11/12/2017

Grandes Nomes

Viagem à vitória!

Ernest Hemingway participou diretamente do Dia D, quando foi executada a Operação Overlord, a batalha decisiva da Segunda Guerra Mundial. Em 6 de junho de 1944, o escritor desembarcou com as forças aliadas na costa da Normandia. A experiência está relatada neste artigo histórico.

 Ninguém se lembra do dia da Batalha de Shiloh, na Guerra Civil dos Estados Unidos. Mas o dia em que tomamos a praia de Fox Green foi o 6 de junho de 1944, e o vento estava soprando forte de Noroeste. Enquanto avançávamos rumo à praia na cinzenta luz do amanhecer, balsas de 10 metros em formato de caixão eram golpeadas por sólidos cobertores de água verde, que caíam nos capacetes dos soldados colocados ombro a ombro na dura, desconfortável e solitária companhia de homens que rumam à batalha. Havia caixotes de TNT, com salva-vidas de borracha amarrados neles para que flutuassem, e pilhas de foguetes e bazucas acondicionadas em capas à prova d’água, que lembravam aqueles casacos transparentes que as universitárias costumam usar quando chove.

Enquanto a balsa seguia, a água verde tornava-se branca e chegava dando pancadas nos homens, nas armas e nas caixas de explosivos. Adiante era possível ver a costa da França. O ronco cinzento e o corpanzil dos guindastes de transporte estavam para trás agora e, por todo o mar, barcos engatinhavam rumo à França. Enquanto nossa embarcação escalava a crista de uma onda, via-se a silhueta baixa de dois navios e dois grandes vagões de batalha curvados na margem. Viam-se os flashes brilhantes de suas armas e a fumaça marrom que empurrava o vento. Então, no verde topo de uma colina, jorraram duas altas colunas de terra e fumaça. “Veja o que eles estão fazendo com aqueles alemães”, ouvi um recruta dizer sob o rosnado do motor. “Acho que nenhum homem sairá vivo dali”, afirmou ele, contente.

Esta foi a única coisa que lembro ter ouvido de um recruta durante a manhã toda. Eles falavam uns com os outros, mas não era possível ouvi-los com o barulho que o motor a diesel de 225 cavalos fazia. Na maioria do tempo, porém, ficavam em silêncio, sem falar nada. Não vi ninguém sorrir depois que deixamos a companhia de um navio de ataque. Eles haviam visto o monstro misterioso que vinha nos ajudando, mas agora ele estava longe, e estávamos sozinhos de novo. Agora era possível ver a costa em todos os detalhes à frente de nós. Havia navios de desembarque avançando pelo mar cinzento até onde os olhos podiam alcançar. O sol estava coberto e a fumaça soprava por todo o litoral.

Cuspindo água – Gostaria de poder escrever mais sobre o que significa conduzir uma balsa através de um canal cheio de minas – a precisão matemática das manobras; o detalhamento sem fim; a exatidão cronométrica e o timing perfeito de tudo, da hora em que a âncora sobe até a hora em que a balsa desce numa onda. A história de todo o trabalho de equipe por trás disso ainda deve ser escrita – mas para contar isso tudo levaria um livro inteiro, e este é só o relato de como foi estar numa balsa no dia que conquistamos a praia de Fox Green. Comigo estavam Thomas E. Nash, engenheiro de Seattle, com um bom sorriso e sem dois dentes; Edward F. Banker, sinalizador do Brooklyn; Lacey T. Shiflet de Orange, Virgínia, que seria o atirador se tivéssemos espaço para armas; Frank Currier, o timoneiro de Saugus, Massachusetts, além do tenente Robert Anderson, de Roanoke, Virgínia.

            Enquanto nossa balsa acelerava rumo à praia, sentei na popa para ver o que enfrentaríamos. Sequei meus binóculos e dei uma boa olhada na costa. Ela se aproximava muito rápido de nós. Pouco depois, entramos numa castigada zona que ficava bem na mira de duas metralhadoras. Abaixei a minha cabeça sob o forte zumbido que passava sobre nós. Então me escondi no buraco da popa onde o atirador estaria se tivéssemos alguma arma. Os tiros da metralhadora levantavam a água ao redor da balsa, e uma bomba antitanque espirrou um jato d’água sobre nós. Enquanto girávamos num pivô e recuávamos, o fogo da metralhadora cessou. Mas tiros aleatórios continuavam zunindo acima de nós e cuspindo água ao redor. Levantei minha cabeça de novo e agora via a costa ao meu lado.

