Todo jornalismo não deveria ser investigativo?

COMPARTILHAR

A essência do jornalismo é a investigação. Qualquer fato que possa ser noticiado precisa, primeiro, ser apurado, investigado. Não se chega ao lead sem fazer perguntas fundamentais, mas elas podem conduzir o repórter a um processo mais complexo de construção da notícia, em que será necessário aprofundar as análises e buscar provas para chegar a respostas que estão sendo acobertadas. É aí que começa a distinção entre o jornalismo cotidiano e o jornalismo investigativo.

O termo jornalismo investigativo, entretanto, é rechaçado por aqueles que entendem que todo jornalismo é investigativo. Essa ideia foi propagada, por exemplo, pelo jornalista e escritor Gabriel García Márquez. Em um discurso histórico na Sociedad Interamericana de Prensa (SIP), em 1996, Gabo fez uma análise da profissão – que chamava de a melhor do mundo – traçando os eixos que devem nortear a formação dos jornalistas. Entre eles, estava a investigação.

“Toda a formação deve se sustentar em três vigas mestras: a prioridade das aptidões e das vocações, a certeza de que a investigação não é uma especialidade dentro da profissão, mas que todo jornalismo deve ser investigativo por definição, e a consciência de que a ética não é uma condição ocasional, e sim que deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro.”

O jornalista, nessa visão, deveria ser preparado para vislumbrar a investigação, sempre, como uma possibilidade. Mas produzir jornalismo investigativo não é uma decisão que compete apenas ao profissional. As condições oferecidas pelas empresas e a rotina das redações, muitas vezes, impedem que fatos possam ser investigados a fundo, com o rigor esperado das reportagens investigativas.

“Todo jornalismo seria, em tese, investigativo, porque é preciso descobrir as coisas para levar a público”, comenta Mauri König, um dos jornalistas mais premiados do País. “Só que, se falarmos que todo jornalismo é investigativo, vamos colocar um acidente que aconteceu aqui na esquina no mesmo nível do caso Watergate”, pondera.

A diferença na apuração dos dois fatos é gritante. “Sobre o acidente que aconteceu ali na esquina, você vai ali, entrevista uma testemunha, ouve o guarda de trânsito e constrói a matéria, o acidente está ali, está visível, não tem como acobertar. Agora, no caso do Watergate, o Partido Republicano estava tentando esconder os vestígios das escutas ilegais feitas na sede do Partido Democrata, tanto é que Bob Woodward e Carl Bernstein (repórteres do The Washington Post) levaram dois anos nessa investigação.” O escândalo levou à renúncia do presidente Richard Nixon, em 1974.

O que é e o que não é jornalismo investigativo
Não existe uma definição que descreva precisamente o que é jornalismo investigativo. Muitas vezes, o que ajuda a esclarecer é a própria experiência de quem atua na área. Para König, um pressuposto básico para configurar uma investigação é que haja a tentativa de ocultação da informação.

Renan Antunes de Oliveira – jornalista que já atuou nos principais jornais do país, como Estadão, Folha de S.Paulo, Gazeta do Povo, Veja e RBS – defende que “todo jornalismo é investigativo”. Oliveira venceu o Prêmio Esso de Jornalismo, na categoria nacional, em 2004, com a reportagem A Tragédia de Felipe Klein, publicada no Jornal Já. Foi a primeira vez que um jornal do Rio Grande do Sul ganhou na categoria nacional. No mesmo ano, foi considerado o Jornalista do Ano, no Prêmio Press.

Renan Antunes, jornalista freelancer

“Convencionou-se que esse jornalismo mais elaborado é investigativo”, critica, lembrando que mesmo as pautas mais simples podem render investigações. O papel do repórter é estar no local do fato e perguntar. “Tu vai lá e pergunta, investiga”, frisa Oliveira, que hoje atua, entre outros, para a Agência Pública, The Intercept e Diário do Centro do Mundo (DCM).

Humberto Trezzi, jornalista que integra o GDI, da RBS, também não é adepto do termo jornalismo investigativo, mas ressalta que, hoje, ele está consagrado e é usado para descrever o trabalho que gera denúncias. “Como nem todo jornalista faz denúncia, então, consagraram o jornalismo de fazer denúncia como jornalismo investigativo, mas, às vezes, ele nem é (investigativo), pois se baseia em dossiês.”

