Márcio Irion – “Estamos completando um ano no ar, mas o projeto RDC tem cinco anos. E muito estudo e dinheiro nisso”

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Márcio Irion

No dia 2 de julho de 2018, entrava em operação em Porto Alegre a RDC TV. Operando nos canais 24 e 524 da NET, a mais nova emissora de televisão do Rio Grande do Sul chegava ao mercado trazendo um conceito diferenciado: a união da TV com uma plataforma digital integrada, por meio das mídias sociais. Com sede na rua Paraíba, no bairro Floresta, a RDC TV conta com cinco estúdios em um espaço de 1,2 mil metros quadrados.

A emissora é mais um investimento do Grupo IEX, criado em 2009 com a proposta de focar na administração de ativos próprios, como controle de empresas das áreas de aviação geral, combustível de aviação, consultoria tributária, locação de imóveis, incorporação, construção, consórcios e aquisição de direitos creditórios em todo o território nacional. O grupo investiu mais de R$ 15 milhões no Rio Grande do Sul nos últimos três anos.

Hoje, passado um ano da criação, seu presidente, Márcio Irion, demonstra certa desilusão. “Hoje não arriscaria investir em comunicação”, reclama. O sócio do Grupo IEX acredita que, embora tenha acertado no formato do negócio, as dificuldades do mercado local prejudicam o retorno financeiro. No entanto, o empresário ainda tem boas expectativas para o segundo ano de atividades da emissora.

Nesta entrevista para a revista Press, Irion fala sobre os desafios de administrar um novo empreendimento em comunicação, as dificuldades do mercado gaúcho e o pouco apoio do empresariado, do setor público e das agências de publicidade.

A RDC TV está completando um ano de atividades. O desafio era maior do que imaginava?
Eu não imaginava que o mercado fosse tão desconfiado quando tu resolves empreender na comunicação e fazer diferente. Tem oportunidades, principalmente para um projeto como o nosso, que é multiplataforma, o primeiro do Brasil. Quando tu falas em integrar a comunicação em uma plataforma simultânea, tens um universo de oportunidades. Agora, se tu vais me perguntar se o mercado está pronto para essas oportunidades, eu acho que não está pronto ainda.

E é o mercado gaúcho que é assim ou é o país todo?
É o mercado gaúcho. Aqui, o modelo também de comunicação e mídia que está posto é o status quo antigo, então não se vê oportunidades para um veículo de comunicação que gera não só conteúdo, mas oportunidades para a comunicação que não existem em outros locais. O mercado regional é muito restrito. E um veículo de comunicação inovador, uma startup de comunicação como a RDC TV é uma oportunidade de fazer história no Estado. Mas, isso tem que partir das pessoas, dos empresários, das agências.

A maior dificuldade é as agências de propaganda ou os anunciantes entenderem isso?
Acho que os anunciantes, apesar de quererem posicionar as marcas deles, muitas vezes só consideram aquilo que as agências, tecnicamente, apresentam. Mas, a grande maioria das agências não oportunizam que seus clientes exportem o seu conteúdo. Não quero generalizar as agências como um todo, porque a Matriz, por exemplo, foi uma que, desde o início, nos apoiou, entendeu a importância de uma startup de comunicação como a RDC. Mas, a diferença da RDC em relação aos outros veículos é que possibilitamos a exportação de conteúdo. Os outros veículos importam conteúdo, ele é nacional. Na RBS com a Globo, no SBT, na Record, toda a produção é centralizada de forma nacional, com muito pouco tempo local. E aquele conteúdo que é produzido localmente é distribuído apenas de forma local. Uma multiplataforma, como a RDC, exporta o conteúdo e a marca que está aqui, e acho que aí existe muitas possibilidades de comunicação.

Vocês já têm como mensurar o quanto dessa audiência é aqui no Rio grande do Sul e o quanto é fora do Estado?
A nossa programação, em 11 meses, foi assistida em mais de 900 cidades, não apenas nos 27 estados brasileiros, mas em mais de 90 países. Ou seja, atingimos uma grande capilaridade muito rapidamente. Então, nós não somos como qualquer startup que, ao lançar uma grande ideia, vai buscar capitalizar ela com investidores para fazer uma mídia off-line e tornar a marca forte. Vai pegar o Uber, a Airbnb. Em qualquer grande startup de tecnologia, o modelo de potencialização da marca é off-line. Então, a Uber não seria o que ela é se ela não tivesse lançado essa tecnologia no aplicativo e não tivesse divulgado um adesivo no chão do aeroporto no momento que você sai do avião até a porta do carro. Eu te digo que nós, como uma startup local, ou não estamos sabendo comunicar isso ou o mercado não está sabendo aproveitar essa oportunidade no Rio grande do Sul.

