Rodrigo Constantino – “O cancelamento nas redes quer riscar a direita do mapa”

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Um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”. É assim que se apresenta Rodrigo Constantino, um dos maiores expoentes da nova direita brasileira.

Nascido em 4 de julho de 1976, no Rio de Janeiro,  Rodrigo Constantino dos Santos é economista, formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e MBA em Finanças pelo IBMEC. No entanto, é ainda mais reconhecido pelo seu papel de colunista e comentarista, tendo colaborado para veículos como Valor Econômico, O Globo, Gazeta do Povo, Isto É, Veja, Grupo Record e Jovem Pan.

Presidente do Conselho do Instituto Liberal e membro-fundador do Instituto Millenium (IMIL), o economista possui em seu currículo diversas obras de sua autoria, como o livro “Esquerda Caviar” e “Privatize Já”. Uma de suas últimas grandes polêmicas aconteceu em novembro de 2020, devido a declarações sobre o caso das supostas agressões sexuais contra a modelo e blogueira Mariana Ferrer, em Florianópolis. Constantino foi então demitido da rádio Jovem Pan e do Grupo Record.

Nesta entrevista para o diretor geral da revista Press, Julio Ribeiro, Constantino comenta a atuação da mídia brasileira e mundial, o papel das grandes empresas de tecnologia na “guerra cultural” e suas expectativas políticas para o país, entre outros temas.

Como você avalia, neste primeiro ano de pandemia, o desempenho da imprensa mundial e, em especial, brasileira?
Eu avalio de forma bastante negativa. Infelizmente, a gente sabe que a imprensa, em geral, tem uma pegada meio abutre porque catástrofe vende, prende audiência, dá uma importância maior ao noticiário. Acho que, em via de regra, já tem um viés para você potencializar desgraças. Mas nessa pandemia, o que a gente viu foi realmente uma mídia em busca de carniça, ajudando a disseminar o pânico em vez de trazer os fatos de forma um pouquinho mais isenta ou ponderada, e também dando espaço para contraditórios. Por exemplo, na questão do tratamento precoce, porque desde o início essa pandemia foi muito politizada, principalmente no Brasil e nos Estados Unidos. Ambas imprensas desses países estão, por conta da vitória de Trump em 2016 e Bolsonaro em 2018, entraram em uma postura muito militante contra esses
governos, que elas olham de forma geral com desprezo. Acho que isso não contribuiu para uma cobertura mais imparcial na pandemia, porque como tudo foi politizado, inclusive o tratamento precoce, questões de isolamento ou não,e até uma narrativa de quem pode falar em nome da ciência e quem tá do lado dos obscurantistas, quem se preocupa com vidas humanas e quem é insensível. Tudo isso acabou virando uma coisa meio infantil e binária, tribal, e a mídia, na minha opinião, fez um papel para jogar mais lenha nessa fogueira em vez de tentar apaziguar um pouco os ânimos.

E quais os canais, as fontes, que você usa para se informar nesse contexto
Do ponto de vista de busca de notícias, de fatos que aconteceram, eu ainda uso como fonte primária os principais veículos de comunicação. Eu sou assinante de quase todos, eu acordo e faço uma varredura, Folha de S. Paulo, Estadão, O Globo, Gazeta do Povo, vou no site de outros veículos. Então, eu assino o que posso, acompanho o que dá e eu passei a usar também as redes sociais como fonte de informação primária para declarações, então políticos, jornalista, tudo isso eu acompanho muito no Twitter e vou nesses sites de notícias, mas eu olho com muita reserva e com um pé atrás a parte de comentários. E eu aprendi a filtrar o viés também já presente na chamada, no especialista que é convidado para dar o parecer sobre algum assunto. Eu já tenho um filtro contra o viés progressista da mídia e alguns sites de nicho que passaram a ser uma fonte de, não só informação, como de opinião para muita gente que se olha como refém dessa imprensa quase hegemônica com viés progressista e tudo, eu também olho com desconfiança. Então não é que eu tenha trocado o O Globo ou o Estadão por alguns sites mais obscuros associados ao Bolsonarismo. Eu olho para essas notícias, corro atrás, quando possível, de fontes primárias e aplico ali o meu bom senso, o meu critério, para poder ver o seguinte: o que tem aqui de importante, de fato, e o que tem de tentativa de criar uma narrativa? A gente está vivendo uma era de narrativas. Eu não tomo como ícone da ciência a OMS (Organização Mundial da Saúde), assim como eu não tomo como ícone do jornalismo certos veículos tidos como tradicionais. Eu acompanho tudo isso, busco as minhas próprias fontes para poder, depois de tudo “batido no liquidificador”, produzir a minha opinião. A minha opinião tem um embasamento porque eu corro atrás dessas fontes, porque eu leio tudo aquilo que é mídia tradicional. Não é que eu tenha me desligado deste mundo porque eu entendo que redes sociais às vezes criam câmaras de eco, então eu nunca abri mão de ler o contraditório. Seja em termos de notícias, seja em termos de livros. Eu leio livros de pessoas com as quais eu discordo de forma, às vezes, veemente ou majoritariamente. É que eu acho que isso é importante, a gente tem que manter sempre esse pé no chão e humildade.

