Luiz Ernesto Lacombe – “O jornalismo da Globo, hoje em dia, desandou. É um jornalismo que tem – como grande parte da mídia tradicional – o objetivo de ser contra o governo, de derrubar o governo”

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Em junho, em uma das situações recentes mais polêmicas do jornalismo brasileiro, Luís Ernesto Lacombe deixou a apresentação do programa Aqui na Band, após uma intervenção considerada “política” da emissora no programa. O departamento de jornalismo considerava suas pautas “tendenciosas” a favor do governo de Jair Bolsonaro. Já Lacombe afirmou ser um defensor da “liberdade, democracia e justiça”.

 Nascido no Rio de Janeiro em 2 de agosto de 1966, o jornalista, escritor e agora youtuber começou sua carreira em televisão em 1988 como estagiário da TV Bandeirantes, Também teve passagens pela TV Manchete, RBS TV Santa Catarina e Globo News.

Esportista, Lacombe praticou, desde os quatro anos de idade, natação, vôlei, basquete, tênis, judô e jiu-jitsu. Até os 22 anos, foi velejador do Clube Naval, do Rio de Janeiro. Em 2003, surgiu a oportunidade de passar para o jornalismo esportivo. Tornou-se editor-executivo e apresentador do Supervolley, do canal a cabo SporTV. No ano seguinte, assumiu a apresentação do Esporte Espetacular, da Rede Globo, onde ficou por sete anos. Em 2011, tornou-se apresentador dos blocos de Esporte do Bom Dia Brasil. Em fevereiro de 2017, deixa a Rede Globo e vai para a Bandeirantes, onde ficou até junho.

Nesta entrevista para o jornalista Julio Ribeiro, Lacombe fala sobre sua saída da Band, suas opiniões sobre influências políticas no jornalismo e na cultura e os planos para o futuro, entre outros temas.

Quem estava acostumado com o Lacombe da Globo teve um certo choque ao ver o Lacombe da Band, que começou a dar opinião, inclusive a questionar mais incisivamente seus entrevistados. O que aconteceu? Tu tiveste o espaço que não tinhas na globo e tu sempre tivesses essas posições, mas não podia expressar?
Desde muito pequeno eu posso me considerar um cara de direita. Meu pai, que morreu muito novo, era um executivo, foi diretor de grandes empresas, formado pela Escola Nacional de Administração de Paris, que é a maior e melhor da Europa, eu sou neto por parte de mãe de um imortal da Academia Brasileira de Letras, um intelectual católico de direita, Américo Jacobina Lacombe, então essas duas pessoas, meus maiores ídolos, foram quem me moldaram. Estudei no colégio são Vicente de Paula, no Rio, da sexta série até o terceiro ano, e eu tive professores de esquerda, comunistas mesmo, e eu tinha vários embates e várias discussões em sala de aula. Esse jornalista que surgiu hoje naquela época de escola já existia. Eu vivia discutindo com os professores, que viviam elogiando a União Soviética como se ela fosse o paraíso dos paraísos. Eu sempre gostei muito de ler, então eu lia muito e rebatia.  Quando entrei no Aqui na Band eu assumi um programa de entretenimento. Talvez, eu não tivesse me posicionado desde o primeiro momento desta maneira se fosse um telejornal, se fosse um programa exclusivamente jornalístico. Meu diretor, Vildomar batista, e a direção da Band, sempre me deram liberdade total para me posicionar. Começou meio que por acaso, a gente nem tinha essa intenção, meu diretor até nem queria muito entrar em assuntos políticos e polêmicos, mas acabou que foi natural. Um dia surgiu a questão da discussão sobre armamento, sobre posse e porte de armas, sobre o qual sou totalmente a favor, acho que é uma liberdade individual. Talvez, eu não queira ter armas, mas eu acho que não posso impedir ninguém de exercer a legítima defesa. A Silvia Poppovic, que apresentava comigo, é totalmente contra, e nós começamos a ter alguns embates, fui me posicionando, e dessa maneira o programa foi transcorrendo e eu fui tendo a liberdade para opinar. Então aconteceu tudo muito rápido.

