Segmento de aves e suínos enfrentou perda de renda em 2018

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Os produtores de suínos e de aves tiveram um 2018 de grandes dificuldades. Os embargos da Rússia para a carne suína, em dezembro de 2017, e da União Europeia para o frango, a partir de maio deste ano, causou retenção de produtos no mercado interno brasileiro, pressionando para baixo os preços. Isso em um período em que os custos de produção ficaram mais elevados.

De acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), os preços do milho e o farelo de soja – que representam até 70% dos custos produtivos do setor – foram os principais fatores de influência para a redução da rentabilidade. Comparativamente com os dados de 2017, o preço do milho chegou a ficar até 50% maior, e o do farelo de soja, até 40%.

Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA-Esalq/USP) mostram que o valor do milho em 2018 esteve sempre mais alto que 2017, enquanto o preço do suíno esteve mais baixo em relação ao ano passado. Ou seja, 2018 foi um ano de maior custo de produção e menor preço de venda em relação ao ano anterior, o que determinou margens financeiras pequenas, e até negativas, durante vários meses.

Esse cenário afetou fortemente a rentabilidade de quem atua no setor. Segundo os dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o Valor Bruto da Produção (VBP) do setor de suínos em 2018 é estimado em R$ 14,04 bilhões, queda brusca de 19,9% ante os R$ 17,53 bilhões de 2017. No frango, a queda foi de 2,5%, passando de R$ 54,30 bilhões para R$ 52,94 bilhões na mesma comparação.

Outro fator relevante do ano foram os 10 dias de paralisação nas estradas brasileiras, com a greve dos caminhoneiros. Milhões de aves morreram durante o período. Os impactos, segundo a ABPA, superaram os R$ 3,1 bilhões – sendo R$ 1,5 bilhão irrecuperável. Além disso, a greve trouxe à pauta o tabelamento do frete. Por questões sanitárias, os setores de aves, ovos e suínos dependem dos denominados transportes dedicados, que são fidelizados e cumprem distâncias curtas. Com a nova tabela, em geral o custo logístico dos setores apresenta uma elevação média de 35% – chegando próximo de 80% em algumas modalidades, como o transporte de ração.

A suinocultura foi especialmente atingida porque, ao cenário de crise econômica persistente, somou-se o embargo da Rússia para a carne brasileira, o que causou a perda temporária de um mercado que representava quase 40% das exportações. Dessa forma, a elevada oferta de carne represada no mercado interno pressionou os preços para baixo. “Esta crise só não foi mais grave porque ao longo do ano, especialmente no segundo semestre, China e Hong Kong aumentaram significativamente a importação de nossa carne suína”, analisa Lopes.

“Esse foi um ano que o criador fechou no negativo”, lamenta Valdecir Folador, presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs). “Houve menos dinheiro entrando na cadeia produtiva pela comercialização externa, e tivemos custos de produção mais elevados. Com isso, foi tirada praticamente toda a renda do produto.”

Valdecir Folador, presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs)

“Tivemos um ano mais difícil até do que 2017 já tinha sido”, afirma Rogério Kerber, diretor executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Suínos do Estado (Sips). “Continuamos com um cenário de desemprego alto e poder aquisitivo comprometido, ao mesmo tempo em que perdemos importantes mercados externos. Foi um ano muito competitivo nas proteínas animais” destaca.

Rogério Kerber, diretor executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Suínos do Estado (Sips)

O segmento de aves também teve dificuldades com o mercado externo. O segmento sofreu o embargo de 20 plantas (sendo que oito continuaram exportando carne de frango in natura sem sal adicionado) pela União Europeia, e a alteração dos critérios relativos ao abate para a importação de carne de aves pela Arábia Saudita. Neste último caso, conforme o diretor-executivo da ABPA, Ricardo Santin, as mudanças com a readequação de mercado resultaram em uma retração superior a 100 mil toneladas nas exportações brasileiras – um dos mercados que mais reduziram as importações em 2018.

Ricardo Santin, diretor-executivo da ABPA

Para se adequar a esse cenário, as indústrias brasileiras do setor tiveram de reduzir sua produção. Segundo levantamento feito pela ABPA, a produção de carne suína deve apresentar retração de 3,2%, alcançando 3,63 milhões de toneladas. Em 2017, foram produzidas 3,75 milhões de toneladas. Os embarques do segmento deverão totalizar 640 mil toneladas, volume 8% inferior às 697 mil toneladas exportadas em 2017. Frente a uma oferta interna de 3,07 milhões de unidades, o consumo per capita de carne suína deverá ser de 14,35 quilos neste ano, 2,6% menor que o consumo registrado em 2017.

Nas aves, a situação é um pouco melhor, pois com uma oferta interna de 8,73 milhões de toneladas, o consumo per capita de carne de frango deve fechar 2018 com alta de 0,63%, chegando a 41,8 quilos em 2018. Mesmo assim, a produção deve totalizar 12,82 milhões de toneladas, volume 1,7% inferior às 13,05 milhões de toneladas produzidas no ano passado. As exportações do segmento encerram o ano com total de 4,1 milhões de toneladas, volume 5,1% menor em relação às 4,32 milhões de toneladas exportadas em 2017.