Você disse que vivemos na era da narrativa, mas será que não foi sempre assim mas a gente não estava tão envolvido nessa polarização, nessa guerra cultural?
Acho que são duas coisas. Tem o fator de que talvez a gente não estivesse tão envolvido e agora a gente perceba melhor, mas tem uma outra coisa também: não existia o espaço para o contraditório. Não existiam as redes sociais para revelar, inclusive, as contradições, a hipocrisia de muito jornalista, de muito governante. Então havia a opinião publicada, que se confundia com opinião pública, e aquilo vinha daqueles veículos de imprensa que dominavam a cena. Dou um exemplo fora de questões de pandemia e tudo mais: tenho para mim que, há duas décadas atrás, se o Chico Buarque lesse os principais veículos de comunicação, ele poderia acreditar, de fato, ser algo muito próximo de uma unanimidade, “todo mundo me adora”, porque todo mundo dos  cadernos de cultura adoram o Chico Buarque, mas quando vem o estouro dessa bolha por meio das redes sociais, descobre-se que ele está longe de ser uma unanimidade e que tem uma legião enorme de pessoas que desprezam ele como pessoa, como pensador político, como intelectual. Então eu acho que é um fenômeno que não podemos ignorar, o advento das redes sociais que estourou essa bolha.

Hoje em dia ficou muito visível para todo mundo o viés dessa mídia. Além disso, a gente passou a acompanhar esses jornalistas nas suas próprias redes sociais. Então pega um exemplo, “Lula elegível por uma decisão do Supremo e faz discurso e tudo mais”, você começa a ver nas páginas desses jornalistas, que se vendiam sempre como isentos, como imparciais, até alguns deles como liberais ou como algúem de direita, você começa a ver aquela históra “não, o Lula tem defeito, mas…”, então já tem uma turma aliviando para o Lula porque odeia o Bolsonaro. As máscaras vão caindo e, de novo, não é preciso embarcar em nenhuma teoria conspiratória ou ter algum tipo de acesso a informação privilegiada. Estamos falando das páginas oficiais desses jornalistas. Eles acabam trazendo à tona, expressando suas opiniões e o que o público percebe é que eles são, no fundo, pessoas com uma visão de mundo mais progressistas, ou à esquerda – o que eles negavam antes. O problema não é, na minha opinião, o jornalista ter uma visão de esquerda. O problema é ele fingir que ele nunca teve uma visão de mundo, que ele é totalmente alheio a ideologias e posturas políticas e que ele apenas faz um trabalho totalmente imparcial de busca da verdade, dos fatos e tudo mais. E essa narrativa, que muitos da mídia acreditavam, porque devem aprender nas faculdades de jornalismo como um ideal, como um norte, isso é que veio abaixo com a exposição deles mesmos nas redes sociais.

As redes sociais por um lado hackearam o mainstream da imprensa e, de alguma forma, empoderaram o consumidor de informação. Uma capa da Veja derrubava ministro, hoje já não há mais isso. Por outro lado parece que as Big Techs se deram conta desse poder e disseram “espera aí, vamos regular isso seguindo o nosso interesse” e aí, novamente, nós estamos vivendo uma nova fase, em que esse empoderamento foi relativizado. Desde que você esteja alinhado a um pensamento progressista, ok. Se não, nós vamos te cancelar porque esse é um direito que nós temos.
Esses rótulos sempre fizeram parte da estratégia da mídia com essa hegemonia mais progressista, de interditar o debate. Os veículos, quando tinham que trazer especialistas, usavam uma estratégia muito manjada hoje em dia, que é você pegar, por exemplo, alguém com uma visão de mundo bem à esquerda, alguém com uma visão de mundo à esquerda e alguém mais de centro. E aí, quando se joga esse trio para debater, fica óbvio que você – em  uma linguagem de quem entende essas coisas de ideologia, de espectro político – está jogando a Janela de Overton para a esquerda. Ou seja, o seu vetor resultante vai ser o seguinte: o que é de esquerda vai estar aparentando ser o moderado, o imparcial, contra dois que tem visões mais radicais, um extremista de esquerda e um de centro.

