11/12/2017

Grandes Nomes

GORE VIDAL: O genial narrador da saga americana

           “Por sorte, nada que é humano é constante. Hoje em dia os casamentos civis são mais numerosos do que os casamentos religiosos; o divórcio é uma coisa corriqueira; a prevenção da gravidez é universalmente praticada, enquanto o aborto é legal para quem tem dinheiro. Mas nossos governantes cederam terreno nestas questões sexuais-sociais com grande relutância, e não é nenhum segredo que há uma boa dose de frustração nas salas de reunião do país.

           “Umas das razões é que os trabalhadores, hoje, são menos obedientes do que costumavam ser. Quando despedidos, podem se apoiar na previdência social – uma invenção do Demônio. Além disso, o fato de a maior parte dos trabalhos que os homens fazem as mulheres também poderem fazer – e fazem – põe em perigo a velha ordem patriarcal. Uma mulher capaz de sustentar-se e de sustentar seu filho é uma ameaça ao casamento, e o casamento é a instituição central através da qual os proprietários do mundo controlam as pessoas que realizam o trabalho. A homossexualidade também representa uma ameaça a seu antigo domínio, porque homens que não têm mulher nem filhos com os quais se preocupar não são tão facilmente domináveis quanto os que têm.

          “Em qualquer momento dado na vida de uma sociedade, há determinados botões ‘quentes’ que um político pode apertar para obter uma resposta previsivelmente ‘quente’. Há uma década, se você perguntasse ao presidente Nixon o que ele pretendia fazer com a questão do desemprego, provavelmente ele responderia. ‘A maconha é apenas uma etapa para coisas piores.’ Falar contra o pecado é uma boa política – e não se preocupem com os non sequiturs. Na realidade, é positivamente não-americano – chega a ser comunista – discutir um problema real como o desemprego ou quem está roubando todo o dinheiro do Pentágono.”

            Trecho do artigo Sexo é Política, integrante da coletânea De Fato e Ficção.

             Para o establishment dos Estados Unidos, Gore Vidal converteu-se no mais indesejado dos biógrafos. Para os vigilantes das mazelas do grande império do Norte, um constante fornecedor de munição. Já os amantes de história contemporânea com visão crítica e apreciadores de textos deliciosos pontuados pela mais requintada ironia consideram Gore Vidal um gênio do romance histórico, além de uma personalidade ímpar e indispensável contraponto à caretice e à hipocrisia do american way, cuja formação ele retratou com mordacidade invulgar em sete livros: Washington D.C. (1967), Burr (1973), 1876 (1976), Lincoln (1984), Império (1987), Hollywood (1990) e A Era Dourada (2000).

Gore Vidal desconstruía a casta dominante de seu país com a desenvoltura de quem era fruto dela. Eugene Luther Gore Vidal Jr. – aos 14 anos ele decidiu usar apenas o nome que tornaria famoso – nasceu em 3 de outubro de 1925 no hospital militar de West Point, filho único de Eugene Luther Vidal, pioneiro da aviação americana e instrutor na célebre academia, e Nina Gore, e neto de Thomas Pryor Gore, o senador cego de Oklahoma. Estudou na Universidade de New Hampshire, conviveu com a elite de Nova York e de Washington, conheceu a Casa Branca na intimidade e reescreveu a história americana com a fluidez de um bom romance e a crueza dos fatos – “Um escritor deve sempre dizer a verdade, a não ser que seja jornalista”, disse certa vez.

O incomparável romancista, dramaturgo, roteirista, ensaísta, cronista e ativista político – tentou ser político formal duas vezes, mas não se elegeu – começou escrevendo contos e poemas na adolescência. Lançou seu primeiro romance, Williwaw, em 1946, aos 21 anos, produzido enquanto servia às Forças Armadas. O livro, o primeiro sobre a Segunda Guerra Mundial, abriu-lhe as portas para o sucesso, mas ele mostrou mesmo a que veio dois anos depois, com A Cidade e o Pilar, que provocou o maior reboliço por ser um dos primeiros romances da história – em qualquer lugar – a retratar a homossexualidade de maneira direta, sem disfarces ou ambiguidades.

