Urna fúnebre

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O que mais leio em redes sociais ou escuto em papo displicente de mesas de café é gente se queixando de gente.  Estamos ficando muito chatos. Falamos em empatia e não aceitamos o outro. Eu mesma não aceito. Acabo de me declarar contra um sem ter dito a quem sou favorável. Porque daí já vem bomba para o meu lado.

E o problema é sempre o outro. As vezes prefiro a preguiça de pensar que ruim é o lado de fora.

Essa nossa desconexão com a responsabilidade tem sido construída desde casa. Lá naquela época em que diziam que o menino sofre influência do grupo: “o problema são os amigos que ele arranjou”. Ué a gente não se conecta com quem faz sentido?

A gente vota em quem se identifica.
Veste o que tem a nossa cara
Come o que nos dá prazer
Namora quem ama
Será??

A questão mais complicada me parece saber o que estamos fazendo com aquilo que sentimos e não assumimos. E aqui é muito além de poder dizer o que se é. Assumir é um gesto corajoso de vestir a própria pele. E a há uma massa vestida de qualquer coisa menos de si próprio. Como que fugindo, de novo, da responsabilidade de ocupar uma posição e, em seguida, um espaço. Quando uma pessoa não “tá nem aí”, o que muitos confundem com alguém leve ou até empático, para mim mais parece alguém que não está em lugar nenhum. Alguém que não tem posição acaba por não ter espaço. Mais além, não acolhe o que sente… não se acolhe.  Porque é muito difícil assumir os próprios desejos. É realmente revelador. Então muitos trafegam na orla do lugar comum: falam o que acham pode ser dito, emparelham-se com quem idealizam (independentemente de quem seja!), sobrevivem de clichês.

Mas e daí o que o outro tem a ver com isso? E a comunicação?

Ah quando a gente não se ocupa da gente, o outro parece ser o nosso maior problema ou a nossa rendição. Agradar o outro é melhor do que assumir a si próprio. Brigar com o outro é mais glorioso do que travar as batalhas internas.  E vamos formando uma legião de abnegados que tem topete de brigar entre si. É assim que vejo esta batalha eleitoral de um sem numero de pessoas que se diz apolítica e briga nas redes. É assim que percebo a comunicação ultimamente: palavras para qualquer um. Mensagens para ninguém. O significado vai se perdendo quando transitamos no clichê. Que tenta ser para qualquer um e torna-se de ninguém.

Tem que ter coragem para se posicionar mesmo do lado que não gostamos, não queremos ver no outro ou revelar na gente.  Ainda assim, sigo contra. Sou uma mala assumida!