21/10/2017

Entrevista

Marcos Losekann: “Depois de 33 anos no jornalismo, voltei a estudar Direito”

Trinta e três anos de carreira. O guri de uma cidade pequena do Noroeste do Rio Grande do Sul chegou mais longe do que imaginava, sendo que pensava em ser advogado, não?

Pois é, eu queria mesmo ser advogado. Eram as referências que a gente tinha lá em Independência e Três Passos, onde acabei me criando. Saí de Independência antes dos 10 anos de idade. Meus pais tinham uma empresa lá, que acabou não dando certo, e eles foram buscar alternativas profissionais em Três Passos. Lá, fiz um círculo de amigos, e o pai de um deles era um advogado bastante conceituado, tinha um escritório bastante concorrido, e comecei a conviver com esse meio e gostar bastante dele. Então essas eram as referências que eu tinha. Não havia na cidade mais do que um jornal semanal. E a televisão não pegava quando fui morar lá. A Globo ainda não chegava em Três Passos. Daí você começa a fazer suas previsões de futuro, do que vai fazer da vida, em cima dessas circunstâncias. Gosto muito de citar uma frase do José Ortega y Gasset, que diz “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Esse é fato. Então fui a Cruz Alta em busca do Direito, por que Medicina, e outras coisas que faziam parte de minhas referências não faziam minha cabeça, sempre fui um homem das letras, não das ciências.

Teu pai é caminhoneiro, nunca teve interesse em seguir essa profissão?

Não, o meu pai sempre quis que eu tivesse um “Dr” na frente do nome, ou seja, ser um doutor. Ele sempre quis que eu estudasse, que fosse para a universidade, que fizesse algo. Não queria aquela vida pra mim, dizia que não levava a nada. Mas leva sim, meu pai é caminhoneiro até hoje. E ele viajou o mundo inteiro, onde quer que eu  fosse, o seu Ari e a dona Elaine foram atrás. Imagina como, na simplicidade deles, isso foi importante. Mas a questão do “Dr” mostrava qual era a intenção da família: “nosso filho tem que se formar, ir pra universidade, a gente vai se matar se for preciso mas vamos dar essa condição pra ele”. E assim foi, cresci nesse ambiente com essa certeza de que isso iria acontecer. Mas não adiantaria meus pais quererem, a família apoiar, se eu não tivesse amigos que me incentivassem. E tive muita sorte, porque ao chegar em Três Passos eu caí numa turma que tinha propósito, uma missão, e que me adotou. Então fui logo cercado por uma turma do bem, cujos integrantes são até hoje meus amigos e compadres.

Quem te levou para o “mau caminho” foi o Flávio Damiani, então?

Ele me levou para um vício (risos). Foi um acidente de percurso, literalmente. Eu fazia Direito em Cruz Alta, tinha aulas de manhã, algumas vezes à tarde e, com alguma frequência, à noite. Fui em uma aula noturna, que acabou em torno de 22h, peguei um ônibus, voltei para a cidade, fazia muito frio, 1ºC, e fui para meu canto na minha república. Éramos em nove morando juntos. Eu já estava na cama quando meu colega de quarto acende a luz e diz “fora, fora, vamos todos jantar na pizzaria”. Eu queria dormir, e estava sem dinheiro, mas ele disse que iríamos fazer uma vaquinha, me pagava a conta. Eles gostavam que eu fosse porque eu era animado, contava piadas. E lá fui eu. Quando a gente entrou, havia vagado uma mesa perto da lareira que havia, que era o lugar mais disputado da pizzaria. Então meus amigos foram rapidamente ocupar aquela mesa, e eu fiquei me demorando, olhando quem frequentava o lugar. E nisso um cara desmaia na minha frente. Eu tento ajudar, vejo que ele está se recuperando, foi um mal súbito, e esse cara era o Damiani. Quando vi que ele estava bem eu disse que ia então sentar com meus amigos, mas ele fez questão de juntar as mesas, e fizemos um grande sarau aquela noite.