Lentamente, laboriosamente, como se fossem Atlas carregando o mundo em seus ombros, os homens conquistavam o vale à direita. Não estavam atirando. Só avançavam lentamente como um trem cansado no fim do dia, viajando na rota inversa ao caminho de casa. Outro barco vinha em nossa direção, afastando-se da praia. Quando passamos, um homem gritou com um megafone: “Há feridos naquela balsa e ela está afundando! Vocês podem ir até lá?” Não foi fácil trazer a bordo um homem baleado no abdome – não havia espaço para baixar a rampa entre os obstáculos próximos à praia. Não sei por que os alemães não atiraram em nós, a não ser que algum destróier tivesse acertado as trincheiras com metralhadoras. Ou talvez estivessem esperando que explodíssemos com as minas. Certamente tinham feito um grande esforço para colocá-las e talvez quisessem vê-las funcionando. Durante todo o tempo em que fazíamos nossa manobra esperei que as armas disparassem contra nós.

Pedaço de alemão – Enquanto a rampa da balsa baixava pela primeira vez, vi três tanques se aproximando pela água, quase imóveis de tão lentos. Os alemães os deixaram cruzar o espaço aberto. Estavam numa linha de tiro perfeita. Aí vi uma pequena fonte d’água jorrar bem ao lado do primeiro tanque. Então a fumaça surgiu e vi dois homens mergulhando fora da torre, caindo agachados sobre pedras na praia. Eles estavam perto o bastante para que eu pudesse ver seus rostos, mas nenhum outro homem saiu do tanque enquanto ele começava a pegar fogo. A essa altura, tínhamos o rapaz ferido e os sobreviventes a bordo, com a rampa fechada, e começávamos a recuar, sentindo os obstáculos no chão. Quando o último estava superado, e Currier acelerou forte o motor para alcançar o mar, outro tanque começava a queimar. Levamos o garoto ferido até outro navio.

            Ao mesmo tempo, os destróieres estavam praticamente na praia, explodindo tudo o que viam pela frente. Vi um pedaço de quase um metro de alemão voar alto em meio a uma explosão. Me fez lembrar de uma cena do balé Petrouchka, de Stravinsky. A infantaria já tinha varrido o vale à nossa esquerda e invadido aquele sulco. Agora não havia mais motivo para esperar. Corremos até um bom ponto avistado na praia e colocamos nossos soldados, seu TNT, suas bazucas e seu tenente na areia, e foi isso. Os alemães ainda disparavam com suas armas antitanques, soltando o gatilho enquanto buscavam o alvo desejado. Morteiros ainda cobriam a praia de fogo. Eles deixaram seus atiradores na areia, e quando finalmente fomos embora, ficou claro que todas aquelas pessoas ficariam ali ao menos até escurecer.

Perdemos seis balsas iguais à nossa entre as 24 que desceram conosco, mas muitos dos tripulantes devem ter sidos resgatados por outros navios. Foi uma ofensiva frontal, e em plena luz do dia, contra uma praia minada defendida por todos os obstáculos que a engenhosidade militar seria capaz de projetar. A praia foi defendida tão teimosamente e tão inteligentemente quanto possível. Mas todas as balsas do nosso setor entregaram suas tropas e suas cargas na areia. Nenhuma balsa foi perdida por erro de navegação. Todas as que foram perdidas foram alvo da ação dos inimigos. E tínhamos conquistado a praia. Há muitas coisas que eu não escrevi aqui. Poderia escrever por uma semana e ainda assim não daria crédito a todos pelo que fizeram num front de mil metros. A guerra de verdade nunca é como a guerra no papel, nem sua descrição é lida do jeito que realmente é. Mas, se você quer saber como foi estar numa balsa no Dia D, quando conquistamos a praia de Fox Green, em 6 de junho de 1944, isso é o mais perto que consigo chegar.

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