Humberto Trezzi, jornalista do GDI RBS
Crédito: Jefferson Botega

Por isso, tão importante quanto saber o que é jornalismo investigativo é entender o que ele não é. Uma confusão, nesse sentido, é a produção de matérias sobre investigações. Buscar e reproduzir conteúdos que estão em autos, inquéritos e denúncias oficiais de órgãos como o Ministério Público. “É aquela matéria mais trabalhada, mais aprofundada, que trata de coisas que não estão em relatórios, por exemplo”, conceitua Carlos Wagner.

Com uma carreira no jornalismo investigativo por mais de 30 anos no jornal Zero Hora, Wagner foi vencedor de 38 prêmios, sendo sete Prêmio Esso Regionais, e é autor de nove livros-reportagem. Para o repórter, fazer jornalismo investigativo é descobrir algo que ainda “não está no papel”.

Carlos Wagner, jornalista (ex-Zero Hora)

Francisco Amorim, professor universitário e pesquisador do Grupo de Pesquisa Jornalismo Digital da UFRGS, lembra a importância de distinguir a reportagem em profundidade da prática jornalística diária, especialmente no atual contexto da informação online. “Ainda estamos presos a uma lógica de que tudo precisa ser feito muito rápido, e isso prejudica a investigação e prejudica a apuração.”

Francisco Amorim, Professor e Pesquisador UFRGS
Arquivo pessoal

Como resultado, as matérias acabam ficando muito sujeitas ao discurso oficial, distanciando-se do que se espera de uma investigação. “É uma questão de perceber que essa noção antiga, de dar antes, de dar primeiro, no fluxo contínuo de publicação nas redes sociais e sites, acaba levando o jornalismo se encurralar e só depender da primeira verificação.”

A caneta como arma
O jornalismo investigativo é oneroso, mas não só pelo lado financeiro. Para os repórteres, o preço chega a ser imensurável. A pressão, as agressões e as ameaças não são incomuns em investigações jornalísticas. E o inimigo, dependendo da situação, é invisível ou difícil de identificar. É o caso de reportagens que denunciam o crime organizado, quando uma classe inteira se sente atingida.

Mauri König avalia que, nesse caso, o jornalista está mais vulnerável quando faz denúncias contra corrupção policial do que política. “Uma banda pobre de uma corporação policial é uma minoria, que seja 5%. Você vai conseguir citar os nomes de uma pequena quantidade do grupo, mas os outros também vão se sentir incomodados. Dessa banda pobre, qualquer um deles pode fazer alguma coisa contra você.”

Essa situação, König enfrentou, de forma muito grave, em três ocasiões. Em 2000, durante as investigações sobre O recrutamento de crianças brasileiras para o serviço militar do Paraguai, o jornalista foi espancado e ameaçado por policiais paraguaios. “Me espancaram quase até à morte.” A reportagem investigativa (“Meninos às armas”) foi publicada e venceu prêmios nacionais e internacionais de jornalismo.

Mauri Konig, jornalista e escritor

Pouco tempo depois, em 2003, König foi obrigado a deixar Foz do Iguaçu, onde vivia, por conta de ameaças feitas por policiais. Nessa época, o repórter era correspondente de A Gazeta do Povo. Por conta das ameaças, o jornal promoveu sua transferência temporária para a sucursal de Curitiba.

“Mas quando eu voltei, no mesmo dia, o meu editor, em Foz do Iguaçu, me falou que eu precisava sair porque um delegado o procurou e disse que os policiais queriam me pegar para fazer o serviço completo. Me mudei em definitivo para Curitiba.” König era casado e tinha dois filhos. Acabou se separando e ficando distante do convívio com as crianças.

Há seis anos, em dezembro de 2012, já instalado em Curitiba, casado e com um filho de dois anos, König enfrentou novas ameaças, por conta de reportagens que denunciavam o uso indevido de viaturas oficiais para fins pessoais na polícia paranaense.

