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Raúl Rojo

 

Por: Julio Ribeiro e Marco Antonio Schuster
Fotos: Jefferson Bernardes / Preview

Falta de direção é, ao mesmo tempo, a força e a fraqueza dos protestos

 

O sociólogo Raúl Rojo é argentino, formou-se primeiro em Direito, fez doutorado durante dez anos na França, orientado por Alain Touraine, veio ao Rio Grande do Sul há 20, para fazer uma pesquisa sobre a transição para a democracia. Foi convidado para dar aula no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS. Enquanto isso, Touraine aposentou-se. Resultado, Rojo estabeleceu sua base aqui. Atualmente é Professor Permanente dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia e em Relações Internacionais da UFRGS.

 

O senhor tem acompanhado, na academia, a formação das democracias, como os movimentos sociais disputam poder?

Os movimentos sociais são os centros de pesquisa de Touraine e seus discípulos. E eu, como um bom sociólogo da ação, me interesso por isso. Eu trabalho fundamentalmente em duas interfaces: da sociologia com a ciência política, fazendo sociologia política, e da sociologia com direito, fazendo sociologia jurídica.

 

Dá para fazer comparativo entre as movimentações sociais que vêm acontecendo no Brasil desde junho com outras anteriores ou em outros países?

Digamos que seria um olhar superficial, talvez, sem com isso estar desqualificando quem pensa de outra maneira. Mas os indignados espanhóis, a primavera árabe, o movimento do Canadá, que também não é homogêneo, nada tem a ver, nem o movimento tunisiano com o egípcio, nem o egípcio com o que passou no Iêmen, absolutamente nada a ver com o que se passou na Líbia ou com a Síria. Geralmente, quem analisa os movimentos sociais o faz a partir de uma grade de análise que toma em conta três características: identidade, oposição e totalidade. Ou, como dizem os franceses, enjeu, uma palavra difícil de traduzir, seria a perífrase “o que está em jogo”. Touraine identifica esta característica como totalidade. Identidade: quem são eles? Quem dizem representar? Muitas vezes os grupos, as lutas, as articulações coletivas, quem participa delas, não percebe verdadeiramente. Isto é, têm uma ideia aproximada, mas a árvore, por assim dizer, pode ocultar a floresta. Na realidade, a identidade se forja na bigorna da oposição. Eu diria “diga-me a quem te opões e te direi quem és”. E por que se opõem? Para controlar socialmente algo. Para controlar determinados recursos sociais e culturais. E se você aplica essa grade de análise vai chegar à conclusão de que são protestos, eu me nego a chamar movimento, porque justamente é o que nos diz essa análise primeira e provisória. Claro, estamos falando de algo que está se desenvolvendo, então corremos o risco de nos enganar. Não só porque a análise seja enganosa, mas porque a mudança se dá quase que dia a dia, poderia dizer que certos dias de hora em hora. Então, é uma radiografia sempre provisória, mostrando o que está acontecendo neste momento, mas não necessariamente o que pode chegar a ocorrer . E quando tem expressão em muitas cidades ao mesmo tempo, pode não ser a mesma coisa o que ocorre em Porto Alegre, em São Paulo ou no Rio.

 

Mas justamente por isso não é especialíssimo? Estamos vendo aqui seus quadros “A liberdade guiando o povo”, outro da Revolução francesa, em que o senhor diz que não havia fraternidade, só liberdade e igualdade...

Exatamente. Parecem as oficinas populares, que os blanquistas, não os marxistas, promoveram em 1848.

 

Havia grupos devidamente identificados que estavam na gestão desses movimentos. Hoje o que acontece no Brasil é que não há um núcleo que comande.

Os gaúchos e os porto-alegrenses, mais especificamente, tiveram o privilégio das primícias desse protesto. Já haviam ocorrido, quando a Prefeitura atendeu ao pedido das empresas de transporte para aumentar as tarifas. Também houve a destruição do tatu-bola. Eram protestos encampados por grupos de extrema-esquerda fundamentalmente, ou esquerda escassamente parlamentar. Colocando nome aos bois: estavam por trás desses protestos o PSTU e o PSOL. Era uma maneira de encontrar um tema que podia ser federador, aglutinador, e tensionar de alguma maneira o governo municipal e sobretudo estadual, que tendo certa tendência de centro-esquerda falava a grupos sociais que de alguma maneira também disputavam este espaço.

Entrevista na íntegra na Revista Press Advertising.


 
Marco Schuster
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