Rosto colado no consórcio

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Em maio de 1955, eu tinha seis anos de idade e estava aprendendo a ler no Instituto de Educação Oswaldo Aranha, em Alegrete. A alfabetizadora era a dona Odete Zuñeda. Enquanto eu lia “ovo” e “uva”, aprendi de ouvido uma palavra estranha: consórcio. No almoço de domingo, meu avô contou que havia comprado cotas de um “consórcio” para a construção do primeiro “arranha céu” da cidade, de quatro andares. (O maior prédio era o Edifício Estivalet de dois andares.) Ele era o prefeito, na primeira vitória do PTB, e como tabelião do 1º Cartório tinha dinheiro suficiente para investir recursos próprios no desenvolvimento local.

Lembrei-me dessa história quando a velha imprensa brasileira formou um Consórcio, espécie de parceria, para apurar o número de mortos por Covid diretamente nos estados, por não confiar nos dados do Ministério da Saúde. O presidente Jair Bolsonaro fazia distinção entre morrer com o vírus e do vírus, e mostrou-se desde o início contra o “fique em casa” indiscriminado, o “importante é a vida, economia se vê depois”, pregado pela “ciência”. Defendia isolamento apenas dos vulneráveis e áreas de risco, mas que a economia deveria continuar funcionando porque a inflação, crise financeira e desemprego viriam com certeza.

Meu avô estava empolgado com a maquete do edifício a ser com construído na Rua Vasco Alves, perto da Igreja Matriz. No térreo haveria um saguão com lojas e um cinema ao fundo, aproveitando o desnível do terreno em relação à rua. O segundo, terceiro e quarto andares seriam de apartamentos, com elevador, novidade em Alegrete.

Atendida a demanda inicial, com o apoteótico registro dos cem mil mortos, o Consórcio da Imprensa decidiu ampliar sua parceria. De cada declaração do presidente era extraída uma palavra ou frase para ridicularizar ou transformar em ato infame, com repercussão em todos os veículos de comunicação do grupo.

A ideia de consórcio em Alegrete não deu certo. Por falta de recursos ou desvios, a obra parou no esqueleto. Meu avô perdeu o dinheiro. As salas comerciais do térreo ficaram rudimentares. O cinema nunca saiu do papel. Os compradores dos apartamentos conseguiram terminar o edifício de forma precária. Utilizavam as escadas por faltar dinheiro para colocar um elevador no poço previsto na planta original. Semelhante ao filme argentino “Elefante Branco”, 2012, de Pablo Trapero.

O Consórcio da Imprensa foi tomando corpo. Nas entrevistas, só ouviam um lado e todo o fato era envolto numa narrativa única. As manifestações populares a favor do governo passaram ser ignoradas pelos jornais, revistas e televisão. Quando não deu mais para encobrir, diminuíram o número de pessoas. Um milhão era reduzido para 120 mil. Em 7 de setembro do ano passado, no Dia da Independência, o apoio ao presidente foi tão gigantesco que a imprensa os transformou em “atos antidemocráticos”.

Em 1967, quando publiquei minha primeira crônica na Gazeta de Alegrete, o jornal era produzido no Edifício Consórcio, com a oficina instalada no porão do prédio, com tipos móveis e impressora plana. Meus primeiros artigos foram para defender a escultura do Vasco Prato do Negrinho do Pastoreio, colocada no Parque Ruy Ramos e que criou estranhamento entre os tradicionalistas.

Assis Chateaubriand e Roberto Marinho jamais subscreveriam um consórcio, porque buscavam a primazia dos Diários Associados e da Rede Globo, para o bem e para o mal. Na busca de leitores, ouvintes, telespectadores e verbas públicas, preferencialmente.

No porão do Edifício Consórcio, em Alegrete, funciona há muitos anos um clube da terceira idade. É possível dançar de rosto colado com uma coroa, com música ao vivo, cheiro forte de perfume e de cigarro.

Múltipla escolha
Os impressos eram diferentes e com personalidade própria. O Jornal do Brasil com profundidade, a Folha de S. Paulo inovadora, o Estado de S. Paulo conservador, a Gazeta Mercantil financeira e cultural, O Globo oficialista, o Correio do Povo austero, a Folha da Tarde popular, Zero Hora comunitária, O Pasquim irreverente, Movimento e Opinião intelectuais e áridos, Veja interpretativa, Manchete e Cruzeiro espetaculosas, revista Senhor erudita.

Tiragem despencou
O Consócio da Imprensa, o discurso único, a narrativa afinada, fez despencar a tiragem dos maiores jornais brasileiros para 60 mil diários. A Folha hoje se tornou irrelevante. Como pode um jornal querer vender se, na segunda-feira, publica uma manchete desmerecendo um milhão de pessoas nas ruas de São Paulo no domingo? Simples assim. A Veja é uma caricatura, IstoÉ panfletária, Época fechou e a tiragem da Carta Capital não passa de dois mil. No Consórcio, o melhor, mesmo, é o porão para dançar de rosto colado com uma coroa.

Três anos
Convidado por Júlio Ribeiro, eu tenho o privilégio e a honra de participar nos últimos três anos da trajetória heroica, de resistência e iluminada dos 25 anos da Revista Press, promotora do maior prêmio de jornalismo do Estado.

Por Tibério Vargas Ramos