11/12/2017

Grandes Nomes

MACHADO DE ASSIS: Indispensável também no jornalismo

O jornal, literatura quotidiana, no dito de um publicista contemporâneo, é reprodução diária do espírito do povo, o espelho comum de todos os fatos e de todos os talentos, onde se reflete, não a idéia de, um homem, mas a idéia popular, esta fração da ideia humana.

O livro não está decerto nestas condições; – há aí alguma coisa de limitado e de estreito se o colocarmos em face do jornal. Depois, o espírito humano tem necessidade de discussão, porque a discussão é – movimento. Ora, o livro não se presta a essa necessidade, como o jornal. A discussão pela imprensa-jornal anima-se e toma fogo pela presteza e reprodução diária desta locomoção intelectual. A discussão pelo livro esfria pela morosidade, e esfriando decai, porque a discussão vive pelo fogo. O panfleto não vale um artigo de fundo.

Isto posto, o jornal é mais que um livro, isto é, está mais nas condições do espírito humano. Nulifica-o como o livro nulificará a página de pedra? Não repugno admiti-lo.

Já disse que a humanidade, em busca de uma forma mais conforme aos seus instintos, descobriu o jornal.

O jornal, invenção moderna, mas não da época que passa, deve contudo ao nosso século o seu desenvolvimento; daí a sua influência. Não cabe aqui discutir ou demonstrar a razão por que há mais tempo não atingira ele a esse grau de desenvolvimento; seria um estudo da época, uma análise de palácios e de claustros.

As tendências progressivas do espírito humano não deixam supor que ele passasse de uma forma superior a uma forma inferior. Demonstrada a superioridade do jornal pela teoria e pelo fato, isto é, pelas aparições de perfectibilidade da idéia humana e pela legitimidade da própria essência do jornal, parece clara a possibilidade de aniquilamento do livro em face do jornal.”

O texto ao lado é um trecho de artigo em forma de carta aberta publicado por Machado de Assis no Correio Mercantil, do Rio, em 10 e 12 de janeiro de 1859, e dirigido “Ao Sr. Manuel Antonio de Almeida”. Autor da célebre novela Memórias de um Sargento de Milícias, escrita quando era redator no Correio, Manuel Antonio de Almeida assumira, um ano antes, a direção da Tipografia Nacional, onde conhecera Machado de Assis, então aprendiz de tipógrafo. A análise machadiana sobre livros e jornais é extensa e merece maior reflexão, mas o trecho aqui publicado é ilustrativo do entusiasmo que o autor nutria pelo jornalismo.

Escritores jornalistas, ou jornalistas escritores, compõem uma espécie bastante comum, e por razões óbvias. No entanto, poucos são os que, ícones em uma área, logram êxito em deixar sua marca também na outra, o que, decidamente, é o caso de nosso mais brilhante escritor. Trabalhar como jornalista nunca foi exatamente uma ambição, e sim uma forma de ganhar o sustento e de ascender socialmente, algo bem complicado para um mulato de pouca instrução no Brasil do século XIX. Além da desigualdade social e do preconceito racial, era preciso lidar com um fato bem mais objetivo: o diminuto universo de leitores.

Seus textos publicados em jornais eram essencialmente romanceados, mesclavam realidade e ficção, numa espécie de pré-jornalismo literário – cujo conceito é um tanto mais amplo –, e que acabou contribuindo na moldagem do jornalismo que viria a ser praticado no País décadas depois. Ao contrário da maioria dos textos jornalísticos da época, os dele costumavam contextualizar os fatos e análisá-los com a profundidade possível. Ao mesmo tempo, a prática jornalística o ajudou – entre outros fatores, como veremos adiante – a aprimorar seu estilo, a tornar sua prosa mais direta e límpida.

            Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839, filho do negro Francisco José de Assis, um pintor de paredes filho de escravos alforriados, e de Maria Leopoldina da Câmara Machado, lavandeira portuguesa vinda dos Açores. Machado de Assis estudou de modo errático em escolas públicas e jamais chegou à universidade. Quando tinha 10 anos, sua mãe morreu. Em 1854, o pai casou-se com Maria Inês da Silva. Também em 1854, possivelmente – não há registro definitivo disso – o adolescente Machado de Assis começou a trabalhar na tipografia de Paula Brito, na atual Praça Tiradentes. Em 3 de outubro daquele ano, publicou, no Periódico dos Pobres, seu primeiro poema de que se tem notícia, o “Soneto à Ilmª. Srª D.P.J.A”.

