Roberto Marinho – Um colosso da imprensa brasileira

64
COMPARTILHAR

Há pouco mais de 15 anos, em, 6 de agosto de 2003, a programação da Rede Globo foi interrompida por sua icônica vinheta de plantão para um anúncio: Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo, havia morrido durante uma cirurgia para dissolver um coágulo no pulmão. Ele tinha 98 anos.

Durante sua vida, “Doutor Roberto”, como era conhecido pelos funcionários do grupo, criaria um dos maiores impérios de comunicação do planeta, empreendimento que o faria entrar diversas vezes nas listas dos homens mais ricos do mundo, com uma fortuna estimada em US$ 6,4 bilhões em 2000 (nos valores da época). Ao longo de sua trajetória, se consagraria como um dos nomes mais influentes da comunicação no Brasil. Trabalhou, como ele mesmo relatou em seus artigos, pela modernização da televisão brasileira, mas o seu maior motivo de orgulho era a imprensa escrita.

Nascido em 3 de dezembro de 1904, no Rio de Janeiro, Roberto Marinho era filho mais velho do jornalista Irineu Marinho Coelho de Barros. Tinha 6 anos quando seu pai fundou o jornal vespertino A Noite, que em pouco tempo se tornou uma das publicações mais vendidas na então capital federal.

O jornal O Globo não tinha mais do que 23 dias quando seu fundador, Irineu Marinho, morreu vítima de um enfarte. Lançado em 29 de julho de 1925, o periódico passaria para o comando de seu filho mais velho. Roberto Marinho tinha apenas 20 anos quando assumiu o compromisso de comandar o recém-criado jornal de seu pai. Escolheu construir uma trajetória pautada pela experiência, deixando a direção do veículo nas mãos de Euricles de Matos, que havia auxiliado seu pai na fundação do periódico.

Nos seis anos seguintes, Roberto Marinho exerceu as funções de copy-desk, redator-chefe e secretário. Só ocuparia o cargo de diretor de O Globo em 1931, com a morte de Euricles de Matos. “Fui um disciplinado e obstinado aprendiz da profissão de jornalista”, revelou em artigo publicado no jornal em 1989.

Desde muito jovem, Roberto Marinho percebeu a importância e o peso de suas palavras. Nos momentos mais decisivos do país, expôs sua opinião de forma bastante clara, assumindo lado. Apesar disso, refutava a ideia de que exercesse poder político, como expôs no artigo intitulado “Carta a Lula”, publicado na edição de 19 de dezembro de 1989 de O Globo.

Dias antes, Lula e Collor havia protagonizado o último debate daquela eleição, transmitido pela Rede Globo. Marinho produziu o texto em tom de resposta, motivado pelas menções do petista que atribuía-lhe “decisivo poder político sobre os destinos nacionais”.

“Não é verdade que eu exerça poder político hegemônico, e menos ainda que o faça em caráter pessoal”, rechaçou. “A orientação que imprimo aos veículos que me cabe dirigir visa estritamente à defesa do que julgo serem os reais interesses do país e dos caminhos a serem trilhados para que se possa alcançar o bem-estar do povo.”

No artigo, Marinho resgataria o início de sua trajetória no vespertino O Globo, logo após a morte de seu pai. Revelou que mesmo antes de assumir a direção do jornal, se sentiu “no dever de, em mais de uma ocasião, divergir de Euricles (então diretor)”. Uma das ocasiões lembradas foi durante a eleição de 1930, que marcava a sucessão de Washington Luís. Euricles de Matos defendia a neutralidade do jornal em relação aos candidatos do pleito — Getúlio Vargas e Júlio Prestes — dizendo que eram ambos ‘farinha do mesmo saco, vinho da mesma pipa’. “E eu reagia perguntando: — Mas o que o senhor deseja, então? Que importemos um presidente do estrangeiro?”

Embora Roberto Marinho dedicasse grande ênfase à sua atuação no jornal impresso, é inquestionável que o seu grande legado foi a consolidação do maior grupo de comunicação do país. Foram os veículos eletrônicos que deram projeção e poder à Globo nenhuma outra empresa do ramo alcançou no Brasil.

A história do poder hegemônico do grupo concentra-se, principalmente, na criação da TV Globo. Fundada em 26 de abril 1965, no Rio de Janeiro, a emissora deu início ao período de maior expansão do grupo. No mês seguinte, Roberto Marinho comprou a TV Paulista, que viria a ser a TV Globo de São Paulo.

