Charles-Louis Havas – O pioneiro das agências de notícias

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As agências de notícias são uma das mais importantes fontes de informação para a indústria da comunicação. Praticamente todos os veículos jornalísticos precisam delas para suprir ao menos parte de seu conteúdo diário. Esse serviço tão relevante para o jornalismo moderno foi criado há quase 185 anos, graças às ações de um comerciante e banqueiro arruinado que tinha talento como tradutor: Charles-Louis Havas, fundador da primeira agência de notícias internacional, a Agência Havas.

Nascido em 5 de julho de 1783, em Rouen, na França, Charles-Louis Havas pertencia a uma família de origem judia. Seu pai, também chamado Charles-Louis, era formado em Direito e trabalhava como funcionário da biblioteca pública local, além de ser administrador da riqueza patrimonial de famílias nobres da região. Já sua mãe, Marie Anne Belard, era filha de um refinador de açúcar da cidade.

Depois da Revolução Francesa, em 1789, a família entrou no ramo do comércio de algodão, especialmente o importado do Brasil através de Portugal. O jovem Charles-Louis estava em Lisboa quando Napoleão Bonaparte, para impor o Bloqueio Continental contra as nações que comercializavam com a Inglaterra, ordenou a invasão francesa de Portugal que levaria a família real portuguesa a se exilar no Brasil. Prevendo que o governo português acabaria proibindo exportações para a França, ele faz uma operação arriscada: dias antes da frota da família real sair de Lisboa para o Rio de Janeiro, ele envia navios para o Brasil para comprar, como contrabando, 3 mil toneladas de algodão, um terço do consumo anual francês. O produto é revendido depois com extremo lucro em Rouen, fazendo do jovem Havas um homem rico.

Após sair de Portugal em 1808, Charles-Louis se instala em Paris, onde se associa com o banqueiro Gabriel-Julien Ouvrard, que investia boa parte de sua fortuna negociando títulos do Tesouro francês. No entanto, com a derrota final de Napoleão, em 1815, os dois sócios ficaram arruinados.

Sede da France Press – Reprodução

Com três filhos para criar, Charles-Louis e sua esposa, Jeanne de Roure, tentam sobreviver como tradutores: o casal era fluente em inglês, alemão, espanhol e português. Em 1820, novamente faz uma sociedade com Ouvrard, ao abrir um escritório de informações econômico-financeiras a serviço do banqueiro. Sua função é reunir todas as notícias econômicas que pudesse encontrar e informar Ouvrard de tudo o que ocorria no mercado. No entanto, esse empreendimento também iria falhar em 1825, quando Ouvrard é preso por um escândalo de corrupção envolvendo o fornecimento de material para o exército francês e a Bolsa de Paris sofre uma bruta queda.

Mesmo endividado, Havas segue investindo na formação de uma rede de informantes europeus, para vender relatórios para empresários. Sua missão é ler tudo que possa afetar a economia: guerras, comércio, preços de commodities ou naufrágios.

Além disso, escreve artigos para jornais e faz tradução de notícias estrangeiras para publicações francesas. Em 1832, ele funda o Bureau de Tradução de Jornais Estrangeiros.

Uma viagem pela Europa permitiu-lhe recrutar correspondentes que se integraram na Agência de Correspondência Política e Geral, conhecida como Agência Havas, fundada em 22 de outubro de 1835. Já em 1838, as notícias da agência eram enviadas também para jornais, empresários e banqueiros da Holanda, Bélgica, Grã-Bretanha e Alemanha.

A nova agência se comunicava com seus correspondentes por telégrafo óptico, também conhecido como telégrafo de Chappe. Os aparelhos eram instalados em torres construídas com uma distância de 10 km a 15 km entre elas. Cada aparelho era composto por braços de madeira móveis. O operador na torre movia os braços para diferentes posições e ângulos para indicar letras e símbolos, os quais eram observados pelo operador na torre seguinte através de telescópio. Este, por sua vez, retransmitia a mensagem para a torre seguinte. Em 1844, havia 534 torres cobrindo o território francês. Ao mesmo tempo, Havas obteve um privilégio de transmissão acelerada de mensagens enviadas pelo correio.

Em 1838, Havas convenceu o ministro do Interior da França, Camille de Montalivet, a confiar-lhe uma importante publicação oficial para a imprensa das províncias, a Correspondência dos Jornais Ministeriais dos Departamentos, chamada também de Correspondência Lejollivet, e editado por Léon Vidal, assessor do ministro da imprensa.

