Otto Lara Resende – Um especialista em ideias gerais

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O escritor Nelson Rodrigues costumava dizer que Otto Lara Resende deveria ter sempre em seu encalço um taquígrafo – para os jovens que nunca ouviram falar a palavra, alguém que faz anotações rapidamente e de forma abreviada. Dessa forma, suas frases geniais poderiam ser registradas e depois vendidas. Talvez Rodrigues não falasse sem exagero a genialidade e a qualidade do texto do escritor e jornalista mineiro são inegáveis, deixando uma obra essencial para a cultura nacional, apesar de pouco lida atualmente no Brasil.

Otto Lara Resende nasceu em São João Del-Rei, Minas Gerais, no dia 1 de maio de 1922. Era o quarto de 20 filhos de Maria Julieta de Oliveira e do professor, gramático e memorialista Antônio de Lara Resende. “Nasci no dia em que foi fundado o Partido Comunista. Era Dia do Trabalho, mas era feriado”, comentaria em 1979, quando tomou posse da cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras. Fez seus estudos primário e secundário em sua cidade natal, no Colégio Padre Machado, dirigido por seu pai.

Desde criança mostrou interesse pela literatura. Aos onze anos iniciou um diário que representava importante depoimento psicológico de um adolescente. Otto escreveu também poesias, sobretudo sonetos. Quando terminou o ensino secundário, tinha pronto um volume de contos, mas não publicou.

Em 1938, foi morar em Belo Horizonte, onde foi “fisgado” pelo jornalismo. Dizia ter entrado nas redações “como cachorro entra na igreja: porque achei a porta aberta”. Aos 18 anos, começou a publicar artigos de crítica no periódico “O Diário”, ao mesmo tempo, que divulgava, em suplementos locais e cariocas, poemas em prosa, sob o título de “Poemas Necessários”. Também editou o suplemento literário do “Diário de Minas”. Em 1941, ingressou na Faculdade de Direito. Na época, dava aulas de Português, Francês e História em um colégio de Belo Horizonte.

Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1945. Na então capital federal, trabalhou em todos os veículos importantes: Diário Carioca, Diário de Notícias, O Globo (tendo coberto, para os dois últimos, a Constituinte de 46), Correio da Manhã e Última Hora. Neste último, onde assumiu o cargo de redator principal em 1951, adotou o pseudônimo J.O. para assinar despretensiosas críticas de cinema.Dirigiu as redações da revista Manchete e do Jornal do Brasil. Sobre sua profissão, dizia: “Sou jornalista, especialista em ideias gerais”. Em 1949 foi nomeado para secretário na Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro. Anos depois foi nomeado Procurador do Estado da Guanabara.

Otto também trabalhou na TV Globo por duas vezes, como diretor e apresentador. Teve dois programas: “O pequeno mundo de Otto Lara Resende”, em 1967, e “Jornal Painel”, entre 1977 e 1978, no qual entrevistava escritores, dramaturgos e poetas. Encerrou o contrato com a emissora em 1983, quando aposentou-se como procurador do Estado do Rio de Janeiro.

Nas letras, Otto fez parte de uma geração de escritores mineiros das mais fecundas na literatura brasileira e com três deles estabeleceu uma longa e afetuosa amizade: Fernando Sabino, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos. O grupo foi definido por ele como “cavaleiros de um íntimo apocalipse”.

Sua estreia no mundo dos livros deu-se em 1952 com “O Lado Humano”, contos, sobre temas do cotidiano. Em 1957 publicou “Boca do Inferno”, também contos, onde aborda o universo infantil, em sete histórias nas quais é mostrada a complexidade psicológica das crianças, onde destacava que a infância atormentada pela ideia do pecado e da morte se apresenta muito mais dramática do que pura ou feliz. A obra renderia ao escritor críticas ferozes, uma “saraivada de incompreensões, quase insultos”, como definiu.

Em meio à repulsa à sua obra, o jornalista foi para Bruxelas com a família, em maio de 1957, a convite do Itamaraty, para ser adido cultural na Embaixada do Brasil. Na capital belga, declararia ter vivido os três anos mais felizes de sua vida. Nesse período, deu aula de Estudos Brasileiros na Universidade de Utrecht, na Holanda, quando se deleitou com o mundo acadêmico que – dizia – o fascinava. Repetiria a experiência acadêmica na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), em 1971, depois de desempenhar as funções de advogado da Procuradoria do Distrito Federal e até mesmo a de diretor do então Banco Mineiro da Produção, entre 1963 e 1964.

Ainda que a ficção de Otto Lara Resende posterior a “Boca do inferno” não mantenha os tons carregados deste seu livro, o autor seria, de um modo geral, considerado um contista sombrio, em contraste com a personalidade solar que exibia quando em grupo e que, creem alguns, teria ofuscado sua obra.

Escritor obcecado pela expressão perfeita, Otto Lara Resende voltava exaustivamente aos textos para corrigi-los, e foi com superior exigência que se dedicou a seu único romance, O braço direito, de 1963, do qual há cinco versões em seu arquivo. O livro, que dá voz a Laurindo Flores, bedel de um orfanato do interior de Minas, foi publicado em Londres como The inspector of orphans, em 1968. Este livro acabaria recebendo o Prêmio Lima Barreto, instituído pelo livreiro Carlos Ribeiro.

Outros livros reunindo contos foram “O retrato na gaveta” (1962), “As Pompas do Mundo” (1975) e “O elo partido e outras histórias” (1991). Postumamente, seriam publicados também a coletânea de crônicas “Bom dia para nascer” (1993) e o conjunto de novelas “A Testemunha Silenciosa” (1995).

Sua maior contribuição literária foi fundamentalmente escrita nos jornais e revistas nos quais trabalhou, mas foi na oralidade que ele passou de autor a personagem de nossa cultura. Entre suas frases, algumas pérolas como: “Abraço e punhalada a gente só dá em quem está perto”, “A tocaia é a grande contribuição de Minas à cultura universal”, “Deus é humorista” e “Aproximei-me do espetáculo político pelo que há nele de fascínio humano. A política talvez seja uma forma de tentar driblar a morte.”

Entretanto, sempre negou a autoria da famosa “O mineiro só é solidário no câncer”, atribuída a ele por Nelson Rodrigues. Essa não foi a única polêmica da longa amizade que os dois escritores mantiveram. A outra foi o título dado pelo dramaturgo Nelson a uma de suas peças: “Otto Lara Resende ou bonitinha, mas ordinária”, de 1962. Otto, magoado com a homenagem dúbia, não foi ver o espetáculo. Só veria a peça em 1991, pouco tempo antes de morrer, e apenas porque tinha o filho Bruno entre os realizadores da montagem.

Otto também foi adido cultural na embaixada do Brasil em Lisboa (1966 a 1970), integrando ainda o Conselho Curador da Fundação Roberto Marinho e do Instituto Moreira Salles. Só não acrescentou ao currículo o Ministério da Cultura porque recusou o convite do então presidente José Sarney.

A despeito de seu “seu soberano desprezo por gloríolas, mesmo glórias”, Otto Lara Resende recebeu diplomas, medalhas, títulos e prêmios que hoje tornam longuíssima a sua cronologia. Declarava-se “um poço de contradições”.