Havia um público muito grande desejoso de jornalistas posicionados à direita. E por uma série de razões, assim como a cultura, as artes plásticas, a literatura, no jornalismo sempre a grande maioria dos profissionais foram de esquerda. Tu começaste a perceber que o público reagia tipo “me sinto representado”?
O Alexandre Garcia, que é um grande amigo, fala muito disso, e eu assino embaixo, as faculdades de comunicação são voltadas à esquerda. Tenho dois filhos universitários, de direita, e eles sofrem muito na faculdade, porque é uma ideia dominante esquerdista entre os alunos e professores. Eu percebi isso no primeiro momento na faculdade. A maioria dos alunos imaginava que estava ali para se formar militantes. E não é absolutamente o intuito de uma faculdade. Eu estava ali sabendo que queria me formar um profissional de comunicação. E quanto ao retorno que eu tenho do público, dos meus seguidores, eu gosto de debates de ideias, de argumentação, eu nunca gostei muito de discussões um pouco mais acaloradas e sem argumentação. Mas eu sinto que as pessoas de um modo geral estão muito carentes, elas ficam muito felizes de ter um jornalista, um profissional de comunicação num veículo aberto – porque temos os veículos alternativos – que seja um liberal conservador, não tenho problema nenhum de falar sobre isso, e o retorno que eu tive na Band foi muito bom.

As últimas eleições provaram que o brasileiro é conservador. Se há uma massa muito grande público que tem demanda por pensamento mais à direita, por que os veículos teimam em ser de esquerda? Por que não há espaço por exemplo na Globo que tu trabalhaste, para alguém que possa dizer “peraí, talvez, quem sabe, entretanto”?
Por muitos anos eu achei que eu trabalhava numa emissora mais à direita. Eu preciso deixar isso muito claro, porque sempre falam isso. Eu não tenho, absolutamente, nenhum rancor contra a empresa, a instituição Globo. Eu trabalhei 20 anos na empresa, com um bom salário, com totais condições de trabalho, recebendo em dia, com ótimos profissionais, ótimos equipamentos. Eu sou muito grato a tudo que me proporcionaram. Obviamente, que eu dei em troca, mas sou muito grato pelo que eu pude construir na Globo. Mas eu percebo que o jornalismo da Globo, hoje em dia, desandou. É um jornalismo que tem – como grande parte da mídia tradicional – o objetivo de ser contra o governo, de derrubar o governo. Eu vi algo absurdo, essa discussão de fake news, a gente fez um programa sobre isso. As pessoas tem a ideia de que fake news, notícias falsas, desinformação (chame como você quiser, sempre houve), só existem na mídia alternativa, nas redes sociais. Absolutamente não. Eu não sei se você chegou a ver um vídeo em que no dia daquela divulgação do vídeo da reunião ministerial, em que no Jornal Nacional o William Bonner chama um trechinho de sonora dizendo “O presidente Bolsonaro pediu ao ministro Sérgio Moro que queria ser blindado”. Na entrevista ele fala o contrário, que não queria. E o Bonner faz a correção 15 minutos depois e isso a gente não chama de fake news, chama de erro. É uma desatenção estranha, passou por um editor, o Bonner e os executivos dele olham todos os VTs antes de irem ao ar. O que mais me impressionou foi que 4 horas depois, no Jornal da Globo, o repórter chama esse trecho de entrevista do Bolsonaro da mesma maneira, com as mesmas palavras. Rodam a entrevista, o Bolsonaro diz a mesma coisa, “não quero ser blindado”, e eles vão corrigir depois da mesma forma. É algo impressionante, não entra na minha cabeça. A reportagem sobre o porteiro do condomínio do Bolsonaro. O que é aquilo? Uma pré-pauta que vira reportagem. É muito triste.

As maiores fake news são as produzidas pelos veículos de comunicação tradicionais. A fake news produzida pela Folha de São Paulo, pela Veja. Não ficas preocupado com o nível a que chegou o jornalismo?
Estamos todos. É outra pré-pauta que vira primeira página. Você ouve dizer “parece que empresários contrataram serviço de whatsapp pra abuso econômico e tal” e você não apura, você não tem as provas, não tem os contratos, você não tem nada, mas mesmo assim você faz a reportagem. É uma militância num nível absurdo, você se entregar a um desejo obscuro, não tão obscuro, mas um desejo que você traz com muita força, a ponto de te levar a ser contra um governo dessa maneira. Para um jornalista, isso é o fim da picada. Não dá para a gente errar nesse nível e não dá para ter compromisso com o erro. É algo inacreditável, o que a gente tem visto é inacreditável.