Na segunda-feira, 17 de dezembro de 2012, ele chegou à redação de A Gazeta do Povo, às 14h. Imediatamente, foi informado que haviam sido feitas três ligações para o jornal (uma delas para a vice-presidência do Grupo Paranaense de Comunicação, detentor da publicação), com ameaças contra o jornalista.

A informação era de que cinco policiais do Rio de Janeiro haviam sido contratados e já estavam na cidade, a caminho de sua casa para metralhá-la. “Passei desde a segunda-feira até sexta-feira, todos os dias mudando de hotel, com guarda-costas, levando minha mulher e meu filho, que tinha dois anos.” Na sexta-feira, ela saiu da cidade para nunca mais voltar e no sábado, ele se exilou do país, no Peru.

A trajetória profissional de König, que já soma quase 30 anos, vai virar filme. Produzido pela Ecocinema e Transparência Internacional, o documentário The Thinnest Border estreia em junho de 2019 e será o primeiro da série My Pen is My Gun.

Resgate da investigação contra a crise no jornalismo
Em dezembro, o Grupo de Investigação da RBS (GDI) completou dois anos de uma atuação que Humberto Trezzi, um dos 10 jornalistas que integram o time, considera única. “O único grupo de jornalismo investigativo em redação é o nosso. Existem vários jornalistas investigativos em grandes jornais e até em jornais de porte médio, mas um grupo dedicado exclusivamente a isso só na RBS.” Desde 2016, o GDI produziu mais de 60 reportagens investigativas para a RBS.

A criação do grupo foi uma decisão da diretora de jornalismo Marta Gleich e a inspiração veio do filme Spotlight, de 2015. A obra conta a história da equipe de investigação formada no jornal The Boston Globe no início dos anos 2000, que relatou casos de abuso sexual e pedofilia por membros da Igreja Católica de Boston. Esta investigação recebeu o Prémio Pulitzer de Serviço Público em 2003.

Filme Spotlight, que conta a história da equipe de investigação do jornal The Boston Globe, serviu de inspiração para a criação do Grupo de Investigação da RBS – GDI

Trezzi lembra que a ZH tem uma tradição de investigação que vem desde os anos 1960. “Temos vários prêmios importantes. Uma das reportagens premiadas é ‘Meninas Prostitutas’, do Carlos Wagner e Nilson Mariano, que nunca fizeram parte de nenhum grupo de investigação. Essa matéria ganhou o Prêmio Esso regional e colocou muita gente na cadeia.”

Ele detalha que o objetivo do GDI é sistematizar a produção de investigações jornalísticas. “A característica do jornalismo aqui no Brasil é cotidiana. Você trabalha no dia a dia e, eventualmente, tem uma pauta aprovada para investigação. A proposta do grupo é o oposto. O pessoal, prioritariamente, se dedica à investigação e, de vez em quando, faz algo do dia a dia.”

Para ele, a decisão de investir nesse tipo de cobertura é difícil, porque a produção é cara e demorada. Mas a intenção, afirma, “é louvável”. “Descobriram que o GDI traz retorno para a empresa, então, ao mesmo tempo em que tem custo, para manter os repórteres afastados do dia a dia e fazer viagens, tem o retorno do público, que anseia pelas reportagens do grupo. Eles mandam e-mail perguntando quando terá a próxima reportagem, dão muito retorno, gostaram bastante.”

No entanto, para o veterano Carlos Wagner, a falta de mais equipes de jornalismo investigativo nos veículos brasileiros é resultado de um processo de precarização do trabalho de reportagem. “Com o passar dos anos, as redações foram destroçadas. Um repórter, hoje, precisa fazer cinco ou seis coisas, tem uma carga de trabalho enorme, mas ganha menos do que antigamente. Ele simplesmente não tem tempo para se informar”, reclama.

Segundo Wagner, essas dificuldades do trabalho estão criando uma escola de jornalismo de base pudica. “Hoje se noticia relatório de delegado, sentença de primeira instância, como se fossem verdades absolutas. Não se incentiva ir atrás de nada. A crise da profissão não é culpa das redes sociais, é por causa dos conteúdos. E isso foi erro das próprias empresas.”

