Saudáveis e imunes à crise

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Quase 18 mil agricultores no Brasil cultivam alimentos orgânicos – a área total alcança 750 mil hectares, segundo informações do Ministério da Agricultura. Boa parte dessas terras estão ligadas à agricultura familiar, que encontrou na agroecologia um nicho que parece resistir à crise econômica.

São alfaces, cenouras, arroz, uva, cebolas, entre outros alimentos, inteiramente produzidos sem a utilização de agrotóxicos e com boas práticas de manejo nas lavouras. A agroindústria familiar, por sua vez, transforma parte dos produtos em sucos, vinhos e geleias. De um tímido canto nos supermercados do Brasil há cerca de dez anos, hoje os alimentos orgânicos ocupam gôndolas inteiras e são presença imprescindível nas principais redes de supermercados, além das feiras ecológicas.

Mesmo tendo como fator contrário o preço final maior que o alimento cultivado com agrotóxicos, os orgânicos caíram nas graças do consumidor. Pesquisa recente do Conselho Brasileiro de Produção Orgânica e Sustentável (Organis Brasil) demonstrou que cerca de 15% da população urbana no Brasil consumiu algum produto orgânico nos últimos meses.

A maior procura por este tipo de produto (34%) está na Região Sul, que ultrapassa o dobro do consumo nacional. Os produtos orgânicos mais consumidos são verduras, legumes e frutas. Seis em cada dez consumidores comem verduras orgânicas. Os legumes e as frutas são escolhas de uma em cada quatro pessoas.

Pela legislação, considera-se produto orgânico, seja ele in natura ou processado, aquele que é obtido em um sistema orgânico de produção agropecuária ou oriundo de processo extrativista sustentável e não prejudicial ao ecossistema local. Traduzindo: não pode conter agrotóxicos, hormônios, drogas veterinárias, adubos químicos, antibióticos ou transgênicos em qualquer fase da produção, de acordo com parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Agricultura.

E quando o tema é agroquímico na produção agrícola, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária mostra que o brasileiro deve ter cautela. O Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos de Alimentos analisou 2.500 amostras de 18 tipos de alimentos nos estados brasileiros. O resultado é preocupante: 1/3 dos vegetais mais consumidos no Brasil apresentaram resíduos de agrotóxicos acima dos níveis aceitáveis.

Os casos mais impressionantes são do pimentão (91% das amostras com resíduos); morango (63%); pepino (57%); alface (54%); cenoura (49%), e o abacaxi (33% das frutas testadas apresentaram sinais de agrotóxicos). Em último ficou a cebola, com 3% de resíduos. A Anvisa alerta que, mesmos aparentemente baixos, os percentuais indicam uso de agrotóxicos acima do permitido pela legislação. Conforme a Anvisa, o consumo duradouro e em quantidades acima dos limites aceitáveis de agrotóxicos pode causar vários problemas de saúde. Desde alergias e coceiras, até má formação fetal e câncer.

O Rio Grande do Sul se destaca tanto na produção quanto no consumo de orgânicos. Atualmente, cerca de 10 mil hectares são dedicados à agricultura orgânica – boa parte deles em pequenos empreendimentos familiares (cerca de 1,2 mil famílias). A agroecologia, por sinal, tem alcançado resultados favoráveis inclusive em lavouras historicamente ligadas ao uso de defensivos químicos.

“Com auxílio da Emater, conseguimos reduzir em 46% a aplicação de inseticidas e de 18% a de fungicidas nas lavouras de soja que participam do nosso programa. É realizado, ainda, um trabalho de manejo integrado de pragas, monitorando o desenvolvimento das plantas”, destaca Lino Moura, diretor técnico da Emater.

Para fomentar o segmento, o Estado implantou, em 2016, o Rio Grande Agroecológico – Plano Estadual de Agroecologia e de Produção Orgânica (Pleapo/RS). São ações, executadas em um período até 2019, de preservação, fomento e diversidade agrícola, tendo como princípios básicos a produção ecológica.

Desde então, já foram criadas 110 publicações técnicas e de divulgação para fomento da agroecologia; realizados 1,1 mil encontros com agricultores para discutir o tema; participação em quase 100 eventos para trocas de sementes crioulas e mudas; além da revitalização de oito bancos de germoplasma.