Mas o que ele teve?

Um mal súbito. Algo que só aconteceu pra gente se conhecer (risos). Não tem outra explicação. Viramos amigos, e ele me convidou para visitar a emissora de televisão. Ele perguntou se eu já conhecia, e eu disse que não, mas me interessaria, sempre fui curioso. Aí fui conhecer a TV, e nunca mais saí de lá.

Estavas em que ano do Direito?

Estava terminando o primeiro. Fiz mais um, mas esse segundo ano fiz muito capenga. Naquele tempo não existia esse “mar” de faculdades de Comunicação que existe hoje no Brasil. Então era possível contratar pessoas que não fossem formadas para ocupar uma vaga, desde que no mercado local não houvesse quem preenchesse. O que aconteceu é que, uns meses depois das minhas peregrinações à TV o Damiani me falou “tem uma vaga de repórter, a gente não está conseguindo fechar, te interessa?”. Eu disse que sim, até por experiência. Até então imaginava tudo para o Direito. Mas vamos brincar disso. No dia 21 de agosto de 1984 assinaram minha carteira como locutor e entrevistador. Um ano depois fui incentivado pelo próprio Maurício Sirotsky Sobrinho, que estava em Cruz Alta para receber uma distinção de cidadão cruzaltense da Câmara Municipal de Vereadores. Ele me disse que me via na televisão, pela rede regional de notícias, que gostava de mim, e que achava que eu deveria investir na carreira. Isso foi como uma ordem pra mim. Assim eu tranquei minha matrícula, fiz cursinho, passei no vestibular em Santa Maria e Pelotas. Acabei optando por Pelotas, porque lá tinha mais receptividade.

Podemos dizer que Pelotas te abriu para explorar coisas maiores?

Exatamente. Quando eu saí de Pelotas, três anos depois, eu estava completamente preparado para algo maior. Quando cheguei em Porto Alegre minha ambição era a TV Gaúcha, algo que não aconteceu, por algumas circunstâncias, não tinha vaga. Mas daí surgiu a oportunidade da Rádio Gaúcha, e pensei “é comigo mesmo”, porque eu estava sedento de novas experiências, eu tinha que fazer coisas novas. Então fui para a Rádio Gaúcha, trabalhei um ano e pouco. Depois, quando o Cleiton Selistre foi ser diretor da RBS TV em Florianópolis e me chamou, aí pensei “agora é hora de voltar para a televisão”. E em Santa Catarina tinha a oportunidade de fazer jornal também, porque tinha um pacotão que você podia fazer a TV e o Diário Catarinense.

E essa história de que enquanto estava em Florianópolis você “entupiu” a Globo de matérias especiais?

Isso é interessante, porque Porto Alegre tinha uns quatro ou cinco repórteres de rede. Santa Catarina só tinha eu. Em 1989, o primeiro ano inteiro em que fui repórter de rede, fiz mais matérias em Florianópolis do que os quatro ou cinco de Porto Alegre. Mas não havia uma competição, uma meta.

Você já tinha o faro de repórter desde cedo?

Acho que você tem que ter faro, tem que ser uma coisa nata, nascer com isso. Mas se você não trabalha isso, não tem pessoas que vão te incentivar essa qualidade, não vai acontecer. E eu tive no Damiani meu descobridor, o cara que me apontou a estrada. Depois tive, ao longo do caminho, pessoas muito importantes para minha carreira..

Dessas histórias de Santa Catarina, qual mais te marcou?

Meu antes e depois em Santa Catarina foi quando teve greve dos mineiros da região de Criciúma. Entrei em uma mina, em que você descia 800, 900 metros, depois andava debaixo da terra três ou quatro quilômetros, e lá tinha máquinas bombando água para impedir que a mina alagasse, e era a única coisa que os mineiros mantinham em funcionamento. Então andar lá embaixo, sabendo que se a máquinas parassem aquilo alagaria em questão de minutos, era uma sensação absolutamente estranha. Dava medo, mas ao mesmo tempo era muito legal estar lá. Era a primeira vez que uma equipe de televisão estava descendo naquelas entranhas da mina. Eu pensei “é isso que eu quero pra mim”.