E a direita não existe.
Exato, é você sumir com a direita do mapa, e isso é uma forma de interditar o debate. Agora que isso não é mais possível, o que eles passam a adotar como estratégia, usar os rótulos de que você é fascista, racista, negacionista, terraplanista, e por aí vai. Você está tentando tirar do debate político aqueles que antes não tinham espaço algum e que agora se descobriu que representam uma parcela bastante significativa da população, que são aqueles com uma visão mais conservadora, mais à direita. Então existe um esforço sem dúvida para voltar ao status quo ante, resgatar aquilo que existia antes do advento das redes sociais e do estouro da bolha. E vale notar que, dentro dessa estratégia, existe a intimidação, a pressão constante e até mesmo a ameaça das redes sociais, que sempre se venderam como plataformas neutras. Mas se eles não fizerem esses tipos de filtros com base nesses rótulos vazios, se as redes sociais não filtrarem esse debate, elas são ameaçadas com regulação e tudo mais. Como esses grupos encontram eco nas redes sociais porque elas são empresas também dominadas por um staff que tem uma visão de mundo progressista, acaba sendo a união da fome com a vontade de comer. Hoje, o que nós temos visto, é uma postura das Big Techs conivente com esse tipo de jornalismo enviesado.

Os líderes das Big Techs compartilham os mesmos conceitos, a mesma visão de mundo da agenda progressista?
Sem dúvida, inclusive, dois livros especificamente sobre isso e já li outros também. Todo mundo sabe do duplo padrão. O presidente Donald Trump teve a conta dele banida para sempre do Twitter, enquanto o ditador venezuelano Nicolás Maduro continua lá, o aiatolá líder do regime iraniano continua lá destilando ódio a Israel, então não há um padrão, não há um critério objetivo. Vários conservadores já foram perseguidos, já tiveram seus canais desmonetizados, já tiveram contas bloqueadas ou suspensas temporariamente, ou para sempre, enquanto que a gente não vê acontecer a mesma coisa com radicais à esquerda. Então não há a menor dúvida de que um Jack Dorsey, que é o CEO e fundador do Twitter, e de que o staff dele tem essa postura. E existem, inclusive, provas factuais sobre isso. A doação dos funcionários dessas empresas é 98% para o Partido Democrata. Vários deles, em cargos de diretoria, em cargos de comando, lamentaram publicamente a vitória do Donald Trump e chegaram a fazer um mea-culpa questionando se eles não tiveram responsabilidade por não fazerem mais ao que estava ao poder deles para evitar algo desse tipo. Então são várias evidências de que essas empresas não são plataformas. Elas exercem um filtro de conteúdo, elas se tornaram publishers, elas são empresas de mídia e não querem se responsabilizar pelo que é publicado em suas plataformas porque usam a seção 230 para poder se blindar contra esse tipo de ameaça, de regulação. Mas hoje não tem mais a menor dúvida de que essas plataformas agem como publishers, como empresa de produção de conteúdo com um claro viés.

