Paulo Machado de Carvalho – Fundador de emissoras e Marechal da Vitória

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Uma vida dividida entre dois amores, a comunicação e o futebol. Assim pode ser descrita a carreira do empresário Paulo Machado de Carvalho. Fundador da TV Record, uma das primeiras emissoras de televisão do Brasil, e administrador de outros veículos, como a rádios Record e Jovem Pan, ficou conhecido nacionalmente com o título de Marechal da Vitória por ter sido o chefe da delegação brasileira em duas Copas do Mundo. Considerado o maior responsável “fora de campo” pelas conquistas das Copas de 1958 e de 1962, chegou a ter o Estádio do Pacaembu batizado com seu nome em reconhecimento ao seu trabalho.

Paulo Machado de Carvalho nasceu em 9 de novembro de 1901, em São Paulo. Era filho de Antonio Marcelino de Carvalho (1872 – 1920), um comerciante bem-sucedido que chegou à presidência da Associação Comercial de São Paulo, e Brasília Leopoldina Machado de Oliveira, filha do advogado e professor Brasílio Augusto Machado de Oliveira, que havia sido governador da então província do Paraná.

Seguindo as expectativas do pai, Paulo formou-se bacharel pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, além de passar dois anos na Suíça, aprimorando seus estudos. No entanto nunca exerceu a profissão.

Em 12 de maio de 1923, casou-se com Maria Lúcia Chaves do Amaral (1904 – 1985). Da união, vieram os filhos: Paulo Machado de Carvalho Filho (1924 – 2010), Erasmo Alfredo Amaral de Carvalho (1925 – 1990) e Antônio Augusto Amaral de Carvalho, conhecido como Tuta (nascido em 1931).

A porta de entrada de Paulo Machado na área das comunicações foi no rádio, em 1931, quando ele tinha 30 anos. Naquele ano, desfazendo-se de uma empresa de luminosos que tinha, tomou conhecimento da venda de uma casa de discos que chamava-se Record e onde também funcionava uma pequena rádio com o mesmo nome – fundada em 1928 por um grupo de empresários paulistas —, mas estava sem uso. Apesar de Paulo não fazer a mínima ideia de como funcionava uma rádio, aceitou comprar a emissora, que foi adquirida por 25 contos de réis, dividindo o valor com mais dois amigos-sócios:  João Amaral e Jorge Alves de Lima.

Adquirir uma rádio naquela época não era considerado um bom negócio, visto que não era rentável. A publicidade nas emissoras só foi permitida pelo governo a partir de 1932. A compra da Record foi algo que a própria mãe de Paulo tentou dissuadi-lo da “aventura”.

A Rádio Sociedade Record ganharia fama entre a população paulista em 1932. Nesta época, São Paulo exigia a deposição do então presidente Getúlio Vargas e a convocação de eleições para a formação de uma assembleia constituinte. Em 23 de maio daquele ano, estudantes invadiram os estúdios da Record, chegando até a sala de Paulo Machado de Carvalho, e ordenaram que colocasse no ar a leitura de um abaixo-assinado. A rádio teve que aderir à causa na marra.

Em 9 de julho de 1932, eclodiu a chamada Revolução Constitucionalista. Na Record,  César Ladeira levava ao ar mensagens que aclamavam o espírito paulista contra os getulistas. Por conta da revolução, Ladeira ficou conhecido como “A Voz da Revolução”, e a Rádio Record, como “A Voz de São Paulo”.

Passada a revolução, a rádio tinha definitivamente ganhado a atenção dos paulistanos. Naqueles primeiros anos, Paulo Machado fazia de tudo em sua emissora: selecionava músicas, arquivava discos, dirigia programas e participou até da produção do primeiro jornal falado do rádio.

Os negócios cresciam. Adquiriu, em 1944, a Rádio Panamericana, que passou a integrar o conglomerado que chamou de Grupo das Emissoras Unidas. Dois anos depois, em 1946, transformou a Panamericana na primeira emissora dedicada apenas aos esportes. Também inovou ao colocar repórteres atrás dos gols durante as transmissões.

No dia 27 de setembro de 1953, Paulo Machado inaugurou a TV Record, realizando um outro sonho que alimentava desde a chegada da televisão ao Brasil, três anos antes, em 1950. Já havia mais duas emissoras de TV em São Paulo, a TV Tupi e a TV Paulista.