Por volta de 1840, Havas está encarregado da publicação de quatro boletins governamentais: a Correspondência Política, destinada a prefeitos e sub-prefeitos; sua variante para a imprensa provincial governamental, a Correspondência Política Privada; o Pequeno Boletim Universal, dirigido a membros do governo; e, para os banqueiros e empresários, a Pequena Folha, um breve boletim que incluía o resumo dos jornais, alguns fatos na Bolsa de Valores e as cotações dos títulos do governo e das ações. Desse modo, a agência rapidamente ganhou uma clientela de cerca de setenta jornais provinciais.

Nessa época, a Agência Havas também estava empregando pombos-correios para o envio de notícias. Soltos às 08h da manhã em Londres, as aves chegavam às 14h em Paris com as informações do que havia ocorrido no dia anterior no comércio e na Bolsa da capital britânica. Já os pombos de Bruxelas, com dados sobre as minas de carvão da Bélgica e do porto de Antuérpia, chegavam às 12h.

Em 1844, Samuel Morse inaugura a primeira linha de telégrafo elétrico do mundo, entre Baltimore e Washington, nos Estados Unidos, que permitia a transmissão de 30 caracteres por minuto. A rapidez da nova tecnologia impressionou Havas. Já em 1845, apoiado pelo banqueiro Jacques Laffite, ele obteve o direito de usar o telégrafo elétrico na França, que teve sua primeira linha construída naquele ano. Somente cinco anos depois uma lei iria autorizar o uso do telégrafo também aos seus concorrentes.

O monopólio tecido por Havas na difusão de notícias do exterior para os jornais franceses incomodava muitos jornalistas, uma vez que a liberdade de imprensa na monarquia francesa, comandada pelo rei Luís Felipe de Orléans, permaneceu muito limitada. Um de seus críticos era o romancista Honoré de Balzac, que em 25 de agosto de 1840 escreveu em um artigo: “o público pode acreditar que existem vários jornais, mas no final há apenas um … O Senhor Havas”.

Balzac chamava Havas “o testa de ferro do primeiro-ministro”; o escritor alegava que Havas recebia do governo 6.000 francos por mês contra os 4.000 que recebia dos jornais aos quais fornecia notícias. Segundo Balzac,”os jornais, sem conhecimento, não têm para publicar nada além do que o primeiro-ministro deixe que publiquem”.

Esse cenário começaria a mudar com a Revolução de 1848, que depôs a monarquia dos Orléans. A mudança resultou na liberdade de imprensa, e os jornais se multiplicaram. Antes da revolução, havia cerca de 600 jornais na França. Quatro meses depois, 200 haviam sido fundados, e mil publicações foram criadas nos três anos seguintes. Os preços também diminuíram drasticamente, levando ao nascimento da imprensa popular.

A revolução se espalhou pela Europa, especialmente pelos estados alemães, onde foi duramente reprimida. Mas isso gerou um afluxo de refugiados que permitiu a Havas recrutar três dos melhores jornalistas daquela época: Bernhard Wolff, Paul Julius Reuter e Sigismund Englander. O primeiro retornou mais tarde a Berlim para fundar a agência Wolffs Telegraphisches Bureau; os outros dois se juntariam para formar, em 1851, a Reuters, em Londres.

Telégrafo ótico de Chappe – Reprodução

Em 1852, Charles-Louis Havas se aposentou dos negócios, mas pouco antes teve seu último golpe de gênio: a entrada na publicidade, através da participação no capital do Boletim de Paris. Fundada em 1850 por Mathieu Laffite, a empresa fornecia aos jornais provinciais acesso limitado à publicidade nacional. Muitas vezes, o Boletim de Paris dava de graça aos jornais provinciais a assinatura de notícias em troca de espaço publicitário.

Dessa maneira, os filhos e sucessores de Charles-Louis, Auguste e Charles-Guillaume Havas, poderiam oferecer aos clientes dois serviços: notícias e gerenciamento de anúncios. Em cinco anos, de 1852 a 1857, os dois herdeiros construíram um monopólio da publicidade francesa, através de aquisições e alianças, com o estabelecimento da Sociedade Geral de Anúncios.

Charles-Louis Havas morreu em 21 de maio de 1858, em Bougival, nos arredores de Paris. Os empreendimentos fundados por ele existem até hoje. A agência de notícias, após a Segunda Guerra Mundial, tornou-se a Agence France-Presse (AFP). Já a divisão de publicidade é a agência Havas, uma das maiores companhias de propaganda e relações públicas do mundo.