O que o cidadão pode se salvaguardar desse poder avassalador das Big Techs? Parece que não há alternativa. Há pouco um pessoal quis sair do Twitter e foi para o Parler, aí houve um assédio sobre os fornecedores do Parler, a Amazon cancelou a hospedagem e acabou o Parler.
Infelizmente a resposta está na sua própria pergunta, quando você começou a falar sobre isso eu já pensei no Parler. Então assim, não tem muito o que possa ser feito, isso não vai acabar bem. Por que? Porque nós estamos lidando aqui com uma visão totalitária de mundo de pessoas que se consideram do bem. Então é incansável o tirano do bem, como já alertava C. S. Lewis. Porque você não está fazendo isso porque você quer o poder para aplicar o mal ou porque você é uma pessoa má. É porque você acredita que está salvando a humanidade do discurso de ódio de pessoas terríveis como os deploráveis que apoiam o Trump, por exemplo, então você não vai descansar. E você tem muito poder na mão se você está em um cargo de comando de uma Big Tech dessas. Então eles estão usando esse poder para calar, para perseguir, para intimidar, para reeducar as pessoas que ousam pensar diferente. E isso é um grande problema e um grande perigo. Portanto você não pode falar em livre mercado hoje em dia. Não há livre mercado quando você tem essas empresas dominando e quando surge um Parler, que seria uma alternativa, como você mesmo coloca, ele é sabotado, boicotado, destruído praticamente pela união desse cartel. Então nós estamos lidando aqui com algo muito perigoso. Um exemplo é a cultura do cancelamento, que vem junto com isso, já tem pessoas mais progressistas percebendo o perigo. Então nós tivemos a famosa carta, que até alguém como Noam Chomsky, Mark Lilla e pensadores de esquerda assinaram porque eles perceberam o seguinte: olha, quando alguém como J. K . Rowling é cancelada, e ela não atacou, ela não fez discurso de ódio contra trans, ela não é transfóbica, ela apenas estava tentando proteger mulheres em relação a algo que é uma preocupação de qualquer pessoa que tenha um mínimo de bom senso. “Ah então o sujeito se diz mulher” e tudo mais e pode estar num convívio com crianças, com meninas, isso pode ser perigoso. E ela foi alvo de um ataque muito pesado e por que ela aguentou? Por que ela resistiu? Porque ela é quem ela é. A autora do Harry Potter, bilionária, a publisher dela não vai abrir mão de contrato com ela, mas veja que curioso, um escritor de histórias infantis bem menos conhecido, bem menos poderoso e bem menos rico que defendeu a J. K. Rowling, ele sim foi demitido da publisher por pressão dos canceladores. Então o que perceberam é que o cabo estoura do lado fraco e isso é muito perigoso porque hoje em dia as pessoas estão percebendo, estão se dando conta deste ambiente tóxico e totalitário e, com medo, se calam. O debate está sendo interditado. Algumas poucas pessoas têm estrutura de independência financeira, ou já tem uma projeção, ou tem coragem que permitam denunciar a enfrentar, mas é uma minoria e pagam um preço. Eu tive meu canal do YouTube desmonetizado, suspenso várias semanas, três vezes já aconteceu isso. Já fui bloqueado no Twitter por 12 horas para eu pensar sobre o que eu estava falando. Então é assim, as pessoas vão pagando um preço, vão sendo tratadas como pária, como terraplanistas, como escória, negacionista e tudo mais e só quem é muito casca grossa aguenta o rojão. Então nós estamos lidando com uma inquisição muito poderosa. sso não vai acabar bem. Não tem como você enfrentar isso fazendo denúncias esporádicas, é um negócio muito grande.

Mas você também foi excluído de veículos de comunicação onde trabalhava. Você se sentiu decepcionado?
Sim, mas mesmo quando eu fui cancelado e paguei com alguns empregos, eu deixei muito claro em público que eu entendo a decisão empresarial sob muita pressão de ser arrastada para a lama, para a polêmica. Eu estava sendo acusado e rotulado e boa parte da mídia ajudando nisso, falando que davam guarida e empregavam um defensor do estupro ou um terraplanista, sei lá qual é a acusação do momento. Então eu entendo as empresas que tomam este tipo de decisão, apesar de achar que obviamente é uma certa covardia porque estão alimentando um monstro. Se tem por um lado empresas covardes e que não conseguem bancar, por mais que a gente entenda a decisão empresarial, por outro lado esses canceladores sabem que tem um eco, uma certa aceitação, em departamentos de marketing e tudo mais das próprias empresas.

Estão todos aparelhados de alguma forma?
Exatamente, não chega às vezes nem mesmo no nível do CEO, porque no departamento de marketing, dominado por figuras com essa visão progressista, que acham que estão fazendo uma revolução do bem, eles mesmos vão ser receptivos a esse tipo de “denúncia”. Então existe, aí sim, um círculo vicioso e perigoso onde pessoas que estão em cargos de comando e decisões empresariais midiáticas relevantes estão agindo para expurgar do cenário e do debate aqueles que incomodam, que possuem visões e opiniões mais direitistas e, portanto, por eles associadas a tudo que há de pior no mundo.