E como surgiu a oportunidade de ir para Brasília?

Eu estava trabalhando em Florianópolis durante a Copa do Mundo de 1990, quando o Brasil perdeu com aquele gol do Caniggia para a Argentina. Eu ia fazer uma entrada ao vivo da Avenida Beira-Mar, que não houve porque o Brasil perdeu, e fui para casa frustrado. Aquela noite fui dormir cedo. Menos de 10 horas depois do jogo sou acordado por um telefone de alguém se dizendo o Schroeder – Carlos Henrique Schroder, hoje diretor geral da Globo.

Ele é de Santo Ângelo, também da minha região, e ele já estava numa chefia quando o Alberico de Sousa Cruz comandava a Central Globo de Jornalismo. Ele me disse que tinha uma proposta para ir a Brasília, que iria abrir uma vaga lá, e queria saber se eu tinha interesse. Hoje eu sei que a gente tem que pensar mais, ver salário, negociar, mas na hora falei que queria. Por que achei que tinha chegado o momento. Aquela cobertura da Copa do Mundo tinha encerrado uma fase da minha vida. E eu já tinha recebido uma proposta para ir para a Globo um ano antes que não tinha aceitado, achava que ainda tinha que explorar a oportunidade que a RBS me dava de eu ser repórter local. No final daquele jogo foi como se um sininho tivesse tocado: “velho, chegou tua hora, vamos embora que você tá pronto”. E o que tinha que acontecer foi muito rápido.

E em Brasília é um cenário nacional, onde as coisas do País oficial acontecem. Como foi tua chegada lá? Já tinha vários gaúchos em Brasília também.

Tinha, estava lá o Alexandre Garcia, que era diretor da TV, e tinha muitas coisas acontecendo. Era o momento do Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente eleito diretamente desde 1960, e eu estava fazendo parte daquilo tudo, aprendendo cobertura política. Fiquei feliz com esse trabalho em 1990, 1991, mas daí iria haver uma coisa no Brasil chamada Rio 92, a Eco-92 (Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento).

Foi aí que te mandaram fazer matérias na Amazônia?

Não, na verdade meio ano antes havia caído um avião de garimpeiros na selva e o governo da Venezuela dizia que tinha sido por falta de combustível. Mas na verdade o avião tinha sido abatido. Eu achei o avião, e aquilo me colocou num novo patamar do jornalismo, por que era um dos primeiros grandes furos que a TV brasileira dava em toda a imprensa, especialmente de jornal. A gente foi e provou que o havia havia sido abatido, por que tinha buraco de bala.

Como achou esse avião?

Tinha um sobrevivente, um garimpeiro. Havia cinco pessoas dentro do avião, quatro tinham morrido, e um sobreviveu. Ninguém deu bola pra isso, porque a versão oficial sempre é mais confortável. E a versão oficial era da forma que a Venezuela contava. Mas o garimpeiro, o Alarico, se dispunha a levar o primeiro jornalista que aparecesse para contar a história. E fui até o Alarico, numa operação louca, decolando de uma pista clandestina, porque a Funai controlava o espaço aéreo dos Yanomami e não deixava que ninguém voasse na área. Usando a linguagem de garimpeiro, o Alarico me convenceu que eu ia encontrar “ouro em pó” se fosse com ele. Eu fui, e depois de três dias de caminhada encontramos o avião na selva, crivado de balas. Toda a história do garimpeiro se confirmava. Filmamos a aeronave, e voltamos até o posto da Polícia Federal de onde nós iríamos pedir para um avião para nos buscar. Quando chegamos no posto da Polícia Federal descobrimos que a Guarda Nacional da Venezuela estava alardeando que havia encontrado o avião e que ele estava incendiado na selva. Incendiado como, se encontramos ele inteiro? Então, se é que tinham encontrado, colocaram fogo. Moral da história: virou reportagem internacional, foi um grande momento da TV Globo, e me permitiu seis meses depois ser repórter na Amazônia durante o período da Eco-92, para ficar na região durante três meses, um antes, outro durante e um depois do evento.