A TV Record rapidamente tornou-se popular se especializando na produção de programas musicais, chegando a ser líder de audiência na década de 1960 com os históricos festivais de música e o programa Jovem Guarda. Devido ao sucesso desse programa, a família Machado de Carvalho trocou o nome da Panamericana para Jovem Pan em 1965.

O grupo de empresas de comunicação de Paulo Machado de Carvalho também incluiu a Rádio Excelsior (hoje CBN), Rádio São Paulo e Rádio Cultura. No entanto, após o fim da década de 1960, os negócios começaram a entrar em crise, devido à perda de audiência da TV Record.

Em meados dos anos 1970, metade da TV Record foi vendida ao empresário e apresentador Silvio Santos. No entanto, quando ele fundou o grupo SBT em 1981, passou a deixar a Record em segundo plano. A emissora regrediu financeiramente e chegou a um estado de pré-falência no final da década de 1980.

Em 1989, a família Machado de Carvalho se viu obrigada a vender a TV e Rádio Record para o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus. Atualmente, apenas as rádios Jovem Pan AM e FM pertencem à família Machado de Carvalho e são dirigidas por Antônio Augusto Amaral de Carvalho, conhecido como Tuta.

Futebol, uma paixão
Além do empreendedorismo em comunicação, Paulo Machado de Carvalho também foi conhecido pela sua ligação com o futebol. Começou essa carreira como vice-presidente do clube São Paulo da Floresta em 1934. No ano seguinte, o clube entrou em falência e foi sucedido pelo São Paulo Futebol Clube, do qual Machado de Carvalho viria a ser presidente, entre 1946 e 1947, e vice-presidente, entre 1955 e 1956. A partir do ano seguinte, assumiu o departamento de futebol, cargo que já tinha ocupado entre 1942 e 1947, e chegou a pagar torcedores para vaiar o time quando jogava mal no primeiro tempo e, no intervalo, mostrava a reação da torcida aos jogadores em busca de “reações heroicas”.

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Ao lado de João Havelange, então presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), foi dirigente do futebol brasileiro, tendo sido chefe das delegações campeãs mundiais de 1958 (Suécia) e 1962 (Chile), o que lhe valeu o apelido de “Marechal da Vitória”. Na ocasião da primeira conquista, foi convidado por Havelange e preparou o plano para a Copa desde meados de 1957. O documento foi elaborado com a colaboração de jornalistas com experiência no futebol e foi transformado em um livro chamado O Plano Paulo Machado de Carvalho.

Nos últimos preparativos para a Copa de 1958, já na Suécia, era vítima constante das brincadeiras de Mané Garrincha, que aparecia com o dedo imitando um revólver e dizia “Doutor Paulo, teje preso”, para, algum tempo depois, voltar e dizer “Teje solto”. Quando o Brasil teve de jogar a final com seu segundo uniforme, azul, Carvalho, para tranqüilizar os jogadores, teria dito que o uniforme lhes daria sorte, pois era da cor do manto de Nossa Senhora Aparecida.

Na viagem ao Chile, em 1962, para aquela que seria a segunda conquista do Brasil, Paulo mostrou toda sua superstição ao usar o mesmo terno marrom que usava todos os dias “para dar sorte” na Copa anterior, que tinha virado motivo de piada entre os jogadores.

Em razão das boas campanhas futebolísticas e da brilhante carreira empresarial, recebeu homenagem da prefeitura de São Paulo: o Estádio do Pacaembu leva o seu nome desde 1961. No local, foi inaugurado em 2008 o Museu Paulo Machado de Carvalho (Museu do Futebol).

Falecimento e posteridade
Em 7 de março de 1992, Paulo Machado de Carvalho faleceu aos 91 anos, deixando a segunda geração de comunicadores da família responsável por tocar os negócios. Paulo Machado de Carvalho Filho passou a dirigir a Rádio Panamericana ainda em 1944, e estruturou um grupo de rádios dedicado a jornalismo, esportes e entretenimento. Também foi presidente da Abert – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (1980-1982).

Já Antônio Augusto Amaral de Carvalho (Tuta) começou a trabalhar no grupo familiar com 18 anos e foi diretor da Rádio Panamericana de 1949 a 1953. Foi diretor de reportagens externas e de programação da TV Record, diretor da Jovem Pan AM (1964-2014) e criador da Jovem Pan FM em 1976. Em 2006, transformou a Jovem Pan AM na rede all news Jovem Pan News.