Chegou alguma pressão para de alguma forma te censurar?
Esse é um interno delicado, não vou falar sobre isso. Mas o caminho que eu tomei é um caminho sem volta, eu não posso agora dizer do nada que eu sou um isentão e me manter calado. Mas veja bem, eu não gosto de ser chamado de bolsonarista. Eu friso sempre, eu não tenho políticos de estimação, eu não sou partidário, eu não faço parte de patotas, mas eu tenho a cabeça aberta. Então, como jornalista eu sou curioso, sou desconfiado, eu olho o que acontece no mundo e no Brasil e vejo o que dá certo e o que dá errado. Eu não consigo entender, já que falamos aí de um liberal conservador, eu não consigo entender alguém defender um Estado enorme, supostamente pai de todos, tutor, fomentador de crescimento e desenvolvimento, se isso não deu certo em lugar nenhum no mundo. Eu defendo esse Estado menor, eu gosto do Paulo Guedes, acho que as ideias dele são boas, e temo muito neste momento que a gente tem duas correntes no governo, na reunião ministerial que foi indevidamente divulgada pelo ministro Celso de Mello, mas você vê que o Rogério Marinho, no desenvolvimento regional, defende o Estado que o PT defende, que o PSDB de certa forma defende, o Estado que vai fomentar o crescimento e o desenvolvimento. E o Paulo Guedes fala “não é por aí”. Reformas estruturantes e setor privado. Eu acho que esse é o caminho para a gente. Se você for pensar o Brasil nunca foi verdadeiramente um país liberal, um país capitalista como o capitalismo deve ser.

O governo não é perfeito, o Bolsonaro foi eleito porque ele é tosco, porque nesse momento a gente precisa de um casca dura, de alguém pra botar a mão na porcaria e limpar tudo. Mas desde o início e a gente só vê críticas, será que não tem nada certo?
Tem muita coisa certa. A gente estaria derrubando talvez essa resistência toda neste ano, 2020 a previsão era de um crescimento acima de 2%, desemprego caindo, as coisas todas andando, entrando nos eixos. E de repente vem essa pandemia, e obviamente essa quarentena destruiu tudo. Eu entendo que a gente tem que tomar alguns cuidados, mas acho que as decisões foram tomadas um pouco de certa forma sem equilíbrio. A gente poderia ter encontrado um caminho mais equilibrado. Mas obviamente que tem muitas coisas boas acontecendo. A gente tá nesse período de incertezas, muito conturbado, mas olha o ministério que o Bolsonaro montou, ninguém fala disso. Sem loteamento, sem divisão entre os partidos. Com técnicos. Paulo Guedes, o Tarcísio Freitas, a Tereza Cristina. É um ministério como a gente não via fazia muito tempo. E aí você vê as contradições. Obviamente, eu não gosto de Centrão, tem muitos deputados do Centrão implicados em denúncias de corrupção, mas falavam tanto que o Bolsonaro não negocia com o Congresso. Aí quando ele, encurralado, resolve tentar uma aproximação, “olha só o Centrão”. Mas é pra conversar ou não?

Você é de família judaica. o que acha desse pessoal que chama o presidente de nazista?
Algumas vezes já mandaram mensagem no meu Instagram do tipo “passando pano pros nazista, né?”. Eu sou neto de um judeu alemão, meu avô Ernest Heilborn — me chamo Ernesto por causa dele —, veio para o Brasil em 1934 fugindo do nazismo. E eu reconstruí toda a história da minha família, baseado em cartas da minha bisavó alemã, que morreu em um campo de extermínio, e a minha resposta pra essas pessoas é sempre a mesma. Leia “Cartas de Elise, uma história brasileira sobre o nazismo”, livro que eu escrevi contando a saga da parte judia-alemã da minha família, que foi devastada pelo nazismo. Se você não descobrir o que é nazismo lendo esse livro, eu posso indicar outros. As pessoas confundem ultranacionalismo com patriotismo. Patriotismo não tem nada a ver com ultranacionalismo, é completamente diferente. Se você for pegar, por exemplo, o capitalismo de compadres, que a gente tinha na época do PT, do Lula, em que só os amigos do rei, Odebrecht, JBS, Oi, se criavam, conseguiam crescer, você vai encontrar isso no nazismo… Várias empresas alemãs se estabeleceram a partir do apoio ao Hitler e ao seu regime. O nazismo e o fascismo são apoiados por forças militares e paramilitares e não pelo povo. Como é que um fascista vai dizer que defende o porte de arma? Primeira coisa que faz um nazista, um fascista e um ditador, é desarmar o povo. Como é que alguém que defende o estado mínimo pode ser chamado de fascista? É um discurso dissimulado e mentiroso.