Em setembro do mesmo ano, o grupo das emissoras Globo de rádio incorporaram as rádios paulistas Nacional e Excelsior. Em janeiro do ano seguinte, ocorreu a compra da Rádio Mundial, do Rio de Janeiro. Em fevereiro de 1968, foi inaugurada a TV Globo, de Belo Horizonte, também adquirida por Roberto Marinho.

O grupo continuou o processo de expansão, criando em 1969 a Som Livre. Em 1971, foi inaugurada a TV Globo de Brasília. Todos esses fatos, ocorridos entre 1965 e 1971, têm algo em comum: aconteceram no período em que o grupo Globo manteve acordos com o grupo norte-americano Time-Life. A parceria é até hoje alvo de crítica e, no passado, chegou a ser amplamente questionada, a ponto de fazer com que Roberto Marinho se justificasse em artigo e em entrevistas.

Na época, a legislação brasileira impedia a participação de empresas estrangeiras em emissoras de TV brasileiras. As críticas geraram manifestação do consultor-geral da República, Adroaldo Mesquita da Costa, em 1967. No entendimento dele, não havia uma sociedade entre as organizações. Assim, a parceria foi considerada legal, tendo sido mantida até 1971.

Apesar disso, a TV Globo nunca se livrou das críticas, que relacionavam a empresa à ditadura militar. Roberto Marinho, que chegou a conceder entrevista à Folha de S.Paulo, em 24 de setembro de 1988, dias depois após ter sido acusada de apoiar “governos militares em troca da obtenção de concessões de canais de televisão” feita pelo ombudsman do The Washington Post, Richard Harwood.

O texto do ombudsman citava que “a Rede Globo de Televisão, quarta maior rede de TV do mundo, foi criada através da concessão, pelo Ministério das Comunicações, de 38 emissoras ao império editorial e de telecomunicações de Roberto Marinho”. Na entrevista à Folha, Marinho admitiu que, “por circunstâncias várias, O Globo apoiou a ação construtiva desses governos militares e fez questão de não obter favores dos mesmos, inclusive a concessão de canais, o que não seria favor”.

Justificou que a Globo recebeu apenas duas concessões: uma em 1957, dada pelo presidente Juscelino Kubitschek, para a criação canal do Rio de Janeiro e outra em 1962, permitida pelo presidente João Goulart. Os demais canais foram comprados pelo grupo nos anos seguintes junto a empresários que já tinham concessões e enfrentavam dificuldades.

Fato é que durante os governo militares a Rede Globo vivenciou sua maior fase de expansão. Marinho creditou o fenômeno ao sucesso de aceitação entre o público e aos investimentos na programação. “Desde que a TV foi implantada, nós começamos a estudar o assunto com muita atenção e conseguimos expandir-nos através de uma programação atraente e útil.”

Os recursos obtidos junto à Time-Life também ajudam a entender a expansão da rede. Sobre isso, Marinho publicou no O Globo, em 1971. O empresário argumentou que, quando recebeu as concessões, reconheceu que “o país, em que pese o esforço pioneiro de alguns, ainda não dispunha de grande experiência em televisão, e por isso a instalação de uma estação com os requisitos modernos exigira a busca de uma tecnologia mais atualizada”.

Como “o investimento para uma instalação completa e moderna era vultoso e não existia no Brasil a possibilidade de obtenção dos financiamentos a longo prazo”, o grupo buscou recursos externo junto a Time-Life, “que concordou em prestar uma colaboração financeira ao empreendimento, recebendo em contrapartida uma participação nos futuros lucros da empresa”. A partir daí o império da TV Globo começou a se expandir.

Jornal, rádio e televisão eram complementares, defendia Marinho. Os investimentos do empresário no ramo foi inspirado no complexo de comunicações consolidado por Assis Chateubriand no grupo Diários Associados, admitiu em 1976.

Nas palavras de Marinho, há ensinamentos sobre o exercício da profissão que não devem ser esquecidos. “Somos homens públicos, nós os jornalistas, queiramos ou não. Nosso primeiro dever profissional é noticiar. E, além de noticiar, denunciar as violações do bem comum.” Os jornalistas, explicava, para cumprir essa obrigação depende da “coragem despida de emocionalismo, do trato do imediato condicionado pela capacidade de sondar o futuro mais distante possível, e sobretudo da impessoalidade que nos poupe da tentação de confundir interesses restritos com o verdadeiro interesse coletivo”.

Roberto Marinho – Reprodução Folha de S. Paulo