Satélite a serviço do monitoramento agrícola

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Um satélite de alta resolução, capaz de gerar imagens do solo com detalhes de até 70 cm, é a nova aposta para monitorar a agricultura do Brasil. O projeto é uma cooperação entre a Embrapa e a Força Aérea Brasileira (FAB).

Denominado Carponis-1, o satélite irá gerar informações que serão usadas pelas Embrapa para estudos da produção de alimentos, fibras e energia no País. De acordo com o tenente Bruno Mattos, da FAB, o satélite brasileiro tem potencial para gerar uma economia de mais de 75% no custo por km² das imagens, em comparação aos valores pagos pelo governo em licitações.

A Embrapa Territorial (SP) utiliza imagens de satélites em seus trabalhos há quase 30 anos. No entanto, a dependência de imagens de alta resolução adquiridas por satélites controlados por outros países impõe limitações, além de custos elevados. Normalmente, trabalha-se com as imagens que estão disponíveis nos catálogos das empresas que as comercializam. Outra possibilidade é encomendar os registros, porém, isso demanda tempo entre a solicitação e a entrega.

A operação de um satélite pelo Brasil possibilitará mais autonomia e rapidez. “Poderemos programar e direcionar o satélite para aquisição de imagens de alvos específicos. Isso evitará a compra de imagens obsoletas e otimizará o tempo de resposta no recebimento dessas imagens”, observa a chefe-adjunta de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Territorial, Lucíola Magalhães.

O diferencial do Carponis-1 está na alta resolução espacial e temporal. A previsão é que os sensores acoplados ao satélite gerem imagens nítidas abaixo de um metro e com intervalo de três a cinco dias. Hoje, o Brasil opera apenas um sistema espacial, em parceria com a China. Mas, a melhor resolução obtida a partir dele é de cinco metros e intervalo de até 26 dias entre os registros.

Com imagens melhores e mais facilmente disponíveis, a Embrapa Territorial espera avançar, por exemplo, no monitoramento das áreas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), sistema produtivo em expansão no País. Os trabalhos com aquicultura também seriam beneficiados com um satélite brasileiro de alta resolução.

Outro ganho importante é a possibilidade de obtenção de imagens livres de nuvens, um dos principais fatores que comprometem a visibilidade em regiões de alta umidade, como na costa brasileira e região amazônica. Na agricultura, fazer imagens com mais frequência torna-se ainda mais importante, já que as principais fases de desenvolvimento das culturas ocorrem justamente no período de chuvas.

Parceria em andamento
O primeiro passo para a parceria entre a Embrapa e a FAB na operação do Carponis-1 ocorreu em agosto de 2018, no Ministério da Agricultura, com a assinatura de um memorando de entendimento entre as instituições.

Evaristo de Miranda, chefe-geral da Embrapa Territorial, informa que as imagens espaciais são essenciais no monitoramento ambiental do Brasil, que tem mais de 1.800 unidades de conservação. Para ele, o acompanhamento da ocupação efetiva de áreas do território nacional, por meio de satélites, é fundamental, mas tem representado gastos elevados, em função da necessidade da compra de imagens.

Evaristo de Miranda, chefe-geral da Embrapa Territorial
Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

O Carponis-1 faz parte do time de satélites do Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE), que integra o Programa Espacial Brasileiro. A iniciativa é gerenciada pela Comissão de Coordenação e Implantação de Sistemas Espaciais (CCISE), da Força Aérea Brasileira, e está alinhada à estratégia nacional de defesa para o setor espacial. O PESE prevê a implantação de uma constelação de satélites, além da infraestrutura de controle e de operação. O Carponis-1, com uso misto para defesa e agricultura, será o primeiro, com previsão para lançamento em 2022. O orçamento não foi divulgado.

Área preservada no Brasil soma 218 milhões de hectares
A partir de dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR), a Embrapa informou recentemente que a preservação ambiental no Brasil é maior do que se pensava: alcança 218 milhões de hectares, cerca de 25% do território nacional.

Em média, é como se cada produtor rural utilizasse apenas metade de suas terras. A outra metade é ocupada com áreas de preservação permanente (às margens de corpos d’água e topos de morros), reserva legal e vegetação excedente. O centro de pesquisa estimou o valor do patrimônio fundiário imobilizado em preservação ambiental e chegou à cifra de R$ 3,1 trilhões.

Chefe-geral da Embrapa Territorial, Evaristo de Miranda relata que essas áreas estão localizadas em todo o território nacional. “As áreas preservadas pelos agricultores compõem um mosaico ambiental relevante e de grande dimensão com as chamadas áreas protegidas,” observa o cientista. Estas são formadas pelas terras indígenas e as unidades de conservação integral como parques nacionais e estações ecológicas.
Destaque: Imagem de satélite – plantação soja/divulgação Embrapa Territorial