20/08/2017

Grandes Nomes

SAMUEL WAINER: Glória e desgraça de um amigo do rei

“A imprensa no Brasil é uma fonte para a História do País, das mais importantes. Talvez não exista em outros países, ou em poucos outros países existirá uma fonte com essa riqueza. Porque em verdade ao povo brasileiro sempre faltou acesso a outras fontes de informação. Faltaram-lhe escolas, bibliotecas, livrarias, livros culturais. Então, o jornal no Brasil passou a ser até instrumento de cultura, o que nos outros países está há muito tempo superado. O jornal é um instrumento de informação e de orientação (…)

Na minha participação no jornalismo brasileiro, eu a considero importante por ter feito da minha profissão, o essencial, o fundamental, a base da minha vida. Por ter sido realmente um puro jornalista. Por ter procurado no jornalismo a satisfação de um talento natural que eu tinha, e não sei de onde vinha, porque eu sou um autodidata, sou da família de imigrantes pobres. Um jornalista, além de talento, precisa de muito trabalho, em primeiro lugar. O talento só não basta. Ele precisa de muita vivência, ele tem que mergulhar realmente na vida, para poder transmiti-la, porque o jornalista não é um criador de fatos, ele é um transmissor e precisa saber ver. E saber ver é só vivendo. Muitas vezes no mesmo lugar em que há três pessoas, acontece algo, só o jornalista vê. Além do seu talento natural, é preciso ter a paixão pela profissão. É fundamental em jornalismo. Tem que ser uma paixão como é a de um ‘boxeur’ que entra no ringue, mesmo sabendo que vai apanhar e gosta do seu ‘metier’; você pode entender isso? Pode-se entender um ‘boxeur’ que gosta de ser ‘boxeado’?

(Trechos de entrevista de Samuel Wainer à Folha de S. Paulo em 14 de janeiro de 1979)

A trajetória tão brilhante, quanto polêmica, de Samuel Wainer, sempre esteve intimamente ligada aos tortuosos caminhos da política e, por conseguinte, da própria história do Brasil. Polêmicas que, por sinal, começam por seu nascimento. Samuel veio ao mundo em 16 de janeiro de 1912, filho de Jaime e Dora Wainer. Durante muito tempo, a versão oficial dava conta de que ele nascera em São Paulo, até que Assis Chateaubriand, seu adversário jornalístico e político, revelou que, na verdade, Wainer nascera na Bessarábia, região desmembrada da Moldávia e integrante do império russo. Ocorre que a lei brasileira proibia que estrangeiros fossem donos de jornais, o que significava que ele poderia perder seus veículos e até ser deportado. Além disso, tal condição o desqualificava para o papel de nacionalista engajado que costumava exercer.

Quando Wainer foi alvo de CPI, 45 intelectuais de primeira linha assinaram um documento garantindo que ele nascera na Rua da Glória, no bairro do Bom Retiro, na capital paulista. A questão só foi finalmente esclarecida em 2005, por ocasião do relançamento da autobiografia Minha Razão de Viver: Memórias de Um Repórter, organizada por Augusto Nunes a partir de escritos deixados por Wainer. Um trecho não presente na edição original, de 1987, informava: de fato, Wainer nascera na Bessarábia, e sua família chegara ao Brasil, fugindo das perseguições aos judeus, quando ele tinha seis anos de idade. Ele havia deixado o pedido de que a verdade só fosse revelada 25 anos depois de sua morte, quando imaginava que todos os que haviam testemunhado a seu favor já teriam morrido.

Brasileiro ou bessarabiano, Samuel Wainer deixou um grande legado ao jornalismo nacional. Graduado em Farmácia, ofício que nunca exerceu, começou no Diário de Notícias, de Chateaubriand. Em 1938, aos 26 anos, criou a revista Diretrizes, que fazia oposição à ditadura do Estado Novo, implantada por Getúlio no ano anterior. Depois de publicar uma entrevista com Lindolfo Collor, na qual o ex-ministro do Trabalho disse esperar que o fim da Segunda Guerra Mundial fosse seguido do fim da ditadura no Brasil, WaIner teve cortado seu suprimento de papel. Obrigado a fechar o veículo, exilou-se nos Estados Unidos, onde atuou como correspondente de O Globo. Ele foi o único jornalista sul-americano a cobrir o Julgamento de Nuremberg, que levou ao banco dos réus os generais de Adolf Hitler, em 1945.