São apenas manipulados? Apenas repetem o que lhes foi ensinado?
O que a esquerda fez muito bem. A esquerda ocupou a cultura, as universidades, as escolas e vendeu essa ideia de que a bondade e a fraternidade e a solidariedade são uma exclusividade da esquerda. O que é uma bobagem. Se você for comparar, então, se bem que ainda há essa discussão sobre o nazismo ser de esquerda ou de direita, mas, vamos lá, vamos considerar que o nazismo e o fascismo sejam de direita…Vamos ver quem matou mais, onde tem mais horrores…Vamos pegar a Alemanha, era dividida em Alemanha Ocidental, capitalista, e a Alemanha Oriental, comunista. Quando caiu o muro de Berlim, para que lado as pessoas correram? Quem era proibido de deixar o seu País?

Vai demorar muito para o país deixar de ficar refém desse pensamento de esquerda?
Eu acho que seria um processo orgânico, acho que contra fatos não há argumentos, contra uma economia que avança. Porque o pessoal da esquerda tem essa visão, de que o Estado vai me ajudar, o Estado vai fazer aquilo ou isso. E eu tenho discordado do João Dória, eu até gosto das ideias liberais dele, ele se afastou de muitas coisas que eu defendo e hoje tenho restrições ao Dória. Mas eu concordo com ele quando ele diz — não é uma frase dele, mas ele acabou citando e ficou conhecido por essa frase — “o melhor programa social é o emprego”. Então, se você tem uma economia forte, pujante, que vai crescer… Imagina se a gente tivesse seguido o curso normal, sem o vírus chinês, a expectativa era crescer 2,5%, e ano que vem seria melhor ainda, 3%…E a gente iria, organicamente, convencer as pessoas de que elas estavam progredindo, que estão crescendo.

Mas aí nós vemos um ex-presidente que deveria estar preso, se a lei no País fosse levada a sério, dizendo que foi bom o vírus ter chegando, porque agora vão entender que se precisa do Estado. Agora imagina se isso fosse dito pelo Bolsonaro…
É impressionante a capacidade que as pessoas têm em abstrair o que a esquerda fala, né, e aumentar e produzir ruindade no que a direita fala. Isso é inacreditável. Você pode pegar, por exemplo, eu falei isso no Aqui na Band do ódio nas redes… Mas, peraí, vamos combater o ódio dos dois lados, e quando fez um ano do atentado contra o presidente em Juiz de Fora a hashtag que a esquerda subiu foi #quefacadamaldadaadélio, aí tem uma atriz que quer esfregar a cara do Bolsonaro no chão com asfalto quente, e tem pessoas que destilam ódio, mas é o ódio “do bem”, esse pode. Essa patrulha seletiva, as pessoas fazem uma patrulha seletiva, e isso é muito triste. É um combate longo, é um combate cansativo, mas ninguém pode esmorecer, e vai demorar muito tempo.

Jornalistas de direita, conservadores, são discriminados na grande mídia?
A grande maioria dos jornalistas é de esquerda. Para alguém que se posiciona mais à direita, sim, pode haver problemas de relacionamento. Nos bastidores, nem sempre o clima se mantém amigável… Em sua carta de demissão, a ex-editora de opinião do New York Times Bari Weiss fala sobre o “bullying” que sofreu de colegas “progressistas” na redação do jornal. Não se trata apenas de uma agressão a um profissional, mas a um princípio básico do bom jornalismo: o equilíbrio, o debate de ideias, a convivência entre contraditórios, o espaço para todos os lados de uma história.

E os planos para o futuro? Teu canal já está com uma audiência comparável ou maior do que tinhas na Band. O mundo digital é caminho certo pra quem quer prosperar no jornalismo? Pode ser a saída para quem pensa diferente do mainstream?
Não quero deixar de trabalhar em televisão, estou nisso há 32 anos e mantenho conversas para concretizar essa volta. Agora, o mundo digital, ao qual não dediquei até hoje tanta atenção, se abriu com muita força para mim. Não esperava que meu canal no YouTube estreasse com audiência de TV e chegasse tão rapidamente a um milhão de inscritos. O resultado é realmente sensacional e estimulante. É inegável que a mídia digital oferece mais liberdade e, por isso, torna-se cada vez mais procurada. É um caminho inevitável para quem, de forma argumentada, responsável e com bom senso, quer se posicionar, o que é diferente de fazer militância.

Entrevista: Julio Ribeiro
Fotos: Divulgação