Mas depois disso tu saiu da selva e foi para São Paulo, para a matriz.

Passei seis meses depois no Rio de Janeiro e quatro anos em São Paulo. Foi uma experiência importante, porque lá se faz coisas grandes, tudo de relevância repercute em São Paulo. Depois de mais uma temporada de um semestre no Rio, e aí o Evandro Carlos de Andrade me chamou para Londres.

Você já estava pensando em alçar um voo internacional, não?

Não, na verdade depois da Amazônia eu achava que minha missão longe de tudo e de todos estava meio que completa. Eu não estava esperando. Quando o Evandro Carlos de Andrade me procurou foi uma surpresa. Não que isso nunca esteja nas possibilidades de um repórter da Globo, uma das poucas emissoras do mundo que tem essa tradição de ter muitos correspondente internacionais. Mas eu não achava que ia acontecer comigo, tinha pessoas que batiam na porta e que pediam, queriam, e eu não fazia isso. Pra mim foi uma grande surpresa.

E como foi tua preparação para essa mudança?

Fui convidado em 1999, ainda em São Paulo, e fui para o Rio antes por alguns meses antes de ir para Londres em agosto de 2000. Ainda em São Paulo aproveitei para dar um tapa no inglês. Contratei uma professora de inglês para dar uma ajuda, e essa professora é hoje minha esposa, Ana Lélia. Fui pro Rio, a gente se viu algumas vezes, e um mês depois que fui para Londres ela foi também, pra fazer um curso, trabalha na Cultura Inglesa em São Paulo.

Qual era tua situação como correspondente lá?

Fiquei dois anos como funcionário. Aí eu tive que sair da Globo. A emissora precisou enxugar a estrutura em Londres, e aí era ou voltar pro Brasil ou ficar por conta e risco. Eu achava que era muito cedo retornar. Minha esposa tinha acabado de entrar num mestrado de Linguística, que era o sonho da vida dela fazer, e eu achava que voltar naquele momento, após apenas dois anos, era muito rápido. Então fiz um acordo com a Globo de ficar como freelancer. Não tinha nenhum compromisso com a emissora, e eles me chamariam mediante interesse. Mas eu dei sorte, porque um ano depois que cheguei lá o Bin Laden destruiu duas torres em Nova York, e saí da Globo nesse período. Logo depois começou a guerra do Afeganistão, e eles me chamavam muito. Então o telespectador no Brasil nem notou. Claro que não queria um 11 de Setembro, não queria uma guerra. Mas, para um jornalista que vive de fatos, aqueles fatos foram decisivos para me empregar e me manter no ar.

Você também estava em Jerusalém quando começou guerra contra o Líbano em 2006.

Sim, cobri essa guerra também. No total, eu cobri cinco guerras. Uma na América Latina, entre Equador e Peru, em 1994. Depois cobri a do Afeganistão, a do Iraque, a de Israel e Líbano, e a última foi a da Líbia, quando derrubaram o Muammar Gaddafi.

E em alguma delas você sentiu o perigo de perto, um risco grande de uma fatalidade?

Aqui, na do Peru com Equador, não teve grandes problemas, era uma guerra mais tradicional, trincheira contra trincheira, mas a gente sabia onde se posicionar. Afeganistão, Iraque e Líbia também foram tranquilas para trabalhar. Mas a de Israel com o Líbano, que foi rápida, apenas 33 dias, era uma guerra onde jornalista vai onde quer. E eu escapei por pouco de ser atingido por um míssil katiucha do Hezbollah, que eles atiram a esmo, pois não tem tecnologia. Caiu muito próximo de nós. Se não fosse por um pomar de macieiras entre o local onde eu e o cinegrafista estávamos e o local onde caiu, e essas macieiras absorveram os estilhaços, eu acho que não estava aqui contando essa história. Mas sabe como é nosso trabalho, só cai a ficha que foi perigoso depois que passa.