Ou é o tempo de maturação? Porque todo projeto novo em comunicação leva em torno de  sete anos para se estabelecer.
Tradicionalmente, nesse modelo de negócio, acho que seria um tempo razoável ter de quatro a cinco anos para o payback. Mas, quando falamos de uma startup, onde a velocidade de informação e a tecnologia muda muito rápido a cada seis meses, não dá para usar o mesmo critério. Em uma startup de comunicação, daqui a seis meses, tudo que a gente está fazendo pode estar obsoleto. Então, é preciso estar se reinventando e tem que ser rápido. Se o mercado for esperar sete, oito anos para aproveitar uma startup como a nossa, já vai ter passado o tempo, porque alguém vai entrar com muito dinheiro de fora e vai fazer a mesma coisa que a gente está fazendo.

A sustentabilidade desse projeto vem da publicidade?
Não só publicidade, porque é uma startup de comunicação. Nós vamos, por exemplo, lançar a nossa linha de infoprodutos. Hoje usamos só 10% da nossa capacidade de produção aqui dentro. Então, isso aqui pode ser usado para produção off-line e não necessariamente para a grade da RDC de uma maneira fantástica em termos de tecnologia. Hoje, qualquer pessoa que tenha um talento, ela acaba se tornando um protagonista, se fizer um bom trabalho, no Youtube, mas ela não tem estrutura. Se pegar os infoprodutos hoje que estão na rua e for olhar, tu vais ver que a grande maioria são de baixa qualidade. A RDC traz essa oportunidade de trabalhar na linha do crescimento de outras frentes de monetização que não só a publicidade.

Dentro daquela tua expectativa de um ano atrás, o quanto se confirmou e o quanto mudou a tua ideia sobre o investimento na emissora?
Hoje, com muita franqueza, eu não o faria, diante de todas as dificuldades que a gente vem tendo. Isso aqui é quase que um trabalho filantrópico. Porque passam por aqui mil pessoas que não teriam oportunidade em lugar nenhum. E todo mês eu tenho que botar recursos. Eu diria que, por não ter uma aceitação, um sentimento do mercado de que isso é bom para o Estado, bom para as marcas locais, alguém tem que pagar essa conta. E o custo disso é muito pesado. Primeiro, porque a gente vem de uma herança de uma relação de trabalho muito engessada. Nos nossos primeiros 30 dias, a gente teve três fiscalizações aqui. Uma do sindicato dos radialistas, uma do Ministério do Trabalho e uma do Ministério Público do Trabalho. As pessoas que estão trabalhando aqui, que são praticamente 100 pessoas, não teriam oportunidade em outro veículo, estariam fora do mercado de trabalho. A gente está num modelo onde tudo conspira para que não funcione. É um modelo contra o empreendedor.

Na época, o que te atraiu ao projeto, o que te fez apostar na ideia?
Na verdade, foi um projeto de quatro anos de estudo. A minha dúvida era a dúvida de muitos e que ainda existe: para onde vai a televisão do futuro? Quando eu tive a primeira oportunidade de comprar uma emissora de canal aberto no Rio Grande do Sul, que não estava bem, e que tinha oportunidade de fazer investimento, essa era a pergunta que eu fazia como investidor. Eu seria apenas um investidor, colocaria apenas uma cota lá. Mas, resolvi fazer diferente. Eu disse: “vamos entender como funciona isso fora daqui, olhando a tecnologia”. Enviei duas pessoas para os EUA, porque eu sabia que a TVCom, por exemplo, o modelo que os executivos tinham trazido era um modelo europeu. E eu, como sou um cara que admiro muito o modelo americano de negócios, pedi para duas pessoas irem para lá, e eles ficaram lá durante dois anos, fazendo um estudo. Tem mais de sete mil emissoras nos EUA nesse modelo que fazemos aqui. Para nós isso aqui é novo, mas lá é antigo.

