20/08/2017

Grandes Nomes

BOB WOODWARD: O homem que ajudou a derrubar um presidente

Bob Woodward tinha apenas 29 anos quando seguiu a cartilha que todo bom repórter sabe de cor desde o berço: desconfiar das explicações iniciais, investigar fatos ocultos atrás do que poderia ser apenas um registro policial sem maior relevo, duvidar das fontes oficiais, utilizar fontes independentes, apurar exaustivamente, checar ainda mais exaustivamente e, depois de tudo isso, convencer o editor de que está seguro do que escreveu e de que os riscos de publicar o material compensam diante da magnitude da denúncia. Os chefes a serem convencidos, neste caso, eram o célebre editor Ben Bradlee, e a não menos lendária Katherine Graham, dona do Washington Post. Tendo como parceiro Carl Bernstein, Woodward desvendou o que ficou conhecido como Caso Watergate (leia reportagem nas páginas anteriores), escândalo político-policial que levou à renúncia do presidente Richard Nixon. A história virou filme – Todos os Homens do Presidente (All the President’s Men, 1976) –, no qual o jornalista foi interpretado por Robert Redford. Mais do que ser imortalizado por Hollywood, Woodward – a exemplo de Bernstein – entrou para a galeria dos nomes fundamentais do jornalismo por realizar aquela que se transformou em ícone de reportagem investigativa.

Robert Upshur Woodward nasceu na cidade de Geneva, Illinois, em 26 de março de 1943, filho de Jane e Alfred Woodward. Conseguiu uma bolsa na Universidade de Yale, onde estudou história e literatura inglesa, tendo se graduado em 1965. Em seguida, alistou-se na Marinha e serviu durante cinco anos no Escritório de Inteligência Naval. Após ser promovido a tenente, em agosto de 1970, desligou-se da arma, fez cursos de pós-graduação e tentou obter uma vaga de repórter no Washington Post. Chegou a fazer um pequeno estágio de duas semanas, ao final das quais foi dispensado por ser considerado ainda muito verde para o ofício.

Decidido a seguir carreira no jornalismo, Woodward resolveu começar um pouco mais por baixo e foi trabalhar no Montgomery County Sentinel, de Rockville, estado do Maryland, mas permaneceu ali por apenas um ano, e então conseguiu realizar o sonho inicial e foi contratado pelo Post, onde logo alcançaria a consagração na carreira. Em 1972, com apenas alguns meses de casa, Woodward foi escalado, junto com o colega Carl Bernstein, para cobrir um caso de assalto à sede do Comitê Nacional Democrata, instalado em um dos prédios do complexo Watergate, na capital americana.

Logo a dupla percebeu que aquilo poderia deveria ser mais do que simplesmente um arrombamento com intenção de furto. Foram a fundo, realizando um trabalho exemplar de apuração jornalística. Ao longo de meses, conseguiram estabelecer as ligações entre a Casa Branca e o assalto ao comitê. Um de suas principais fontes ficou conhecida como Garganta Profunda (Deep Throat), e sua identidade se manteve no anonimato por décadas. Somente em 2005, três anos antes de sua morte, o informante assumiu publicamente a participação no episódio: tratava-se de Mark Felt, ex-nº 2 do FBI, a polícia federal americana.

A investigação dos repórteres evoluiu graças, principalmente, ao Garganta, que lhes forneceu preciosas pistas a serem seguidas, sendo inclusive o autor da frase até hoje largamente utilizada pela imprensa na apuração de escândalos: “siga o dinheiro” (“follow the money”). Tratava-se, de fato, de um ato de sabotagem protagonizado pelos republicanos com o conhecimento do presidente Richard Nixon, que acabaria renunciando ao cargo quando se encontrava sob ameaça de sofrer impeachment (leia mais em reportagem nas páginas anteriores). Woodward e Bernstein entraram para a história do jornalismo, não apenas por desvendar o caso, mas por fazer uma apuração exemplar, precisa, ética e segura.

Apesar da fama obtida por este caso de grande repercussão, o qual não apenas cobriu, mas contribuiu fortemente para o desfecho, ajudando a escrever a história de seu país, Bob Woodward nunca deixou que o sucesso precoce o tornasse menos diligente. Seguiu no Post, agora como editor associado, e continuou produzindo muito, sempre com brilhantismo, dividindo seu tempo entre a redação – ou, como bom repórter, muito mais fora da redação – e os livros. Seu primeiro prêmio Pulitzer, em 1973, foi, obviamente, pelo Caso Watergate, um trabalho de equipe brilhante no qual ele teve papel decisivo. O segundo Pulizer que ele daria ao Washington Post viria em 2002, pela cobertura dos ataques de 11 de Setembro, ocorridos no ano anterior. Além do Pulitzer, ele ganhou quase todos os prêmios jornalísticos dos EUA.

Depois de Todos os Homens do Presidente, escrito em parceria com Bernstein e levado às telas pelo diretor Alan J. Pakula em 1976, Woodward escreveu outros 17 livros, de ficção e jornalismo, entre os quais Os Irmãos: Nos Bastidores da Suprema Corte; A Vida Curta e o Ritmo Veloz de John Belushi (ator, comediante e músico, irmão do também ator James Belushi, John morreu de overdose de cocaína e heroína em 1982, aos 33 anos); e As Guerras de Obama – uma análise da luta dos EUA contra o terrorismo. Sua obra mais recente é O Preço da Política, sobre a política fiscal de Barack Obama e os conflitos com os republicanos no Congresso.

Woodward é um observador atento do jornalismo praticado em seu país. E ele fala com moral. Não “apenas” por Watergate, mas por toda uma trajetória de boas coberturas, jornalismo investigativo de verdade, na veia e bem apurado. A respeito da Segunda Guerra do Golfo, por exemplo, ele atacou a cobertura feita pela imprensa e a falta de iniciativa dos jornalistas – entre os quais se incluiu –, que não investigaram a fundo se o Iraque afinal tinha, ou não, armas de destruição em massa, justificatica utilizada pelo presidente George W. Bush para invadir aquele país e tirar Saddam Hussein do poder – Saddam acabaria sendo enforcado. “Deveríamos ter sido bem mais agressivos”, afirmou, mas atribuiu parte da culpa à correria do dia a dia de um repórter, aos prazos exíguos e ao acúmulo de pautas, uma realidade da imprensa mundial. “É um ambiente louco, o da mídia. Nós precisamos desacelerar. Precisamos de semanas, meses ou até anos para trabalharmos em reportagens”, disse.

Bob Woodward tem duas filhas, Diana e Tali, sendo que esta seguiu a profissão do pai. Ele se casou pela primeira vez em 1974, um ano depois de receber o Pulizer, dois depois de Watergate, com Frances Kuper, de quem se divorciou cinco anos ,ais tarde, em 1979. Depois de experimentar a solteirice por uma década, voltou a se casar, em 1989, desta vez com a escritora Elsa Walsh, atualmente com 58 anos. Ele, aos 73, segue a serviço do Post e do bom jornalismo. Uma declaração de Woodward, feita a propósito do governo de George W. Bush, é atemporal e se encaixa perfeitamente nos atuais desafios da imprensa brasileira: “O estímulo real é fazer o governo assumir suas responsabilidades para que não tenhamos um governo secreto. O pesadelo é quando o presidente se fecha e se convence de que está fazendo a coisa certa ou apenas não é capaz de assumir a possibilidade de ter cometido um erro enorme”.

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