20/08/2017

Grandes Nomes

José Salimen Jr: Estrela no rádio, pioneiro na TV

Se o mercado de comunicação é uma orquestra, Salimen Júnior (1934-2011) pode ser definido como um multi-instrumentista. Por vezes solista, em outras maestro, desempenhou com sucesso diferentes papéis, entre duas épocas,a era de ouro do rádio e a massificação da televisão. Estrela das radionovelas e dos programas de auditório das AMs nos anos 50 e 60, na década seguinte foi um dos responsáveis pela primeira transmissão em cores da TV brasileira.

Para enquadrar as profissões do homenageado, autores de seu obituário, no inverno de 2011, enfileiraram meia dúzia de ofícios: jornalista, publicitário, radialista, radioator, empresário e animador de auditório. “Pai, eu vou ser jornalista”, já dizia na infância, em Pelotas, como contou ao projeto Vozes do Rádio, da Famecos/PUCRS, aos 70 anos, em 27 de outubro de 2004.

Filho de libaneses cristãos, é um dos descendentes de imigrantes que empreenderam com sucesso e moldaram a comunicação no Rio Grande do Sul no século 20. Com o nome de batismo José Salimen, nasceu em 2 de fevereiro de 1934. Começou a carreiracomo locutor esportivo, aos 16 anos, na Rádio Cultura de Pelotas, e logo assumiu também a produção de minipeças de rádio eas funções de locutor comercial e de narrador, alémde estrear na mídia impressa, na editoria de esportes de um vespertino local, A Opinião Pública, com uma coluna diária sobre esportes.

Aos 20 anos, em 1954, mudou-se para Porto Alegre,a fim de integrar a equipe da principal emissora da época, a Farroupilha.Superou a distância da família aoconquistaramigos, como o também pelotenseAmilton Fernandes (1919-1968), na época locutor e mais tarde o primeiro grande astro de telenovelas,como protagonista Albertinho Limonta emO Direito de Nascer. Ao criar vínculos, Salimensentiu-se à vontade.

Na Farroupilha, foi locutor esportivo e, depois, ator de radionovelas. “Tinha um elenco fantástico, em torno de 400 pessoas”, lembrou. “Era mais difícil um artista exercer várias atividades. Ou era locutor ou radioator, ou era animador, ou locutor esportivo. Aos poucos fui rompendo essas barreiras e fazendo tudo isso na Farroupilha, também.”

Em junho de 1957, a direção da rádio começou a prepará-lo para substituir Maurício (Sirotsky)Sobrinho, animador das tardes de sábado prestes a assumir a concorrente Rádio Gaúcha, como reconstituiu o professor Luiz Artur Ferraretto no blog Uma História do Rádio do Rio Grande do Sul.

Atraía a Porto Alegre estrelas como Maysa, Hebe Camargo, Dercy Gonçalves, Jamelão, Cauby Peixoto e Ângela Maria. Nessa época surgiu o nome artístico. Acrescentou-se o Júnior, inexistente na certidão. Seu pai, Antônio Salimen, registrara o filho como José Salimen. O meio radiofônico o  transformou em Salimen Júnior:

“No rádio, José Salimen, ao ser anunciado, principalmente em auditório, não tinha uma repercussão forte. Naquela época se usava muito o ‘R’ final, pra puxar. O colega locutor anunciava E aí vem pra animar o programa José Salimen…O diretor da época disse:Não tem força,então vamos tirar o José e botar o Júnior aqui. Então ficou:Aí vem SalimenJuniorrrr.”

Em dezembro de 1959 seria inaugurada a primeira emissora de TV do Rio Grande do Sul, a Piratini, Canal 5. A tecnologia nova exigia formação de mão de obra. Comoo novo canal levaria ao ar programas da Farroupilha, Salimen ajudou o diretor da rádio, Ruy Rezende, a selecionar 16profissionaispara participar de um curso nos estúdios da Tupi no Rio. Entre eles,estavam os locutores e redatores de notícias Walmor Bergesch e Sérgio Reis (tambémradioator).Ambos escalados para serem Suíte (Diretor de TV), teriamno futuro, em comum comSalimen,atuação chave na façanha da transmissão em cores.

A carreira na Farroupilha terminou em 1963, quando Salimenfoi contratado pela Gaúcha, para assumir o programa do antigo concorrente. A atração passou a se chamar MS, “M” de Maurício e “S” de Salimen.Mas o tipo de atração estava em decadência. Salimenpassou a apresentar programas na TV Gaúcha.Nessa época tornou-se empresário de propaganda. Abriu a Panam – Casa de Amigos, com o publicitário Daltro Franchini (de quem no futuro ainda seria sócio na Símbolo).

