Lima Barreto – Um jornalista entre a loucura e o talento

88
COMPARTILHAR

Muitas vezes pessoas talentosas são ignoradas e têm seu gênio reconhecido apenas muito tarde ou menos após sua morte. Os exemplos são vários, como Van Gogh, Rembrant, Bach, Thoreau. No Brasil, um dos mais tristes casos dessa negligência foram as obras do jornalista e escritor Lima Barreto.

Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1881, filho de João Henriques de Lima Barreto e de Amália Augusta Pereira de Carvalho. Sua mãe era filha de escravos e tornou-se professora primária e proprietária de uma escola para meninas. Seu pai foi tipógrafo e trabalhou em jornais do Rio de Janeiro e na Imprensa Nacional. João Henriques era ligado aos liberais do fim do Império, principalmente ao visconde de Ouro Preto. Por conta dessa identificação política, após a proclamação da República sofreu perseguições e perdeu o cargo de mestre de composição na Imprensa Nacional.

Não bastasse o desemprego do pai, Lima Barreto perdeu a mãe, vítima de tuberculose, quando tinha sete anos. Com três irmãos mais novos, foi tido por criança dotada, cuja inteligência estava acima da média dos meninos de sua idade.

Para seu biógrafo Francisco de Assis Barbosa, a infância conturbada, a morte prematura da mãe, os eventos relacionados à chegada da República e a perseguição sofrida pelo pai deixaram marcas profundas não só na personalidade de Lima Barreto, como também no conteúdo de sua obra. Um acontecimento teria marcado profundamente sua infância de menino mulato, órfão e descendente de escravos: a assinatura da Lei Áurea e os festejos da Abolição, no dia em que completou sete anos.

Já outra data simbólica, o 15 de novembro de 1889, foi-lhe extremamente negativa. O próprio Lima Barreto afirmou, em crônica, que “via-a com desgosto”, acentuando que, com o regime republicano, o Brasil se tornara “uma vasta comilança”; era “a subida do partido conservador ao poder, sobretudo da parte mais retrógrada dele, os escravocratas de quatro costados”.

Tendo recebido instrução primária em escola pública,  graças à ajuda do padrinho Afonso Celso de Assis Figueiredo (o visconde de Ouro Preto) fez o secundário e estudos preparatórios para cursos superiores em instituições privadas. Por essa época, seu pai foi nomeado almoxarife das Colônias de Alienados, e a família mudou-se para a ilha do Governador, onde se localizavam os hospícios do Rio de Janeiro.

Em 1897, Lima Barreto ingressou na Escola Politécnica e iniciou o curso de engenharia civil. Durante esse período, escreveu para o jornal estudantil A Lanterna, e começou a frequentar cafés, teatros, reuniões políticas e a boemia carioca. Sendo estudante pobre, mulato e com dificuldades no relacionamento com professores e colegas, a atmosfera estudantil e as exigências do curso de engenharia não combinavam com sua personalidade. Além disso, dedicava mais tempo à leitura de tratados filosóficos e romances do que propriamente aos manuais de topografia e cálculo.

Em 1903, seu pai se afastou da função que exercia nas colônias de alienados, após uma série de crises de alucinação e pânico que o levariam à aposentadoria. A família foi obrigada a deixar a ilha do Governador e estabelecer residência no subúrbio de Engenho Novo. Com isso, Lima Barreto abandonou de vez o curso de engenharia, influenciado também por uma série de reprovações em uma disciplina.

Tentou dedicar-se ao jornalismo, mas a renda não lhe bastava, pois, com a loucura do pai, foi obrigado a prover o sustento da família. Em 1903 ingressou por concurso público na Secretaria da Guerra, para desempenhar a função de amanuense.

Em 1905, ocorreu sua estréia na grande imprensa com uma série de reportagens publicadas no Correio da Manhã, intitulada Subterrâneos do Morro do Castelo, na qual explorou o mistério e a possibilidade de haver naquele morro túneis e galerias onde os jesuítas teriam escondido documentos secretos e suntuosos tesouros. No mesmo ano, numa rápida passagem pela revista Fon-Fon, publicou artigos sobre literatura brasileira e estrangeira. Dois anos depois, fundou a revista literária Floreal.

Lima Barreto publicou seu primeiro romance, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, em dezembro de 1909. Tendo por pano de fundo a redação de um jornal, o livro contava a história de um rapaz inteligente, honesto, porém mulato, que vinha para o Rio de Janeiro em busca de sucesso, além de conter uma sátira direta às principais figuras do jornalismo da época, que apareciam em situações vexatórias e constrangedoras. Tomado como uma obra cheia de mágoa e ofensiva, o livro foi praticamente ignorado.

