Nelson Rodrigues – O cronista que contava a vida como ela é

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Seja como cronista, dramaturgo ou romancista, como autor de obras de ficção ou de textos jornalísticos, Nelson Rodrigues consolidou seu nome como um dos maiores personagens da imprensa do Brasil. Poucas pessoas conseguiram retratar com tamanha precisão as nuances da sociedade brasileira como ele. Em seus textos sobre futebol, política, crimes, relacionamentos, entre outros acontecimentos do dia a dia, Nelson se notabilizou por retratar a vida como ela é, expressão que, inclusive, dá título a uma de suas obras mais conhecidas.

Nelson Falcão Rodrigues nasceu em Recife, em 23 de agosto de 1912. Pouco tempo depois, em 1916, seu pai, o jornalista Mário Rodrigues, decidiu se mudar com a família para o Rio de Janeiro, por conta de problemas políticos em Pernambuco. Na cidade maravilhosa, Nelson Rodrigues construiria toda sua trajetória profissional e viveria até sua morte, em 1980.

Filho de jornalista, Nelson Rodrigues teve contato com a profissão desde cedo. Já estabelecido no Rio, em 1925, seu pai fundou o jornal A Manhã. Nelson, ainda adolescente, costumava frequentar a redação. Assim, aos 13 anos, assumiu a função de repórter policial, abandonando a terceira série do ginásio para se dedicar à reportagem. Em 1929, Mário Rodrigues perdeu o comando do periódico para seu sócio, deixando a redação. Com isso, fundou um outro diário, intitulado A Crítica. Nelson acabou migrando para o novo jornal fundado por seu pai, ao lado dos irmãos Milton, Mário Filho e Roberto.

Caracterizada pelo noticiário policial e pelos relatos sensacionalistas de crimes, incluindo ilustrações remetendo aos casos, A Crítica rapidamente se tornou um sucesso de vendas no Rio de Janeiro. No entanto, uma das histórias publicadas no jornal acabou desencadeando uma tragédia na família Rodrigues. Em 26 de dezembro, uma matéria ilustrada por Roberto Rodrigues e assinada pelo repórter Orestes Barbosa abordava a separação do casal Sylvia Serafim e João Thibau Junior. Revoltada por ter o nome exposto na reportagem, Sylvia invadiu a redação com uma arma e disparou em Roberto, que viria a falecer dias depois. A cena ocorreu sob os olhares de Nelson e de Mário Rodrigues, que deprimido com a perda do filho, viria a falecer em 1930 por conta de uma trombose cerebral.

Sem seu fundador, A Crítica sucumbiu e acabou fechando as portas ainda em 1930. Desempregado, Nelson contou com a ajuda do irmão Mário Filho para conseguir encontrar um novo rumo profissional. Amigo de Roberto Marinho, Mário Filho teve o aval do empresário para conseguir uma vaga para Nelson na redação d’O Globo. A condição inicial era de que Nelson não receberia salário, algo que só seria revertido em 1932, quando ele acabou efetivado como repórter do jornal. Porém, meses após a efetivação, descobriu que tinha tuberculose. Por conta da doença, precisou se afastar da redação para se tratar em um sanatório em Campos do Jordão, em São Paulo. O tratamento foi todo custeado por Roberto Marinho.

Após se curar, Nelson Rodrigues voltou ao Rio para assumir a seção cultural de O Globo. Posteriormente, editou o suplemento juvenil do periódico e chegou a roteirizar histórias em quadrinhos para o caderno. A partir da década de 1940, o contato de Nelson com a ficção se intensificou. Ele passou a se dividir entre o emprego de editor no jornal com a elaboração de peças teatrais, atividade que o alçaria à posição de um dos principais dramaturgos do país. Em 1941, escreveu sua primeira peça A mulher Sem Pecado, que teve pouco êxito. Logo, fez Vestido de Noiva, que estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e se tornou seu primeiro grande sucesso teatral. Ao todo, Nelson escreveu 17 peças entre 1941 e 1978, entre algumas das mais emblemáticas estão O beijo no asfalto, Bonitinha, mas ordinária e Toda a nudez será castigada.