Naquele mesmo ano, voltou ao Brasil e relançou a Diretrizes, mas a vendeu dois anos mais tarde e foi trabalhar outra vez nos Diários Associados, de Chatô. E aí veio o grande lance de sua vida. Em 1949, discutia-se a sucessão de Eurico Dutra, que se elegera presidente da República em 1945, em pleito que se seguiu à deposição de Getúlio Vargas. Desde então, Getúlio recolhera-se ao silêncio em São Borja. Wainer viajou ao Rio Grande do Sul em fevereiro de 1949 para cumprir uma pauta sobre a produção de trigo. Embora tivesse encontrado o ex-presidente uma única vez, decidiu arriscar e acabou conseguindo se encontrar com ele. Em conversa de uma hora e meia, obteve a declaração que mudaria sua história, e a própria história do País: “Voltarei como líder de massas.” A manchete, que acabaria por se concretizar, teve enorme repercussão e ainda serviu para aproximar o jornalista do velho político.

Getúlio venceu as eleições e retornou ao poder em 1950. Se o povo o queria de volta, a imprensa não dava trégua, por isso ele resolveu incentivar a criação de um jornal que lhe fosse favorável. Graças à interferência direta do presidente, Wainer obteve financiamentos por baixo dos panos para comprar um parque gráfico já existente e o prédio no qual estava instalado. Depois, usando-os como garantia, conseguiu empréstimo no Banco do Brasil e lançou a Última Hora, que circulou pela primeira vez em junho de 1951 e, passados apenas seis meses, já era o vespertino de maior circulação no Rio, sendo que em março teve lançada sua versão paulista – a edição gaúcha existirIa até 1964, quando teve de fechar depois do golpe militar, renascendo, em seguida, como Zero Hora, que anos mais tarde seria adquirida por Maurício Sirotsky Sobrinho e passaria a integrar o hoje Grupo RBS.

Como a maioria da imprensa era contra Getúlio, Wainer começou a sentir os efeitos negativos de ser seu apadrinhado. Logo surgiram as acusações, encabeçadas pela Tribuna da Imprensa, do notório e combativo Carlos Lacerda, de que Wainer recebera favorecimentos na obtenção do empréstimo no BB – o que era verdade. Em seguida veio a história de que nascera na Bessarábia – o que também era verdade. Diante da CPI instalada para apurar as denúncias, Wainer recusou-se a revelar os nomes de seus financiadores, o que piorou sua situação.

No dia 24 de agosto de 1954, quando o Brasil acordou sob o choque do suicídio de Getúlio Vargas, a Última Hora estampava a manchete “Só morto sairei do Catete”, conforme pedido feito na véspera pelo próprio presidente. Encerrava-se ali um ciclo da história do Brasil e da trajetória de Wainer. O jornal fez forte oposição a Café Filho, vice que assumiu com a morte de Getúlio, e concedeu total apoio ao seu sucessor, Juscelino Kubitscheck. Aí veio Jânio Quadros, o breve, e então a crise envolvendo João Goulart, herdeiro político de Getúlio e, portante, apoiado com ênfase pela Última Hora. Com o golpe militar, Wainer teve seus direitos políticos suspensos e se exilou na França. Retornou em 1967, reassumiu a direção da empresa, mas acabou por vendê-la em 1972. Depois disso, trabalhou em vários veículos.

Quando morreu, agora sem dúvida em São Paulo, em 2 de setembro de 1980, era colunista e membro do conselho editorial da Folha de S.Paulo. Deixou três filhos do casamento (ele se casou três vezes) com a modelo e jornalista Danusa Leão. Deixou, sobretudo, um importante legado à imprensa brasileira. A Última Hora inovou em todos os aspectos, tanto no conteúdo diferenciado, quando na diagramação moderna, passando pela rodagem de várias edições em um único dia, para estar sempre atualizada, e pelos salários pagos por Wainer, acima da média do mercado. “Vivi uma experiência humana completa ao cumprir uma trajetória que me permitiu conhecer a ascensão, a glória e a queda”, afirmou certa vez.

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