Entre 1910 e 1911, publicou na imprensa aqueles que foram considerados seus melhores contos: O Homem que Sabia Javanês e A Nova Califórnia. Os dois contos denunciavam os falsos valores das elites política e intelectual, sua torpeza e sua ingenuidade cínica, quando se tratava de abrir mão de convicções em nome de interesses puramente pessoais.

Ainda em 1911, Lima Barreto deu início à publicação no Jornal do Comércio, em forma de folhetim, da obra Triste fim de Policarpo Quaresma, com a história do patriota desajustado e solitário que leva seu amor à nação às últimas consequências.

Em 1914, Lima Barreto foi impedido de ingressar na Sociedade dos Homens de Letras, entidade para cuja criação muito trabalhara, ao redigir seus estatutos e presidir algumas de suas sessões preparatórias. A situação seria repetida em 1917, quando tentou candidatar-se à Academia Brasileira de Letras, mas sua carta com o anúncio da candidatura sequer foi recebida pela ABL. O meio literário lhe fechava as portas, o que lhe obrigou a permanecer na repartição pública que detestava e que, por uma questão de sobrevivência, não podia abandonar. Isso, combinado aos problemas com o pai, o empurrou ao alcoolismo.

Em agosto de 1914, depois de uma série de crises de alucinação e pânico, Lima Barreto foi recolhido ao Hospício Nacional de Alienados e lá permaneceu até outubro.

Já em 1915, Lima Barreto começou a publicação de Numa e a Ninfa, no jornal A Noite, em forma de folhetim. No mesmo ano, voltou a escrever artigos e contos para a imprensa, sobretudo para os jornais A Noite, Gazeta de Notícias e Correio da Noite, além de crônicas de cunho social e político. Foi nesse ano que começou, também, colaboração na revista Careta.

A infância conturbada, a morte prematura da mãe, os eventos relacionados à chegada da república e a perseguição sofrida pelo pai deixaram marcas profundas não só na personalidade de Lima Barreto, como também no conteúdo de sua obra

No final de 1918, Lima Barreto aposentou-se do cargo que exercia na Secretaria da Guerra. Com o fim do trabalho público e com os irmãos empregados ajudando no sustento da casa e nos cuidados do pai, ele experimentou um sentimento de liberdade até então desconhecido. Foi o momento em que cresceu a produção de artigos de cunho político, sua aproximação da imprensa libertária e dos movimentos sociais e operários. No campo intelectual, o escritor combatia a literatura contemplativa, que julgava ser produto de autores inócuos, que apenas cultuavam a bela escrita. Para ele, a literatura, acima de tudo, tinha que ser a sincera expressão da sociedade na qual era produzida e “dizer aquilo que os fatos não diziam”.

Em 1919, Lima Barreto publicou Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, através da editora Revista Brasileira, de propriedade de Monteiro Lobato. Bem recebida pela crítica, a obra mereceu elogios de João Ribeiro e Tristão de Ataíde, entre outros, o que foi considerado suficiente para que Lima Barreto fizesse nova investida para ingressar na Academia Brasileira de Letras. Sua candidatura foi aceita, mas foi derrotado por Humberto de Campos.

No final de 1919, teve início a troca de correspondência entre Lima Barreto e as principais figuras do modernismo em São Paulo. O grupo, do qual faziam parte Mário de Andrade e Di Cavalcanti, passou nutrir grande admiração por ele e mais ainda pelo Triste fim de Policarpo Quaresma. No ano seguinte,  foi acometido por outro surto de loucura, que o levou novamente ao Hospital Nacional de Alienados, onde permaneceu por dois meses. Ao deixar o manicômio, voltou à imprensa e aos artigos, nos quais abordava as questões do tempo: condenava o futebol, por ser um estrangeirismo; os arranha-céus e os projetos de reforma urbana; o feminismo.

Para ele, a literatura, acima de tudo, tinha que ser a sincera expressão da sociedade na qual era produzida e “dizer aquilo que os fatos não diziam”

Em 1920, publicou Histórias e Sonhos, um repertório de contos publicados na imprensa. Ao longo do ano, reuniu parte de sua enorme produção na imprensa, para que viesse a ser lançada em forma de coletâneas. Já em 1921, Lima Barreto tentou, pela terceira vez, o ingresso na ABL, mas retirou a candidatura sem dar explicações.

Lima Barreto faleceu em 3 de novembro de 1922, vítima de insuficiência cardíaca. Postumamente foram publicados os romances Clara dos Anjos e Cemitério dos Vivos; as sátiras Aventuras do Dr. Bogóloff e Os Bruzundangas; as coletâneas de artigos e crônicas Feiras e Mafuás, Marginália e Vida Urbana; e as memórias Diário Íntimo.