A cobertura de uma guerra, do ponto de vista profissional, é gratificante ou é frustrante, pelas dificuldades de informação?

A guerra seduz jornalistas. A gente acha interessante, grandioso. Há uma sedução em ter no currículo correspondente de guerra. Mas depois que cobri, descobri que meu sonho era ter feito uma grande cobertura de paz, ter testemunhado um acordo histórico. A cobertura de guerra você consegue a informação, mas é mais descritiva. É tiro e briefing do exército. Só que a guerra é contada pelos vencedores, então a história é unilateral. Por mais que você apure, você sempre tem que estar em uma das trincheiras.

E como foi ser sequestrado pelo Hezbollah?

Tinha ido ao Líbano, para fazer uma reportagem de uma mulher criada no Paraná, filha de libaneses, que foi levada pelos pais para se casar com o primo, e por esse primo ser violento, querer matá-la ela resolveu fugir. Fomos acompanhar a fuga dela pela fronteira com a Síria para o Fantástico. Aproveitamos o tempo que tínhamos em Beirute, à espera de uma solução diplomática que envolvia nosso consulado, para fazer uma matéria de uma lanchonete chamada Guns and Buns, “armas e pães”. Ela usava como tema de decoração a guerra, armas, metralhadoras, bombas, capacetes, o som ambiente era de tiros. Nós achamos que o nosso visto para fazer a outra matéria valesse para tudo, que não tinha problema ir no bairro do Hezbollah para fazer essa reportagem. E assim que nós começamos a gravar chegou um carro do Hezbollah e nos sequestraram: eu, o cinegrafista de Londres, e um tradutor local. Os carros tinha vidros pretos, não tinha como ver nada, e fomos levados em três locais diferentes, sem documentos, sem celulares, pés descalços, para prejudicar uma tentativa de correr. No final, nos colocaram cada um de nós em uma sala com água, uns 20 cm de água, com ratazanas nadando. A gente ficou sentado em cadeiras no centro da sala, com os pés na cadeira, pra não encostar na água, e eles entravam de botas, chutava os ratos, e faziam perguntas, e depois iam para outra sala e repetiam as perguntas, para ver se os outros respondiam da mesma forma. Ficaram cinco horas fazendo isso. E eu olhava para eles e pensava “esses caras vão me matar, vão descobrir que fui repórter em Israel, vão achar que sou espião”.

Enquanto eles não se satisfizeram quanto à nossa inocência, enquanto não investigaram e ficaram satisfeitos conosco, eles não nos soltaram. Depois eles colocaram a gente num carro, e levaram para uma rua deserta. Achei que a gente seria executado. Eles mandaram descer, nossas coisas já estavam no chão, e disseram para ficar ali. Perguntei como a gente iria embora, e eles falaram que quando passasse um táxi a gente podíamos pegar. Eles foram embora, e mal sumiram na curva apareceu um táxi. Ou seja, eles mandaram um táxi.

E o que fizeram depois?

Voltamos para o hotel, tomei banho, liguei para a direção da Globo para contar, e então a ficha caiu. Deu uma crise de choro nos três. Eu estava com filha recém nascida, com nem um ano de vida, e pensava que nunca mais ia vê-la. Minha mulher já estava grávida da Mariana, minha segunda filha, e eu não sabia. Que momento horrível para morrer.

E personagens que valeram a pena entrevistar nesses 33 anos?