A qual conclusão chegaram com essa análise?
Percebemos que tinha oportunidade de fazer uma emissora de televisão local, invertendo a lógica de conteúdo. A televisão não acabaria e não vai acabar como ambiente de geração de conteúdo. Agora, se me perguntar o que vai acabar da televisão, vai acabar o modelo de televisão aberta com retransmissão. Sabe por quê? Porque a internet 5G vai tomar conta e as pessoas não precisarão depender do sinal de retransmissoras. E nós sabíamos disso. Foram quatro anos de estudo para chegar onde a gente chegou. E o grande diferencial que tivemos foi quando nós visitamos uma startup de tecnologia na Califórnia e fizemos um brainstorm lá do nosso projeto – já finalizando a visita do meu pessoal nos EUA – sobre os veículos que lá existiam e o que a gente poderia fazer aqui. Foi lá, nessa reunião, que surgiu a ideia de fazer algo multiplataforma com transmissão simultânea. Porque multitela já existia, já era uma realidade. Mas, a multiplataforma e geração de conteúdo de maneira simultânea, não. Então, a gente trouxe para cá, depois de praticamente quatro anos de estudo, e implementou. Estamos completando um ano no ar, mas o projeto RDC tem cinco anos. E muito dinheiro nisso, muito dinheiro.

Tu estavas com a vida mansa e resolveu achar sarna para se coçar?
O que eu boto por mês aqui para manter a operação eu continuaria com a vida mansa. O que eu invisto por mês aqui eu poderia passar de segunda a sexta-feira em Gramado, Canela, tomando um vinho, curtindo… Mas eu boto aqui para cobrir o furo que tem mês a mês. Eu te diria que todo empresário tem que ter a parte do amor, do acreditar, mas também precisa ter o pragmatismo. A conta tem que se pagar. E eu diria que estou encerrando esse primeiro ano com esse sentimento de entrar para o pragmatismo. Acho que a paixão, fazer bonito, fazer graça para o diabo rir, encerra no primeiro ano.

Alguém tem que pagar a janela, se o pessoal quer janela, o mercado tem que, de alguma forma, ajudar…
E o mercado de comunicação é um mercado viciado, então a gente perde muito faturamento aqui. Como a gente está muito preocupado com a estrutura do negócio, acaba não conseguindo cuidar o micro. Só que é no micro que as pessoas não percebem que podem perder o macro. Gerenciar um veículo de comunicação é um grande desafio. Eu te diria que quem gerencia um veículo de comunicação e consegue fazer isso bem feito é um empresário de sucesso.

O broadcast também está com dificuldade. As grandes redes já tiveram seu auge e hoje também têm dificuldades para fechar seus número. O bolo publicitário diminuiu ou pelo menos não cresceu como deveria crescer nos últimos 20 anos, e as verbas estão mais pulverizadas. Nesse contexto, uma startup de comunicação como a RDC TV não entrou numa seara muito conturbada? Não é um mercado muito instável?
Eu acho que ele se tornou instável. Porque ele já foi um mercado bom. Se a gente pegar hoje – e é importante sair aqui do Estado – qualquer modelo de outros estados que cresceram ao longo dos anos, vemos que o Rio grande do Sul ainda fica muito com aquele discurso de que as coisas estão bem. Mas, não estão. Na verdade, a gente precisa mostrar as coisas do Rio Grande para fora para que a gente traga investimentos para cá. O bairrismo do gaúcho não se aplica na prática. Essa é a verdade. O bairrismo é muito bonito no discurso.

Mas na hora de apoiar os projetos daqui…
Não apoia. As grandes marcas do Rio Grande do Sul, grandes empresas, fantásticas, elas estão com suas agências em São Paulo, procurando por mercado externo, e olhando muito pouco para as oportunidades que o Estado tem para oferecer. Eu acho que se nós tivéssemos um setor empresarial olhando mais pro Rio Grande do Sul, como oportunizar as coisas que acontecem aqui para potencializar isso, a coisa seria diferente. Nós estagnamos no tempo e não produzimos, não geramos nossas riquezas porque não acreditamos nas coisas daqui. Viramos um estado primário, exportador. Quanto mais grão produzimos, quer seja arroz, soja, milho, seja o que for, um pouquinho de trigo, parece que o estado vai bem, mas não está. Veja, por exemplo, o setor produtivo industrial: o que cresceu a indústria do Rio Grande do Sul? Cresceram aqueles que já estavam grandes. E se olharmos para o vizinho, Santa Catarina, do lado, o que cresceu nos últimos 20 anos a indústria de Santa Catarina? Em todas as regiões, não concentrada, distribuída. Viajando do Norte ao Sul de Santa Catarina tu vais encontrar isso.

O apoio local à emissora é baixo?
Quer um exemplo: a prefeitura de Porto Alegre. É uma vergonha, a prefeitura sequer veio aqui nos prestar o que é dever dela, que é estar presente, informando a população. Várias vezes a prefeitura de Porto Alegre, por exemplo, se negou a participar dos programas. E é dever dela usar veículos como o nosso para poder informar a população. Talvez, justamente por isso, por não querer que dê certo.