Em 1945, Nelson Rodrigues deixou o Globo para trabalhar nos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Em O Jornal passou a escrever folhetins sob o pseudônimo de Suzana Flag. Tanto nos folhetins como nas peças teatrais, o erotismo e as críticas aos padrões e instituições da sociedade da época marcavam o teor das narrativas, algo revolucionário até então. Suas obras eram consideradas vulgares, obscenas e imorais por seus críticos. Ainda que assinasse textos recheados de erotismo e que quebrassem paradigmas em relação aos costumes daquela época, Nelson se autodenominava como um “reacionário” no aspecto político, mostrava-se um crítico ferrenho da esquerda e na década de 1960 chegou a apoiar abertamente a ditadura militar brasileira.

Nelson Rodrigues jovem. Reprodução

No início da década de 1950, Nelson Rodrigues migrou para a Última Hora, de Samuel Wainer. Foi no jornal que passou a publicar os contos que integram a obra A vida Como Ela É, um dos maiores sucessos da carreira de Nelson. Foi nos anos 1950 também que ele iniciou sua trajetória no jornalismo esportivo, escrevendo crônicas semanais sobre futebol na Manchete Esportiva, onde também trabalhava seu irmão Mário Filho. Nas páginas do impresso, se dedicava a escrever sobre partidas e os personagens de dentro e fora das quatro linhas, com especial destaque para tudo o que envolvesse o Fluminense, seu time do coração.

Nelson tinha uma visão romântica do futebol, o que ficava evidenciado no tom literário com que narrava os acontecimentos envolvendo o esporte. O flerte com a literatura também aparecia nos personagens que surgiam nas crônicas, como o Sobrenatural de Almeida. Quando tudo ia mal para o Fluminense, seja um pênalti perdido, uma bola na trave ou um gol sofrido nos últimos minutos, a culpa era do sobrenatural. O sobrenatural também funcionava como uma espécie de caricatura do torcedor pé-frio, que sempre está desconfiado do seu time. Outro personagem célebre nas crônicas era o Gravatinha, o fantasma do torcedor tricolor que havia morrido e que só aparecia no estádio quando tinha certeza de que o Fluminense ganharia o duelo.

Frequentemente Nelson utilizava o futebol como pano de fundo para descrever a sociedade brasileira. Quando a seleção brasileira venceu a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, conquistando seu primeiro título mundial, Nelson Rodrigues escreveu uma de suas crônicas mais marcantes, na qual define que a vitória possibilitaria que o Brasil se recuperasse de seu “Complexo de Vira-Lata”. Segundo ele, após a traumática derrota da equipe brasileira para o Uruguai no Mundial de 1950, em pleno Maracanã, o brasileiro passou a acreditar que era inferior aos demais países, seja no futebol ou em outros aspectos. “Por complexo de vira-lata entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face ao resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”, escreveu.

Dos jornais Nelson Rodrigues levou seus comentários esportivos para a televisão na década de 1960. Na TV Globo participava da bancada da Grande Resenha Esportiva, a primeira mesa-redonda de futebol na televisão, um formato que se popularizou rapidamente e até hoje é utilizado pelas emissoras. Paralelamente, continuou com sua atividade nos jornais, na literatura e na dramaturgia.

Por onde passou, Nelson Rodrigues deixou frases que até hoje são lembradas. Ele é o autor de máximas como “toda a unanimidade é burra”, “tarado é toda pessoa normal pega em flagrante”, “o casamento é o máximo da solidão com o mínimo de privacidade”, “não admito censura nem de Jesus Cristo”, ou “o brasileiro quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte”.

Nos anos 1970, seu ritmo de atividade começa a diminuir, em função da saúde debilitada. Nelson Rodrigues enfrentou problemas cardíacos e gástricos, chegando a ter úlceras, complicações no esôfago, pâncreas e pulmões, além de uma parada respiratória e um enfarte. Faleceu no dia 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos, e teve seu corpo sepultado no cemitério João Batista, no Rio de Janeiro. Por ironia do destino, no dia de sua morte, Nelson Rodrigues acertou os resultados de todos os 13 jogos da Loteria Esportiva.