            No ano seguinte, passou a publicar regularmente poemas na Marmota Fluminensse, pertencente a Paula Brito, para quem trabalhava como revisor, função que continuaria exercendo depois de atuar como aprendiz na Tipografia Nacional, entre 1856 e 1858. A partir daí seguiram-se colaborações para os jornais O Paraíba e Correio Mercantil – onde também fora revisor – e para a revista O Espelho – crítica cultural. Em 1860, tornou-se redator do Diário do Rio de Janeiro, onde permaneceria até 1867, passando então a escrever para A Semana Ilustrada. Ao mesmo tempo, publicou a comédia Desencantos, colaborou com a revista O Futuro e com o Jornal das Famílias. Nos anos seguintes, publicou peça teatral, poesias e comédia, recebeu de Dom Pedro II a Ordem da Rosa, no grau de cavaleiro, tornou-se assistente do diretor de publicação do Diário Oficial e, em carta aberta a José de Alencar, apresentou ao público o jovem poeta baiano Castro Alves. A grande virada em sua vida, entretanto, viria em 12 de novembro de 1869, quando se casou com Carolina Augusta Xavier de Novais.

            Vinda da cidade do Porto, em Portugal, a atraente, simpática, inteligente e culta Carolina o arrebatou. A obra publicada por Machado de Assis então – poética e teatral – não alcançara grande repercussão, embora ele já tivesse conseguido realizar em parte seus sonhos de ascenção, sendo reonhecido nos círculos intelectuais e sociais relevantes da capital da república e sido beneficiado por cargos, o que persistiria nos tempos seguintes, tanto quanto sua participação na imprensa, a despeito do futuro sucesso literário. Não era considerado bonito – uma forma suave de se referir a uma pessoa feia –, mas, embora sem estudos, já era, graças a muito esforço, um homem culto, além de exibir postura e trajes elegantes.

Machadinho – ele assinava assim – derramava-se de amores nas cartas – felizmente, preservadas – destinadas a Carola. “Tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar”, registrou, com o exagero dos apaixonados, mas nem tanto, ou não somente por isso. A importância dela em qualquer texto sobre a trajetória machadiana não se dá apenas pelas nobres e fofas razões do coração. Carolina era uma mulher culta, bem acima da média na época – ou ainda hoje, certamente – e contava com a vantagem da experiência, pois era cinco anos mais velha do que ele. A diferença de idade não causou celeuma, e sim o fato de ela se casar com um mulato. Mas, claro, mulheres como ela não nutririam tal preconceito.

Foi Carolina quem apresentou a Machado de Assis os grandes clássicos portugueses e muitos autores fundamentais da língua inglesa. Ela costumava não apenas dar palpites nos textos dele, como corrigia e mudava algumas coisas nos escritos quando ele não estava em casa. Especialistas na obra machadiana consideram bastante aceitável o pressuposto de que ela tenha influenciado decisivamente no modo de escrever do marido, quem sabe mais até do que o fez a prática jornalística, a ponto de contribuir em sua transição da narrativa convencional à narrativa realista. Não é pouca coisa. Cabe lembra que o marco inicial do Realismo no Brasil foi Memórias póstumas de Brás Cubas, publicado por Machado de Assis em 1881.

Carolina morreu em 20 de outubro de 1904 e, Machado de Assis, em 29 de setembro de 1908, aos 69 anos. Maior escritor brasileiro, um gigante da literatura universal, são muitos os epítetos utilizados para se falar deste autor que nos legou uma obra composta de nove romances, 600 crônicas, 200 contos, nove peças teatrais e cinco coletâneas poéticas, fundou a Academia Brasileira de Letras e foi seu primeiro presidente. Seu reconhecimento como escritor é indiscutível, mas é sempre bom realçar também sua atuação no jornalismo.

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