A obra foi dedicada a “J.T.”, cuja identidade permaneceu desconhecida por décadas, até Vidal confirmar que se tratava – conforme levantara a imprensa – de James ‘Jimmy’ Trimble III, morto em combate na batalha de Iwo Jima, em 1º de março de 1945, por quem era apaixonado quando estava em St. Albans e que, diria anos mais tarde, foi a única pessoa que ele realmente amou. A partir do livro, pela condição homossexual assumida desde cedo, tanto quanto pelas críticas mordazes ao belicismo americano, sofreu perseguições dos conservadores, fortalecidos pelo macartismo nos anos 1950.

Era ousadia demais se assumir gay naqueles tempos, e um imperdoável tapa na cara dos moralistas escrever sobre o tema. Orville Prescott, por exemplo, crítico literário do jornal The New York Times, sentiu-se enojado com A Cidade e o Pilar, recusou-se a resenhá-lo e ainda impediu o jornal de divulgar os cinco livros seguintes do abusado rapaz. Mas o abusado rapaz sabia se virar, escreveu vários suspenses naqueles anos sob o pseudônimo de Edgar Box, artifício que lhe garantiu o bom sustento por uma década. A versatilidade sempre foi outro de seus traços. Escreveu roteiros de filmes, séries de televisão e peças de teatro, tendo emplacado êxitos na Broadway e em Hollywood.

Em 1964, publicou Juliano, sobre o imperador romano e, em 1967, Washington, DC, o primeiro dos sete volumes da saga americana referidos no início deste texto. Já no ano seguinte veio a sátira Myra Breckinridge, um ícone da cultura pop transexual, que causou grande furou e saltou das páginas para os palcos e as telas. Os sucessos literários foram se sucedendo, bem como as polêmicas. Ao longo da carreira escreveu, além dos romances históricos, títulos como À Procura do Rei, Palimpsesto, Fundação Smithsonian, Kalki, Messias, Sonhando a Guerra, Myron, Duluth, O Julgamento de Páris, Ao Vivo do Calvário e Um Momento de Louros Verdes. Uma de suas melhores obras, ao lado dos volumes sobre a história americana, é Criação, de 1981, ambientado no século V. a.C., período fértil em ideias filosóficas, políticas e sociais que ajudariam a moldar a civilização ocidental.

            De convicções firmes e sem travas na língua, o escritor protagonizou muitas contendas ao longo da vida. Uma das mais famosas ocorreu no emblemático 1968, durante as convenções dos republicanos (que indicariam Richard Nixon) e dos democratas (Hubert Humphrey).  A rede ABC decidiu promover debates entre um intelectual de direita e um de esquerda. O conservador escolhido foi William F. Buckley Jr., católico, crítico da onda progressista no meio acadêmico, simpatizante do macartismo e da segregação racial. Buckley sugeriu que seu oponente fosse Norman Mailer, mas aceitaria qualquer um, menos Gore Vidal, com quem já se digladiara na imprensa e nos tribunais. Mas a ABC convidou Vidal. Os confrontos épicos podem ser vistos no documentário Best of Enemies, disponível na Netflix. No clímax da série de embates, Vidal diz: “Cale a boca. Criptonazista.” Buckley, com ar abobalhado, responde: “Sua bicha. Vou socar essa sua maldita cara até você ter de aparecer engessado.” Vidal venceu. Quando Buckley morreu, ele saudou sua “entrada no inferno”.

Gore Vidal morou por décadas na idílica altitude de Ravello, na Costa Almafitana, onde tiveram residências gente como Victor Hugo, H. Lawrence, André Gide, Giovanni Boccaccio, Jean Cocteau, Máximo Gorki, Richard Wagner, Pablo Picasso, Rudolf  Nureyev, Franco Zefirelli, Greta Garbo, Jacqueline Kennedy Onassis e até, quem dirá, Vladimir Lênin. Retornou a Los Angeles no início do milênio. Morreu em Hollywood Hills, em de 31 de julho de 2012, aos 86 anos. “No final de sua vida, Vidal se considerava o último representante de uma espécie e, sem dúvida, tinha razão”, escreveu The New York Times em seu obituário. Sem dúvida. (Eliziário Goulart Rocha)

Recomendados