para profissionais do jornalismo era superior a 20 salários-mínimos, patamar que concentrava 8% dos profissionais com vínculos formais. Dez anos depois, em 2015, apenas 2,6% do total recebiam mais de 20 salários-mínimos. “O recém-formado é maleável e adapta-se mais facilmente as normas político-editoriais assim como a salários mais baixos na escala profissional”, explicita a professora no estudo.

Obrigatoriedade do diploma em questão

Entender uma profissão que sofre com a precarização e com a recente, e contínua, onda de demissões exige um olhar multifocal. Muitos se questionam se o número de formandos não seria incompatível com o tamanho do mercado. Essa é uma visão que se verifica na realidade. “A gente observa uma multiplicação dos cursos de jornalismo dos anos 70 até 2010”, ressalta o professor da Universidade de Brasília (UnB) Fábio Henrique Pereira, doutor em Comunicação pela mesma instituição.

Até 1970, o Brasil contava com apenas 18 cursos de graduação em jornalismo, esse número foi aumentando gradativamente até atingir 317, em 2010, conforme levantamento para elaboração da pesquisa “perfil profissional do jornalismo brasileiro”, coordenada pelos pesquisadores Alexandre Bergamo, Jacques Mick e Samuel Lima, e apoiada pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

Sobre esse dado, Pereira destaca que por muito tempo a demanda do mercado absorvia praticamente todos os recém-formados. “Entre as décadas de 1970 e 1980 temos um profissional que vai quase automaticamente para o mercado de trabalho”, observa. Esse é um resultado da renovação das empresas jornalísticas no fim da ditadura militar. Na década seguinte, 1990, a quantidade de empregos se mantém compatível com o número de formando graças ao crescimento do setor.

No entanto, o número de graduados seguiu em elevação depois disso sem que a geração de postos de trabalho tenha crescido no mesmo patamar. Ainda que o número de cursos oferecidos tenha se mantido no mesmo nível, houve uma redução significativa no número de formandos a partir de 2010.

Um fato que coaduna com esse período e que teve efeito sobre os graduandos foi o fim da obrigatoriedade do diploma, definida em 2009, quando quase 10 mil estudantes concluíram o curso. No ano seguinte, esse número havia sido reduzido para 7,1 mil. Desde então, tem se mantido em uma média de 7,2 mil formandos por ano.

“Desde que começou a movimentação, que data de 2001, para a retirada da obrigatoriedade do diploma, nós já vislumbrávamos essa condição”, frisa Milton Simas Júnior, presidente do Sindjors. Para ele, esse é um ponto marcante para a precarização das condições de trabalho dos profissionais. Simas critica, também, o fato de a questão ter avançado sem uma mobilização ampla que barrasse a mudança. “Nós, enquanto dirigentes sindicais, estávamos fazendo a luta para derrubar a decisão. Por diversos momentos, buscamos as universidades e os coordenadores dos cursos e quase não houve adesão à causa”, aponta.

Na percepção do coordenador do curso na Fabico, Sean Hagen, não houve menor procura pela carreira após 2009. “Quem acredita que pode fazer a diferença nesta profissão não se deixa influenciar pela desregulamentação do diploma.” Ele reconhece que, no mercado de trabalho, a questão se reflete em salários abaixo da qualificação real dos profissionais, jornadas abusivas de trabalho, insegurança e instabilidade. “Este é um projeto político e econômico que somos frontalmente contrários, e vamos continuar fazendo toda a pressão social possível para que seja revertido em nome de um jornalismo livre, inclusivo e qualificado”, defende.

“Diariamente, recebemos no sindicato pessoas pedindo registro como jornalistas, e não temos nem como negar porque não houve uma definição de pré-requisitos a serem atendidos”, relata Simas. O dirigente analisa que isso leva para o mercado de trabalho pessoas sem qualquer comprometimento com a profissão e que interferem no contexto dos profissionais graduados, ainda que as empresas tradicionais continuem dando preferência pelos diplomados. “A pessoa pega o registro como jornalista, monta um site e passa a copiar e colar matérias publicadas por veículos de comunicação que tentam se rentabilizar cobrando acesso pelo conteúdo. Esse cara põe de graça na internet e ainda ganha dinheiro com publicidade. E quando você vai questionar, ele diz que está dando crédito para o autor, como se isso bastasse”, exemplifica.

Apesar do cenário perturbador, há o reconhecimento de que novos caminhos podem gerar frutos promissores. Jornalistas que estão dando voz às pessoas relegadas na cobertura tradicional, uso das novas ferramentas na geração de dados, checagens aprimoradas e negócios voltados para a geração de conteúdo exemplificam o potencial desta geração, que construirá a realidade futura da profissão.

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