A imprensa vai à Guerra

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Em 22 de agosto de 1942, o presidente Getúlio Vargas declarou “estado de beligerância” entre o Brasil e a Alemanha Nazista e a Itália Fascista. Era a entrada oficial do país na Segunda Guerra Mundial. Em edições extra no mesmo dia, os principais jornais informaram ao público em letras garrafais: Guerra!

A declaração foi celebrada pela população, indignada pelo afundamento de navios brasileiros pelos submarinos alemães. Os ataques foram apenas o empurrão final que levou o Brasil a passar totalmente para os Aliados. O Brasil já havia se alinhado com os EUA em janeiro de 1942, após a Conferência do Rio de Janeiro, quando decidiu romper relações com o Eixo – formado por Itália, Alemanha e Japão. Desde então, o governo Getúlio Vargas havia concedido a permissão para que os Aliados usassem portos e bases aéreas no Brasil.

Após a declaração de guerra, a opinião pública passa a se mobilizar para o envio à Europa de uma força expedicionária. Por diversas razões de ordem política e operacional, somente quase dois anos depois, em 2 de julho de 1944, teve início o transporte rumo ao front do primeiro contingente da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Ao esforço militar, juntou-se também o trabalho da imprensa em registrar as ações das tropas brasileiras. Os correspondentes de guerra estavam previstos na organização da FEB, só que a seleção e a escolha inicial de quem iriam acompanhar as tropas não coube ao Exército e sim ao Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) órgão do governo que controlava todos os meios de comunicação durante o Estado Novo. Através dele, o governo manipulava a opinião pública em favor de seus interesses políticos.

A ida dos correspondentes só se deu depois de ameaças de boicote por parte dos dirigentes dos principais veículos de comunicação da época: Roberto Marinho e Herbert Moses, diretores de O Globo; Assis Chateaubriand e Austregésilo de Athayde, dos Diários Associados; Paulo Bittencourt, do Correio da Manhã; e Horácio de Carvalho, do Diário Carioca. Foi uma guerra que durou quase dois meses, mas afinal os seis venceram. Diante do ultimato, endossado pelos diretores dos jornais (“ou mandamos nossos próprios correspondentes ou não publicamos mais nada do DIP referente à FEB. Usaremos apenas o serviço de agências internacionais”), o governo se rendeu.

Após o processo de escolha, embarcaram para à Itália como correspondentes de guerra: Rubem Braga, do Diário Carioca; Rui Brandão, do Correio da Manhã; José Carlos Leite e Joel Silveira; dos Diários Associados; e Egídio Squeff, de O Globo. A Agência Nacional, órgão governamental, enviou: Thassilo Campos Mitke e Horácio Gusmão Sobrinho, como repórteres; Fernando Stamato, Sílvio da Fonseca e Adalberto Cunha como cinegrafistas.

Fora da missão oficial de correspondentes, outros membros da imprensa também estiveram na Itália: Carlos Alberto Dunshee de Abranches, do Jornal do Brasil;  Sílvia Bittencourt, a jornalista e cronista – esposa do diretor do Correio da Manhã -, que escreveu sob o pseudônimo de ‘Majoy’; e o gaúcho filho de britânicos Francis Hallawell, que mandava reportagens da BBC em português para o Brasil.

Os jornalistas deviam estar sempre informados sobre o que acontecia no teatro europeu de guerra, acompanhando as tropas e escrever sobre o que viam e o que acontecia durante os dias em que FEB participou da guerra. Todos eles receberam uma patente (de capitão) do 5º Exército Americano, para poder circular mais livremente nas bases militares. Eles nunca poderiam andar armados, pois eram considerados soldados desarmados e uma repentina prisão com uma arma os tornaria franco-atiradores, permitindo seu fuzilamento sem qualquer pergunta prévia.Seus textos estavam sujeitos à leitura do censurador, devendo informar a versão oficial da guerra. Sendo assim, a missão da imprensa era manter elevada a moral do país, e sem deixar que que o inimigo tivesse acesso a qualquer tipo de notícia sobre possíveis dificuldades dos Aliados.

Um outro problema enfrentado pelos jornalistas durante a Segunda Guerra foi a apatia e desconfiança inicial dos comandantes da FEB. Havia uma certa frieza por parte dos capitães e generais ao passar as informações.A desconfiança foi abandonada de vez com a chegada dos primeiros jornais brasileiros contendo textos enviados por aqueles que até então eram alvos da frieza no diálogo.