A agência tinha negócios com a Rádio Difusora,de freis capuchinhos. Soube dos planos e das dificuldades deles para colocar no ar também uma TV. Para Salimen, eram uma oportunidade.Ele procurou o amigo e compadre Bergesch com a proposta de assumirem a direção da TV. Estea supervisão técnica, e Salimen as áreas comercial, administrativa e de relacionamento com o mercado, como Bergesch contou no livro Os Televisionários(2010, Ardotempo).

Para a montagem da nova TV, compraram equipamento avançado. Inaugurada em 10 de outubro de 1969, a Difusora de Porto Alegrefoi a primeira estação sul-americana a ter a aparelhagem a cores. A programação era feita a cores, mesmo sem a permissão para transmiti-las e sem disponibilidade de receptores para captar o colorido. “À Copa do Mundo de 70 nós assistimos em cores nos nossos estúdios com qualidade”, lembrava Salimen.

Os bastidores e o protagonismo de Salimensão contados em uma dissertação de mestrado deautoria do diretor da transmissão pioneira, Sérgio Reis, um dos alunos daturma treinada no Rio: “Nos primeiros meses de 1971, Bergesch e Salimen, pelo seu trabalho na TV Difusora, começaram a ser vistos como os novos gênios da televisão brasileira”, escreveu emO Backstage da Televisão no Rio Grande do Sul (Famecos/PUCRS, 2012). “Seus permanentes primeiros lugares nas pesquisas de audiência, vencendo a TV Gaúcha e, por extensão, a TV Globo, chamaram a atenção dos profissionais da área.”

Em entrevista para o Jornal do Almoço da RBS TV, em 1997, sobre os 25 anos da TV em cores no Brasil, Salimen recordou ter ouvido do ministro das Comunicações, HyginoCorsetti, gaúcho de Caxias do Sul, a intenção de inaugurar a transmissão em cores ou no Carnaval Carioca ou na Festa da Uva, que seria em fevereiro de 1972, na cidade gaúcha. “Como as grandes redes brasileiras estavam estruturadas com equipamento preto-e-branco, não tinham condições, nem capacidade financeira para um investimento a curto prazo”, comparou. “Nós, como havíamos inaugurado o Canal 10, TV Difusora, em 10 de outubro de 1969, inteiramente a cores, tínhamos as condições técnicas ideais para isso.”

Para surpresa de muitos e contra a torcida de outros tantos, em 19 de fevereiro de 1972, um sábado, a Difusora cumpriu a promessa e transmitiu em cores o desfile daFesta da Uva em Caxias.

Se o pioneirismo na cor e sua grade de programas fortaleceram o prestígio da Difusora, a tentativa de criar uma rede de emissoras foi traumática. Com a ideia de fomentar a Rede de Emissoras Independentes (REI), Salimen e Bergesch assumiram de forma cumulativa as direções da TV Rio e da TV Alvorada (Brasília) e, por um período, a TV Record.As dívidas na TV Rio se multiplicaram, os dois, com participação acionária, acabaram saindo, e em junho de 1980 os freis transferiram a TV e as rádios AM e FM Difusorapara a Rede Bandeirantes.

Fora da Difusora, entre 1974 e 1976 Salimendirigiu a Maguefa e o Sulbrasileiro Crédito Imobiliário.Em agosto de 1976, comprou a Publivar. Retomava uma carreira na qual já havia sido reconhecido como Publicitário do Ano (1971) pela Associação Riograndense de Propaganda (ARP), entidadeque no futuro seria por três gestões (1998-2004) presidida pelo filho Samir, sócio na Publivar. O retorno de Salimenao jornalismo ocorreu em 2000, como diretor de expansão do Jornal do Comércio, no qual escrevia uma coluna semanal sobre marketing e negócios.

Cidadão de Porto Alegre (1993),foi ainda vice-presidente da Federasul, conselheiro do Museu Júlio de Castilhos, membro da Associação dos Amigos do Margs e nomeado irmão da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, onde sairia de cena. Ao fim de uma luta contra o câncer, morreu no Hospital Santa Rita em 30 de julho de 2011. Dois anos antes havia inspirado uma biografia escrita pela jornalista Carla Santos (Editora AGE), com o apropriado título Salimen, uma História Escrita em Cores.

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