O prefeito nunca veio à emissora?
Nunca veio aqui, foi convidado várias vezes, nunca se fez presente.

Qual é o perfil do espectador da RDC TV?
A gente resolveu fazer uma grade de programação e geração de conteúdo voltada a todos os públicos. Primeiro, estudamos qual conteúdo nós iríamos informar. Temos uma boa atuação no esporte e somos a única emissora gaúcha que mostra todos os esportes. Quem mostraria a maratona de Porto Alegre? O futevôlei? O hipismo gaúcho? Quem mostraria o futsal, como nós mostramos a terceira divisão em Pelotas, com mais de 300 mil pessoas assistindo? Isso são segmentos de conteúdo que ficariam órfãos se nós não existíssemos. Órfãos, porque ninguém consegue potencializar o conteúdo de maneira individual. O nosso perfil tem do esporte, tem de variedade, tem o perfil conectado às novas plataformas, como é o programa da Ali Klemt, que é uma grande influencer, que praticamente se potencializou a partir do momento em que a RDC entrou no ar e que hoje tem uma atuação de protagonismo no mercado de influencers do Rio grande do sul. A gente tem programas também voltados à política, como o Cruzando as Conversas, que oportuniza aos políticos gaúchos eleitos terem um lugar para poder apresentar suas ideias e defender seus pontos de vista, que não teriam em outros lugares. Atingimos todos os públicos nos programas que temos. E à medida que a RDC cresce, ela vai atingir cada vez mais público e se fortalecer com isso. Nós tínhamos, por exemplo, um projeto fantástico infantil para botar no ar e não tivemos condições financeiras, que era resgatar um programa infantil lúdico, ou seja, um teatro, uma telenovela infantil. E nós não tivemos apoio do empresariado, não tínhamos patrocínio para botar um projeto fantástico.

E as empresas nacionais que queiram conversar com o público gaúcho?
Acho que esse é um grande caminho a ser percorrido por nós. Eu vejo que as agências nacionais – e aí sim a cabeça é diferente – eu tenho ido a São Paulo, tenho ido ao Rio de Janeiro, tenho ido a agências espalhadas pelo Brasil e eu percebo que eles se sentem carentes de ter uma opção de colocar mídia nacional, porque hoje o modelo deles é o seguinte, “eu tenho que fazer um pacote de mídia, entregar isso pra globo, entregar pro SBT, pra Record, tudo a nível nacional, e eles vão me dizer quanto vão botar no RS, quanto vão botar no nordeste”. Quando tu tens um veículo, como o nosso, gerando conteúdo local, eles sabem exatamente que vão atingir o público local. E à medida em que a gente cresce, a gente vai chegar nesse público local. Eu te diria que a visão das agências nacionais já é um pouco diferente. Nós temos que fazer esse dever de casa sim, de buscar isso, o que para mim é um grande sentimento de perda, quando a gente sai daqui para buscar o que nós poderíamos fazer aqui.

O que destacaria de pontos positivos dessa experiência à frente da emissora?
Eu acho que de pontos positivos é justamente saber que acertamos na forma do negócio, na forma de gerar conteúdo, de dar oportunidade para as pessoas e ter o reconhecimento do público – esse é o mais positivo. E, também, acertamos na forma de ter hoje, depois de um ano, um time aqui dentro que acredita no projeto. Hoje temos um time de primeira linha, com pessoas envolvidas e dedicadas.

Quais os planos para este próximo ano?
O segundo ano é o divisor de águas. Ou vai ou racha, não tenho dúvidas. Acho que já vai ter maturado tempo suficiente para que as pessoas saibam que a gente existe. E, a partir de saberem que a gente existe, e do quanto isso é importante para o Estado e para as pessoas do Rio Grande do Sul, queiram estar com a gente. Já temos esse feedback. Por exemplo, nos últimos meses, recebemos empresas pequenas e médias nos prospectando para estarem aqui conosco. E acreditamos que isso vá acontecer em escala. Creio que no segundo ano a gente começa a colher. Já passou o tempo em que as pessoas tiveram a oportunidade de nos conhecer. Temos feito uma divulgação digital muito boa, e acho que as empresas, as agências e os empresários vão começar a nos enxergar. Até porque começamos a ter um protagonismo maior nas transmissões.

Vão ganhar mais visibilidade?
Exatamente. Por exemplo, nós fizemos a maratona de Porto Alegre e vamos fazer agora o Festival de Cinema de Gramado com uma megaestrutura, levando para o mundo inteiro uma transmissão que ninguém nunca levou. Então, a gente tem a oportunidade de ser protagonista e a partir daí ganhar visibilidade nacional.