Mercado externo já aponta para melhorias
No entanto, se 2018 foi um ano de grandes obstáculos para as proteínas animais, alguns fatores já apontam para boas notícias em 2019, especialmente no mercado externo. De acordo com o presidente da ABPA, Francisco Turra, entre os fatos positivos ocorridos ao longo de 2018, estão a habilitação de 26 novas plantas para exportações de carne de frango para o México, a viabilização do mercado cambojano para o setor avícola brasileiro e a abertura dos mercados da Coreia do Sul e da Índia para a carne suína. Além disso, a Rússia, após 11 meses de negociação, também reabriu seu mercado para o setor de suínos.

Outro ponto relevante de 2018, segundo Turra, é a crise sanitária corrente na China, onde focos de peste suína africana estão forçando ao abate de grandes plantéis. “A mortandade histórica de animais no maior produtor de carne suína do mundo deverá incrementar a demanda. As informações do mercado indicam uma lacuna de cerca de 4 milhões de toneladas (conforme informações levantadas pela Consultoria Asia Agro Aliance), como impacto direto aos focos de peste suína africana”, expno ur

Entretanto, o Brasil tem limitações para aproveitar essa oportunidade de vender para o mercado chinês. Rogério Kerber, presidente do Sips, lembra que, no País, apenas o estado de Santa Catarina é classificado como área livre de aftosa sem vacinação, um status sanitário essencial para aumentar as vendas. “O único outro estado que tem plantas habilitadas para a China é o Rio Grande do Sul, e são apenas duas. Mas, por sermos área livre de aftosa com vacinação, não podemos vender carne com osso. Então, algum incremento poderemos ter em vendas, mas não iremos ocupar uma grande fatia dessa demanda”, afirma.

Ainda sobre China, segundo o diretor-executivo da ABPA, Ricardo Santin, está em fase final a negociação entre chineses e brasileiros para a construção de acordo de Price Undertaking (PU) para as exportações brasileiras de carne de frango, o que deverá suspender as sobretaxas provisórias de direito antidumping aplicados pela China. “As propostas de PU foram entregues pelas empresas ao Ministério do Comércio chinês nesta semana. Fator importante: mesmo com a aplicação de tarifas, as exportações de carne de frango para a China devem encerrar o ano 10% superiores às realizadas em 2017”, ressalta.

A ABPA também definirá novas estratégias de trabalho para o próximo ano. Neste mês, a associação deu início ao Projeto 500K, um plano estratégico com o objetivo de fortalecer a atuação em mercados estratégicos para o setor, com a meta de alcançar um volume médio de exportação de carnes de aves e de suínos de cerca de 500 mil toneladas mensais.

Expectativa é de retomada em 2019
Além do mercado externo, a perspectiva de retomada do crescimento da economia brasileira e a boa expectativa com relação à safra 2018/19 de grãos, com o plantio da segunda safra dentro da “janela” climática ideal, também dá novo ânimo ao setor de suínos e aves. “O mercado interno tem perspectiva de crescimento de 2,8% do PIB (Produto Interno Bruto), e isso deve trazer uma ocupação de mão de obra maior, o que gera mais consumo. Isso deverá ajudar em uma retomada para o setor de proteína animal”, afirma Rogério Kerber, presidente do Sips.

“Estamos confiantes com a expectativa de retomada do crescimento do PIB do Brasil, que deverá impactar positivamente no mercado interno de carnes, além da reabertura das exportações para a Rússia, ainda que em patamares mais baixos do que estávamos acostumados. Mas precisamos estar atentos a todos os fatores que influenciam diretamente no rendimento da nossa atividade e isso exige de nós uma visão estratégica”, afirma Marcelo Lopes, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos –  ABCS.

Segundo Valdecir Folador, presidente da ACSURS, as previsões para a próxima safra de grãos animam os criadores para retomar a renda da atividade. “Os preços tendem a ser menores em 2019. Vamos ter estoque de passagem maior, e a área plantada é maior. Se não houver algum fator climático afetando as lavouras, a produção vai crescer e os custos com alimentação dos animais devem cair.”

Para Francisco Turra, presidente da ABPA, a perspectiva é de que o setor vai ganhar mais rentabilidade em 2019. “O preço dos insumos no mercado interno impulsionou negócios com produtores de grãos de países vizinhos, como a Argentina e o Paraguai. As previsões de oferta de produtos apontam em 2019 um ano com menor custo de produção em relação ao ano anterior”, analisa o presidente da ABPA, Francisco Turra.

Francisco Turra, presidente da ABPA

Conforme a ABPA, em relação à carne de frango, o alojamento de matrizes em 2018 indica uma oferta moderada de carne de frango em 2019. A expectativa é que o ritmo de produção do próximo ano 1,39% superior, alcançando produção de 13,2 milhões de toneladas. Já as projeções para os suínos apontam para um ritmo de produção no próximo ano 1,39% superior, alcançando produção de 13,2 milhões de toneladas.