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NAHUM SIROTSKY

 

Por Julio Ribeiro e Marco Antonio Schuster

Fotos: Ricardo Chaves/Zero Hora (20 de julho de 2008)

Ele em Tel-Aviv, nós em Porto Alegre. Via Skype. Foi assim que um dos grandes jornalistas brasileiros nos atendeu. Nahum Sirotsky é filho de Maurício Sirotsky, tio do primeiro presidente e fundador da RBS, e Rosa Wainer. Nasceu em 19 de dezembro de 1925, no bairro Bom Retiro, em São Paulo. O mesmo onde outro tio, o jornalista  Samuel Wainer, passou a infância. 

Apesar de começar como office-boy na revista Diretrizes, de Samuel Wainer, e hoje ser correspondente em Israel da RBS, conquistou lugar na história da imprensa brasileira em faixa própria. Além da revista Senhor lançada em 1958 e referência nacional mesmo tendo pouca existência, lançou a revista Visão, trabalhou no Globo, no JB. Casado com a atriz polonesa radicada no Brasil Beyla Genauer, é pai de Iossif e vô de cinco netos.  Tem saudades do Rio Grande, mas está Israel porque filho e netos estão lá.

      

Nahum, com quase 70 anos de jornalismo tu ainda sentes o jornalismo nas pontas dos dedos?

Não é nas pontas dos dedos, é no corpo todo (risos). Eu comecei por acaso. Eu trabalhava numa revista do Rio de Janeiro (Diretrizes) como office-boy. Aí o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) fechou a revista. Então eu fui procurar emprego. Tinha feito uma matéria para um semanário literário chamado Dom Casmurro, que se eu visse hoje teria vergonha de mostrar para um garoto do primário. Fui no Globo. O chefe de reportagem me disse que não tinha vaga. Mas em seguida perguntou: “Sabe falar línguas?”. “Falo espanhol, falo inglês, francês.” Todo mundo que tinha ginásio no Brasil falava um pouco de francês e inglês. Aí, ele me mandou fazer uma reportagem num hospital longe do Globo. Eu fui lá, era um médico americano e eu pensei: “Bom, não sei medicina, não sei inglês, nunca entrevistei”. Fui para o diretor do hospital e disse: “Se eu fizer esta conversa com o senhor, que é um médico americano famoso, vai sair besteira”. “Não, não, assim deve ser um jornalista.” Ele pegou e escreveu tudo. Quando entreguei o texto ele perguntou “é seu?”, “é lógico que é”. “Bom, duas coisas nós temos aqui: você sabe inglês e sabe estar informado, mas o texto é meio duro, muito acadêmico. Você volte amanhã de manhã, às 7 horas, e senta naquela mesa.” No dia seguinte estava lá, a redação era uma sala grande. O Roberto Marinho já tinha chegado, chegava às 3 da manhã, O Globo tinha duas edições e ele ficava trabalhando, via as cópias, editava. Depois de estar sentado duas horas, perguntei: “Dr. Pinheiro, cadê a vassoura?”, “Que vassoura?”, “Ué, o senhor não vai me testar?”, “Vou, mas que vassoura?”, “Pra fazer a limpeza”, “Não, nós já testamos você como repórter e não precisa testar mais”. Aí eu comecei no jornalismo.

 

Qual foi a segunda matéria?

Não lembro.

 

Mas não precisou do médico para escrever?

Não. No dia seguinte, ele me disse: “Vou dar a você uma coisa chamada setor. Você vai fazer o setor do Itamaraty e do Ministério da Guerra. Remoções, promoções. Vê o que tem lá, e traz aqui”. Cheguei lá. “Quem é?” “Eu sou do Globo.” “O que você quer.” “Saber se tem alguma novidade.” Ele me deu uma porção de coisas e eu fui anotando. Fiz a mesma coisa no Ministério da Guerra. Voltei para o Globo com notícias do Ministério da Guerra e do Itamaraty. “Como é que você conseguiu isso?” “Cheguei lá e perguntei”, “como é que você perguntou?”, “perguntando, ora”. Aí, me deram o setor. Assim eu comecei. Isso em 1943. Como em 1945 eu era o único que sabia inglês, o Roberto Marinho perguntou se eu queria ir aos Estados Unidos cobrir as Nações Unidas. Claro. Cheguei em Nova York, arranjei um lugar para morar, ficava perto das Nações Unidas. Era a segunda assembleia da ONU. A primeira tinha sido em São Francisco. Depois de dois anos, voltei para o Brasil. Em vez de repórter foca, voltei quase como editor internacional no Globo. Aí fui adiante.

 

E quando cobriste a segunda assembleia da ONU teu inglês era bom ou macarrônico?

Era macarrônico. Quando fui pedir credencial, que não sabia que tinha que ter, uma mulher que me atendeu, era tudo muito modesto, disse que não podia me dar credencial porque havia cinco línguas oficiais da ONU: chinês, francês, inglês, espanhol e russo. Português não estava incluído. Aí, eu descobri que tinha um secretário de imprensa chamado Coelho, que era chileno. Falei com ele: “O que eu faço?”. “Espera aí, vou ver.” Passou um esculacho na guria. “Que negócio é esse de língua?” Aí eu fui credenciado. Se não me engano fui o primeiro jornalista brasileiro credenciado na assembleia das Nações Unidas. Ali conheci Oswaldo Aranha, presidente da II Assembleia Geral das Nações Unidas. Assim começou uma grande amizade que só terminou quando ele morreu.

Entrevista na íntegra na revista Press Advertising


 
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