Como é que você vê o futuro do jornalismo? De um lado nós temos uma desconfiança por parte do público consumidor, que já não está muito com a mídia tradicional, acha que sempre tem uma sacanagem por trás. De outro, temos as universidades, as faculdades de jornalismo formando militantes. A coisa mais difícil que tem hoje em dia é achar um jornalista que não seja nem de esquerda e nem de direita, que seja jornalista.
Eu não vejo como novidade. Inclusive o livro que fez um baita barulho na época do ex-âncora da CBS, o Bernard Goldberg, chamado Bias, “O Viés”, um livro com trinta e poucos anos, e foi um escarcéu à época, porque ele denunciava ali a visão de mundo esquerdista dos pares todos dele na mídia. Então isso não é uma realidade nova. O que eu acho que mudou é a nossa chance de expor isso. Nós temos agora alguma esperança. A questão é onde que o jogo precisa ser jogado. Nas redes sociais ele já vem sendo jogado, apesar de que agora existe uma reação, um contra-ataque, que é essa tentativa de filtrar, calar, suspender, banir e tudo mais. Só que eu acho que nós estamos perdendo de lavada na academia, nas faculdades, que é quem forma esses profissionais, e na cultura pop. Nós precisamos ter canais como o dos Hipócritas, de humor, precisamos ter gente fazendo historinha em quadrinho. Eu entrevistei esses dias um autor de historinha em quadrinho que criou o personagem Destro, o nome já é sugestivo, mas ele tinha um personagem antes que era o Doutrinador, então você vai falando com outro público, você vai mastigando essa mensagem. Isso sempre faltou para liberais e conservadores.

Então eu acho que assim, nós estamos no começo dessa reação, e é um movimento incipiente, culturalmente falando, e é até curioso. Talvez a gente tenha colocado a carroça na frente dos bois porque “chegamos”, entre aspas, como direita, ao poder, com a vitória de alguém como Jair Bolsonaro, com a plataforma que foi vitoriosa, com a equipe que foi montada, sem ter a base cultural, a base de apoio, então isso é um fator importante que eu acho que muita gente se deu conta. Não adianta querer ter a cereja do bolo se você não tiver a base. O jogo precisa ser jogado nesses bastidores. Você precisa estar apoiando movimentos de base para formar os profissionais com uma visão de mundo melhor, para ter um alcance de um público que não necessariamente vai estar lendo Roger Scruton, mas vai estar lendo uma história em quadrinho interessante, ou ouvindo uma música, ou vendo um canal de humor como já foi o Porta dos Fundos, só que agora com um viés de mundo diferente, expondo a hipocrisia justamente da esquerda, dos canceladores e por aí vai. Então é por aí que o jogo vai ser virado.

O Brasil cansa porque nós não temos um inimigo apenas. O Brasil tem vários inimigos, inclusive na sua Suprema Corte, onde deveria ser o nosso último bastião Parece que é até o contrário, a Suprema Corte cria cada vez mais conflitos. Como avalia o Brasil além de 2022?
Eu, inclusive, adotei isso como o meu bordão, repito muito essa frase, “o Brasil cansa”. Já estou até adaptando agora, “o Brasil exaspera”. Para responder essa pergunta tem uma condicionante. A partir de 2022, conseguimos ou não seguir livres do PT? Se acontece uma volta de um Lula, de um PT, ao poder, aí, sendo muito sincero, é algo próximo de um game over, de uma Argentina, de uma Venezuela. Se não, nós podemos discutir. Se for um tucano (PSDB), se for um sujeito que se vende como centro moderado e na prática eu vejo como uma esquerda talvez mais moderada – e já enxerguei nos tucanos uma postura mais moderada, hoje eu tenho dúvidas. Os governadores que têm adotado medidas mais drásticas e autoritárias nesta pandemia são só governadores tucanos. Então tenho revisto a minha postura em relação a essa premissa dos tucanos, mas assumindo que ele não estão no Foro de São Paulo, não flertam com a ditadura do Maduro, com Venezuela, eu acho que o Brasil sobrevive, de tucano para a direita, o Brasil sobrevive e vamos ter que continuar discutindo isso, reformas de base, mudança cultural e, de novo, colocando um tijolinho em cima do outro de forma muito gradual e muito aquém daquilo que necessitamos e desejamos, mas essa é a nossa realidade. O Brasil é um país ainda muito atrasado, inclusive do ponto de vista de mentalidade. Então nós temos que galgar degraus aos poucos, mas o principal é evitar o quê? Evitar um grande retrocesso, é evitar escorregar na escada e sair rolando para baixo. Isso aí seria, obviamente, a volta do PT.

Entrevista: Julio Ribeiro
Fotos: Arquivo pessoal/Constantino