O Gol Mil de Pelé na imprensa

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No futebol brasileiro, o ano de 1969 foi marcado pelo quarto título nacional do Palmeiras e a inauguração do estádio Beira-Rio, do Internacional, em Porto Alegre. No entanto, o fato que gerou mais cobertura pela imprensa na época foi o “Gol Mil” de Pelé, que completou 50 anos no dia 19 de novembro.

Edson Arantes do Nascimento já era conhecido como “Rei do Futebol” desde a Copa da Suécia de 1958. Mas, em 1969, sua fama ganhou ainda mais impulso quando começaram a surgir na imprensa análises afirmando que estaria prestes a completar a marca de mil gols.

A primeira polêmica foi o cálculo: quantos gols Pelé já tinha feito? Essa pergunta levou a uma “guerra” entre dois jornalistas. Um era Thomaz Mazzoni, chefe de redação de “A Gazeta Esportiva” e uma referência sobre história do esporte no país. Foi ele o primeiro jornalista a chamar à atenção, já no início de 1969, para a possibilidade de o Rei fazer o milésimo.

Do outro lado, estava Adriano Neiva da Mota e Silva, o De Vaney, de “A Cidade de Santos”. Julgava-se um especialista em Pelé. Ironicamente, terminou a vida como inimigo dele. Chegou a publicar o livro “A verdade sobre Pelé: as fantasias, os exageros, o mito e a história de um desertor”, em 1975.

Foi em outubro de 1969 que a briga começou. Nas contas de Mazzoni, Pelé tinha alcançado 995 gols, enquanto para De Vaney, 993. O debate chegou às páginas da “Folha de S.Paulo”, com a manchete “Quantos gols Pelé já marcou?”.

A Confederação Brasileira de Desportos (CBD, entidade antecessora da CBF) decidiu chancelar os números levantados por De Vaney, que eram usados para as estatísticas do Santos. Com a contagem oficial estabelecida pela CBD, a campanha dos mil gols movimentou a imprensa do País.

Os dias que antecederam o milésimo gol foram cercados de grande expectativa. Os estádios ficavam lotados a cada partida do Rei, a imprensa cobria de perto cada um de seus passos. O gol 999 saiu em 14 de novembro, contra o Botafogo da Paraíba. As atenções, então, se voltaram para a partida seguinte em Salvador, contra o Bahia. No entanto, o jogo terminou empatado em 1×1, sem gols de Pelé.

A cerimônia festiva foi, então, preparada para a noite de 19 de novembro de 1969, no jogo do Santos contra o Vasco, no Maracanã. As páginas esportivas do Correio do Povo, em Porto Alegre, destacavam a grande expectativa. “Atração maior do Vasco-Santos será possível conquista do milésimo gol” era a manchete do jornal. “Pode sair hoje o mais esperado gol de Pelé”, era a chamada do Estado de São Paulo daquele dia.

Durante o dia, Pelé concedeu concedeu entrevistas para jornalistas estrangeiros que vieram ao Brasil para acompanhar o seu milésimo gol. A expectativa era tanta que emissoras de TV fizeram a transmissão da partida mesmo diante de uma proibição imposta pela CBD.

O milésimo gol saiu somente aos 34 minutos do segundo tempo, mais precisamente às 23h17. O campo do Maracanã foi invadido por uma multidão de fotógrafos, cinegrafistas e repórteres. Sua primeira mensagem para a imprensa foi um pedido de apoio às crianças carentes. “Pensem nas criancinhas. (…) Ajudem as crianças desafortunadas, que necessitam do pouco de quem tem muito. (…) Pelo amor de Deus, o povo brasileiro não pode perder mais crianças”, desabafou o atleta.

No dia de 20 de novembro, fazendo referência ao segundo pouso na Lua pela nave Apolo 12, que também havia acontecido no dia anterior, o jornal O Globo destacou os dois eventos na capa, com as chamadas “A Lua” e “O Gol”. Jornais ao redor do mundo destacaram o feito de Pelé. Na Inglaterra, o Daily Mirror chamou o fato de “um recorde fantástico”.

Pelé receberia vários prêmios da imprensa. Na mesma noite do Gol Mil, a rede Diário e  Emissoras Associadas, capitaneados pela TV e Rádio Tupi, entregou para o atleta uma bola de ouro em tamanho natural. A TV Globo realizou a Festa dos Mil Gols no Maracanãzinho, em 13 de dezembro de 1969. A revista Veja dedicou sua edição ao feito, descrevendo o que representava o gol marcado por Pelé para o futebol brasileiro e mostrando a repercussão mundial que o feito atingiu.

No total, durante sua carreira, Pelé atingiria a marca oficial de 1.282 gols. Muitas comparações com outros jogadores seriam feitas no futuro, ou para lhe retirar o título pioneiro (o austríaco Franz Binder, o checo Josef Bican e o brasileiro Arthur Friedenreich geralmente são apontados como tendo alcançado a marca anteriormente) ou para dizer que as contas de Pelé incluem jogos amistosos e contra adversários de pouca qualidade técnica, tentando favorecer os resultados de jogadores mais modernos. No entanto, seu legado para o futebol é indiscutível. Não importa quantos gols tenha realmente feito, quando surge um novo grande jogador, a pergunta que surge é: “será ele o novo Pelé?”.