Novos formatos na produção da reportagem investigativa
Os caminhos para a produção da reportagem investigativa nem sempre passam pelas grandes redações. Grupos mantidos com financiamento público, como a Agência Pública, criada em 2011, provam que é possível fazer jornalismo investigativo independente.

Marina Dias, coordenadora de Comunicação da Agência Pública, explica que o grupo se mantém a partir de duas formas de financiamento: via fundações, que doam recursos, e via financiamento coletivo, bancado pelo público (crowdfunding). A maior parte dos valores vem de fundações, como a Fundação Ford e a Olk, que fazem contribuições recorrentes, mas não interferem na produção das reportagens.

Desde que foi criada, a Pública já lançou três campanhas de crowdfunding. Somadas, elas arrecadaram R$ 213 mil, usados para financiar 34 reportagens investigativas. “Nas três campanhas permitimos que o público escolhesse a pauta que iríamos fazer. Era uma forma de se relacionar com nossos leitores e de fazê-los participar.” Com menos de 10 anos de história, a Pública já é o terceiro veículo de comunicação mais premiado do país. No total, são mais de 30 prêmios nacionais e internacionais.

Quando os filtros falham
Em dezembro de 2018, a revista alemã Der Spiegel informou que iniciou uma investigação interna para apurar a conduta de um de seus jornalistas mais prestigiados: Claas Relotius. Reconhecido pela produção de reportagens investigativas, Relotius recebeu diversos prêmios, entre eles o de Jornalista do Ano, concedido pela CNN.

A Revista Alemã Der Spiegel  investigou a conduta de um de seus jornalistas mais premiados, Claas Relotius, que teria inventado várias reportagens – crédito Paul Sableman

No ano passado, um outro jornalista que trabalha como freelancer para a revista, Juan Moreno, descobriu que uma de suas matérias, sobre milícias no Arizona, havia sido inventada. O caso se tornou um escândalo, já que ainda não é possível identificar dentre as matérias produzidas por Relotius, desde 2011, quais seriam verdadeiras ou não. Segundo a Associated Press, a revista alertou que identificou evidências de que o jornalista cometeu “fraude jornalística” por vários anos.

Essa não é a primeira ocorrência de fraude jornalística. Outros dois casos emblemáticos foram os dos jornalistas Jayson Blair, do New York Times, e Janet Cook, do The Washington Post. Em 2003, a descoberta de que Blair havia plagiado uma matéria, sobre a morte de um soldado americano, levou a uma investigação que constatou fraudes em mais de 70 reportagens publicadas por ele entre 2002 e 2003.

No caso de Janet Cook, a reportagem inventada por ela e publicada no The Washington Post, contando a história de uma criança viciada em heroína. A matéria chegou a vencer o prêmio Pulitzer, que foi devolvido.

Essas fraudes mostram que os filtros, fundamentais ao jornalismo, estão falhando. “O jornalismo não pode partir de pressuposições, do à priori”, alerta Francisco Amorim. “Jornalismo é apreensão, documentação e divulgação da realidade.”

Na investigação jornalística e no jornalismo guiado por dados, os controles precisam ser ainda mais rígidos. “É um ponto central: não basta encontrar, coletar, tratar e analisar os dados. É preciso ter um tratamento de proteção, armazenamento e de possibilidade de verificação dessas informações”, orienta Amorim.

Essa atenção tem um aspecto de proteção do próprio jornalista. Havendo esse cuidado de documentação e registro, o profissional, caso sofra algum processo judicial, consegue demonstrar à Justiça qual foi o caminho e como chegou à matéria. Para Amorim, os veículos não podem abrir mão desse controle. “As empresas com estruturas cada vez mais enxutas, muitas vezes, abandonam, as estruturas de checagem interna”, critica.

Outro ponto que é fundamental, acrescenta Amorim, é elaborar o plano de contingência para reportagens investigativas, algo que ainda é pouco comum no Brasil – um dos países em que mais se matam jornalistas em trabalho. O objetivo do plano de contingência é fazer uma análise de todos os riscos e estabelecer ações a serem tomadas em caso de emergência.