Yasser Arafat foi um sujeito que me chamou muito a atenção. Ele me deu uma entrevista uma vez de cima de um caminhão onde fazia um discurso. Quando parava de falar em inglês para mim, ele falava em árabe para as pessoas, e elas vibravam. Eu pensava, falar de paz com Israel, sobre moderação, e as pessoas vibrarem, isso é muito bom. Mas depois, na hora de ir embora, meu motorista disse que ele falava uma coisa pra mim e outra para as pessoas (risos). Mas também entrevistei duas vezes o Shimon Peres, companheiro dele de Prêmio Nobel da Paz, um homem muito sábio, inteligente. Outro homem que fez história foi o Nelson Mandela, uma experiência interessante. Falei com ele em Maputo, em Moçambique. Ele era casado com a viúva de Samora Maciel, o homem que fez a independência de Moçambique, e ele foi morar lá. Quando eu estive lá o Lula (presidente Luiz Inácio Lula da Silva) estava visitando, e armei uma rápida entrevista com Mandela. Ele era muito interessante, toda a história do tempo em que esteve preso, e o fato de ter acabado com o apartheid na África do Sul.

Quantos países você conheceu como correspondente?

Eu estive em mais de 120 países, contando as escalas de avião. Mas conhecer mesmo, de ficar ao menos uma noite, foram 79 países. Dos 54 países africanos estive em 38.

E qual o lugar mais legal no exterior para ti?

Londres. Tenho até cidadania inglesa, conquistada depois de cinco anos morando lá, eu e minha mulher. Minhas filhas já nasceram quando era cidadão, então elas são cidadãs natas, com dupla nacionalidade, brasileira e inglesa. A Helena vai fazer 10 anos e a Mariana vai fazer oito.

E alguma delas vai ser colorada?

Não, gremistas (risos). A minha mulher cuida da religião, ela é católica, eu sou luterano mas não pratico. Eu cuido do futebol, avisei logo que nasceram (risos).

O que você recomenda para os futuros repórteres?

Hoje você tem que desde cedo estudar línguas. Não fazer como a minha geração fez, que chegou à casa dos 20 anos sem saber outra língua. Eu sou autodidata em inglês, e aprendi. Não precisa casar com a professora, embora eu recomende (risos). Mas tem que saber, além do inglês, uma outra língua universal. Outra coisa é ler livros, clássicos, história, para ter um vocabulário melhor, mais requintado, para poder descrever coisas diferenciadamente. Então um repórter tem que gostar de ler. Quanto a notícias, para ler notícias internacionais tem que se desenvolver o gosto. É preciso saber não apenas o que acontece localmente, mas também no mundo. Tem que saber o que está acontecendo no planeta, senão nem começa uma conversa. E é preciso ter despojo. Especialmente no início da profissão, quando você ainda não tem experiência, não sabe como agir, é preciso estar preparado para trabalhar muito, ralar muito. Jornalismo não é padaria que você sabe que tem que abrir um horário certo, não é funcionalismo público.

Tem algum projeto novo agora?

Estou trabalhando algumas coisas. Ano passado comecei a cobrir o Supremo Tribunal Federal (STF) no impeachment de Dilma Rousseff, e gostei muito do ambiente. E a história tem que se fechar, o ciclo tem que se fechar. Então no ano passado, em julho, eu voltei a estudar, fiz vestibular, e agora estou cursando Direito de novo.

Vai ser “Dr” finalmente então?

Estou que nem “alcoólico anônimo”, um dia de cada vez (risos). Eu quis fazer Direito agora porque sou um cara em busca do conhecimento certo. Acho muito ruim cobrir um centro de excelência, como é o STF, onde estão alguns dos melhores juristas do Brasil, não apenas como juízes mas circulando nos corredores, e você ter um conhecimento apenas razoável. Então achei que um curso na área do Direito seria bom.

As leis no Brasil não são complicadas demais?

O Brasil tem algumas das melhores leis do mundo. O problema é aplicar as leis. No momento em que eu vejo a Operação Lava Jato no pé que está, que vejo um ex-governador preso, um ex-presidente da Câmara dos Deputados preso, eu acho que isso é uma chama de esperança para o País. Acho que estamos vivendo um momento histórico, em que as coisas estão acontecendo. Mas não garanto que vou ver tudo mudar ainda na minha existência.

 

 

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